Sim, é o poente.
Logo um painel substitui a pedra
do muro arranhado. Céu apenas,
céu de todas as cores que desmaiam.
Frente a frente, de súbito sentimos
a impura miséria de dar aos outros olhares
o mel que buscávamos por água e fogo,
terra e lua, ar e ferro, sangue e ira.
Céu azul branco, verde ainda azulado,
cinzento pálido entre verde e azul,
vagos tons remotos de cores de nuvens que não o são,
amareladamente escurecidas de encarnado findo.
E tudo isto é uma visão que se extingue
no mesmo momento em que é tida.
Então em nosso fundo descobrimos
que estávamos cegos.
Sentimos e esquecemos.
Ali nosso amor foi a torre invisível
que treme em meio à fumaça.
A ilha foi colocada na altura sonora
e nota por nota a luz ensaiou sua melodia
desde o ponto mais recente da tarde
(sua voz, a cor das letras do dia)
até o ponto onde o sol agora se acaba
a luz extinguindo-se em branco lívido
que se azula de esverdeado frio.
As árvores agora ocupam o perfil do planeta
e patos selvagens emigram ao pólo magnético
raiando o crepúsculo dos litorais
enquanto casais lêem, após o chá,
novelas épicas de Tolstói ou Zola.
Há no ar um torpor do que não se consegue nunca.
E por uma abertura mínima nas almas
assoma o distante domínio que os homens buscam
picando pedras, sombras e vazios.
Talvez no amor restitua-se um cristal estilhaçado no fundo do ser,
um sal espalhado e perdido, um capricho livre
de ter um estilo por destino ; e das raízes que comem
a paz suculenta do húmus nas luas d´água
recebamos nós este roçar que o dia converte em cinzas e sombra.
K.M.
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