Primeiramente, é verdade que não se opera
a própria criação a partir da ilha deserta,
mas a re-criação, não o começo, mas o re-começo.
Ela é a origem, mas origem segunda. A partir dela tudo recomeça.
A ilha é o mínimo necessário para esse recomeço, o material
sobrevivente da primeira origem, o núcleo ou o ovo
irradiante que deve bastar para re-produzir tudo. (...)
A idéia de uma segunda origem dá todo seu sentido
à ilha deserta, sobrevivência da ilha santa num
mundo que tarda para recomeçar.
No ideal do recomeço há algo que precede o próprio começo,
que o retoma para aprofundá-lo e recuá-lo no tempo.
A ilha deserta é a matéria desse inmemorial ou desse mais profundo
quinta-feira, 31 de agosto de 2017
Contudo, o “nagual não tem limites”
Contudo, o “nagual não tem limites”.
Ele é o poder de afetar.
“Pode-se dizer que o nagual explica a criatividade (...).
O nagual é a única parte de nós que consegue criar” .
A questão é como enfrentar as dificuldades para atingir
este mundo “da Anarquia coroada, se se fica nos órgãos”.
Se são os órgãos que nos fixam nesse mundo,
como operar esse movimento entre forças que se opõem?
Como criar um modo de vida entre tensões?
São elementos que se detestam,
não podem coexistir sem que haja tremores e erupções.
E de onde veio a idéia de que o homem
só pode viver seguro quando esse combate tiver findo?
Não vem das antigas idéias de bem e de mal que fazem o julgamento da vida?
Diz Dom Juan: (...) tudo nelas é triste, as roupas, o cheiro, a atitude.
-Talvez tenham nascido assim – respondi.
-Ninguém nasce assim. Nós nos tornamos assim.
Para quem se acostumou a viver tonal,
como andar em terras onde não existem deuses para julgar?
Ele é o poder de afetar.
“Pode-se dizer que o nagual explica a criatividade (...).
O nagual é a única parte de nós que consegue criar” .
A questão é como enfrentar as dificuldades para atingir
este mundo “da Anarquia coroada, se se fica nos órgãos”.
Se são os órgãos que nos fixam nesse mundo,
como operar esse movimento entre forças que se opõem?
Como criar um modo de vida entre tensões?
São elementos que se detestam,
não podem coexistir sem que haja tremores e erupções.
E de onde veio a idéia de que o homem
só pode viver seguro quando esse combate tiver findo?
Não vem das antigas idéias de bem e de mal que fazem o julgamento da vida?
Diz Dom Juan: (...) tudo nelas é triste, as roupas, o cheiro, a atitude.
-Talvez tenham nascido assim – respondi.
-Ninguém nasce assim. Nós nos tornamos assim.
Para quem se acostumou a viver tonal,
como andar em terras onde não existem deuses para julgar?
