Eu tinha a noite de sábado toda para salvar-me.
Estaria salvo se começasse a escrever o argumento.
Se terminasse duas páginas, ou uma, pelo menos.
Se conseguisse fazer com que a morena alta
entrasse no quarto com um roupão de seda branca
cingido ao corpo generosamente proporcionado
e parecendo fatigada. A noite estava apenas
começando, e o vento quente soprava remoinhos
sobre os telhados. Às quatro da madrugada
ela mostrava-se mais cansada do que me sentia
alguém ia rir furiosamente numa janela próxima
outra mulher entraria no quarto de repente
----- E você é Eleanor Dolan???? ----
---- Acho que sou ----
enfiando os dedos nos cabelos pretos brilhantes
eu falando-lhes em voz baixa, mas grave
----É um problema dos diabos uma pessoa lembrar-se
do nome quando a arrancam da cama no meio da noite ----
qualquer coisa repentina e simples então
parecia que ia acontecer. Uma coincidência curiosa.
Qualquer coisa curiosa e intensa
e eu podia me salvar escrevendo
---- Que você pretende , afinal ???? ----
já me havia esquecido, Não me lembrava
do telefonema para comunicar
um homicídio. Talvez a salvação
viesse de algum retrato
de olhos negros arregalados
para me fitar com perplexidade
os lábios movendo-se em silêncio por segundos
antes de as palavras brotarem:
----- Endoideceu ? , não telefonei a ninguém.
K.M.
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