Eu era todas as coisas que não existem mais:
uma forma impessoal de melancolia,
uma intermitente ansiedade sem objeto.
Crueldades agradáveis e úteis para saber-me vivo.
Fui procurar ainda nos perfumes do armário
o maço de cartas, para queima-las uma a uma.
Queimei-as na pia da cozinha
lendo em voz alta frases que me passavam pelos olhos.
Interrompendo-me às vezes, em vão,
sem compreender o que via
nem o que estava fazendo.
Ela nunca poderá compreender.
A atmosfera mudada por completo
e alguma alegria assim.
Pagando o preço por alguma coisa que não me...
Abri a torneira e ajudei o papel carbonizado a se desfazer.
As incompreensíveis palavras que não tinham permanecido intactas.
Podia estar adivinhando o fim da repentina presença das lembranças.
Chegavam uma a uma e iam se dilatando no tempo
até se tornarem duras e pesadas, fundir-se e desaparecer.
Mas nao me era possível cobrir-me com a trama
dos dias anteriores, e ela não poderia deduzir o futuro
a partir dessa trama e acabaria por se reconhecer
obrigada a levar os olhos de um traço a outro,
a sentir mais uma vez nos dedos
o verdadeiro significado
da forma da carne e dos ossos.
K.M.
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