O agenciamento se constitui sob o princípio de multiplicidade
O agenciamento se constitui sob o princípio de multiplicidade, suas determinações se referem a “grandezas, dimensões, que não podem crescer sem que ela mude de natureza”339 . São arranjos que envolvem coisas, pessoas, animais, plantas, entre outros. É a soma do crescimento das dimensões numa multiplicidade que, forçosamente, muda de natureza à medida que aumenta suas conexões. Essa cartografia – crescimento de dimensões – por aumento de conexões é exatamente o que define um agenciamento, que é formado pelas linhas de fuga de um rizoma. O desejo rizomático é o desejo revolucionário, não por se unificar a uma causa, idéia ou bandeira, mas porque constitui movimentos, horizontalidades, velocidade de deslocamento dos elementos que se desterritorializam: máquina desejante, conjunto de pontas que se inserem, que se agenciam em múltiplas desterritorializações, ou seja, “variações e mutações”340 . Guattari, vinte anos depois do Anti-Édipo, lembra, em Paixões das máquinas: “Esta ‘máquina’ é aberta para o exterior, para o seu ambiente maquínico e entretém todo tipo de relações com os componentes sociais e as subjetividades individuais341 . O sentido das máquinas se encontra na elasticidade que permite expandir “o conceito de máquina tecnológica ao de agenciamentos maquínicos, categoria que engloba tudo o que se desenvolve como máquinas de diferentes registros e suportes ontológicos”342 . O desejo funciona em bases de agenciamentos com as potências afetivas, e ele próprio emerge no meio, é um elemento relacional, uma liga de fluxos. Se o desejo tem objetos, este é o próprio fluxo. É nessa potência para agenciar, para desterritorializar e para se efetuar, que se caracteriza a liberdade. A liberdade está longe dos ideais da democracia, uma noção abstrata como a da Revolução Francesa do final do século XVIII. Tais ideais, disfarçadamente, são mecanismos de dominação e captura do desejo e das diferenças. São formas de submeter o desejo e as potênciasl individuais a uma vontade geral. A liberdade não é conquistada com a ascensão dos indivíduos ao poder. Os homens não se tornam mais fortes e admiráveis quando são considerados iguais, mas, quando suas diferenças são afirmadas. As diferenças aparecem na produção do pensamento, na criação de maneiras de viver individualmente, na arte e na cultura dos povos. Essas diferenças são forças primeiras e livres, estão em nosso próprio corpo. Para essas potências não existem modelos, nenhuma Idéia ou modelo genérico. São qualidades microfísicas e não metafísicas. Portanto, não há uma moral do dever, mas uma ética de afirmação de forças. Não há um modelo para o corpo, ele se define por encontros e afecções, que podem ou não aumentar a sua capacidade de agir e pensar: uma ética do desejo. É deste modo que as questões relevantes podem (re)aparecer: Como ser um homem livre? Como e
MÁQUINA CAPITALISTA CIVILIZADA
O fluxo do comércio e do dinheiro, entre os comerciantes que buscam
maiores lucros, entram num sistema de descodificação, formando um novo
corpo pleno, o capital-dinheiro. Na sociedade capitalista, aparece um
paradoxo: “o sócius perde o controle dos fluxos ocorrendo processos de
desterritorialização dos códigos e de reterritorialização sucessivos”285
. Os
fluxos descodificados substituem os códigos até então colocados. Todos os
antigos códigos são substituídos por uma axiomática de quantidades abstratas
na forma de moeda. Nada resiste à fantástica máquina capitalista: “a
descodificação dos fluxos, a desterritorialização do socius formam assim a
tendência mais essencial do capitalismo. Ele não cessa de aproximar-se de
seu limite, que é um limite propriamente esquizofrênico”286
. Por um lado, libera
os fluxos, mas ao mesmo tempo leva esses fluxos até um determinado limite
que se fosse além levaria a sua própria dissolução e a partir de então ele
recodifica os fluxos.
O capitalismo não tem um território pré-definido como no sistema feudal, o império atual é nômade. O império de hoje “vive de contradições”287
, não
teme aquilo que foi o terror de toda sociedade. Em nossa sociedade, os fluxos
descodificados são re-dirigidos pela máquina capitalista, tornam-se
organismos burocráticos e são engendrados no corpo pleno: os fluxos de
capital deslizam semelhantemente ao nômade ou ao esquizo. O nômade, à
semelhança do esquizo, é o desterritorializado por excelência, aquele que foge
e faz fugir tudo. Ele faz da própria desterritorialização um território subjetivo. O
império de hoje depende das flutuações dos fluxos de toda ordem: fluxos de
emprego, de informações, de capital, de bens, de modas e os de
conhecimento. A máquina capitalista circula a terra em busca da captura do
desejo das massas. Os chamados “serviços do bem” são o sonho de consumo
de toda a sociedade capitalista.
