domingo, 27 de agosto de 2017

Interrompendo-me às vezes, em vão.

Eu era todas as coisas que não existem mais:
uma forma impessoal de melancolia, 
uma intermitente ansiedade  sem objeto.
Crueldades  agradáveis e úteis para saber-me vivo.
Fui procurar ainda nos perfumes do armário
o maço de cartas, para queima-las uma a uma.
Queimei-as na pia da cozinha
lendo em voz alta frases que me passavam pelos olhos.
Interrompendo-me às vezes, em vão, 
sem compreender o que via
nem o que estava fazendo.
Ela nunca poderá compreender. 
A atmosfera mudada por completo
e alguma alegria assim.
Pagando o preço por alguma coisa que não me...
Abri a torneira e ajudei o papel carbonizado a se desfazer.
As incompreensíveis palavras que não tinham permanecido intactas.
Podia estar adivinhando o fim da repentina presença das lembranças.
Chegavam uma a uma e iam se dilatando no tempo
até se tornarem duras e pesadas, fundir-se e desaparecer.
Mas nao me era possível cobrir-me com a trama
dos dias anteriores, e ela não poderia deduzir o futuro 
a partir dessa trama e acabaria por se reconhecer
obrigada a levar os olhos de um traço a outro,
a sentir mais uma vez nos dedos 
o verdadeiro significado  
da forma da carne e dos ossos.



K.M.

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