O trabalhador não está mais preso à terra, e o capital desliza sem aviso
prévio para qualquer território onde haja maior “promessa” de lucros, liquidez, segurança e, hoje, mais do que nunca, onde as políticas de sustentabilidade
sejam sustentáculos sociais. O capitalismo funciona com base em um mercado
mundial e não encontra nenhuma fronteira que possa impedir a sua expansão. Deleuze falou da sociedade contemporânea como a sociedade de controle;288
ele reafirma o que Foucault já havia defendido, que o novo funcionamento do
poder opera “ao ar livre” e por modulação contínua; num tipo de controle que
nunca destrói as coisas completamente; ao contrário disto, as transformam
contínuas, ilimitadas e rapidamente, de forma imperceptível - como “um gás” - não as deixando jamais terminar. “É uma fantástica fabricação de riqueza e
miséria”289
. O capitalismo se faz polícia do mundo: invade, mata, modifica as
paisagens, destrói, assassina qualquer forma de vida, desde que, de algum
modo, haja uma interposição dos fluxos, isto é, o capital-dinheiro em seu
movimento ondulatório pelo planeta. Não é mais a velha toupeira monetária
dos meios de confinamento, “mas a serpente o é das sociedades de
controle”290
. Encontramos aí, nos dispositivos de controle, uma ilimitada
potência que se enrosca no incontrolável movimento sinuoso da serpente
financeira pois, se “o homem da disciplina era um produtor descontínuo de
energia, (...) o homem do controle é, antes, ondulatório, funcionando em órbita,
num feixe contínuo”291
. Mas além de fazer tudo correr solto, a condição capitalista impõe a tudo a “lei do valor”, cria um equivalente geral para todas as coisas: o dinheiro é o
equivalente geral; não tem a preocupação de codificar tudo, mas de
axiomatizar com a máquina abstrata capital-dinheiro. O dinheiro passa a reger
tudo: os modos de vida, as relações com a natureza e as relações com a vida
em geral.
Os códigos medievais vinham de uma ordem superior (Igreja, Estado, reis, nobreza, etc.), mas a “lei do valor” é imanente, é mais problemática do
que os códigos, ela tem um funcionamento que atravessa tudo. Ela não vem
de cima, ela se infiltra pelo meio, e contamina a tudo e a todos. A tendência
mais essencial do capitalismo é essa capacidade de desterritorializar, descodificar tudo. É aí que o capitalismo se aproxima cada vez mais de um
limite esquizofrênico.
Deleuze e Guattari já haviam mostrado o que há de comum entre
capitalismo e esquizofrenia. Na esteira “descodificante”, tanto os fluxos quanto
o regime de produção capitalista arrastam consigo toda formulação de
códigos, com uma diferença peculiar do capitalismo: ele desfaz todos os
valores para introduzir um único que serve ao regime de produção, o capital- dinheiro. Os afetos, o conhecimento, o desejo são fortemente incorporados ao
atual regime de acumulação capitalista.
Há uma advetência, ao longo do Anti-Édipo, para a estreita relação entre
produção desejante e produção social. Os autores mostram que o socius não é
um todo autônomo, mas um campo de variações entre uma instância de
agregação (máquinas molares – técnicas e sociais) e uma superfície de
errância (máquinas desejantes) como regimes diferentes de uma mesma
produção imanente, contrariando a tradição e a psicanálise que atrelam o
desejo à falta e a economia política capitalista que reduz as relações entre
forças à dimensão capital-trabalho. A economia do desejo e a economia
política são uma só: economia de fluxos. Homem e natureza estão imersos
numa universal produção primária, produtividade de fluxos e cortes de fluxos
da produção desejante.Esta se caracteriza pelo produzir sempre o produzir, pelo injetar o produzir no produto, pela produção de produção. Não existe mais
distinção homem-natureza: “a essência humana da natureza e a essência
natural do homem se identificam na natureza como produção ou indústria, isto
é, igualmente na vida genérica do homem”292
. Esta afirmação implica, por um
lado, na desnaturalização das análises que inscrevem o campo social numa
dicotomia totalizante e excludente entre o nível molar (macropolítica) e o nível 292 DELEUZE, G. e GUATTARI, F. Op,cit., p.18.
84
molecular (micropolítica)293
. Como disseram os autores de Mil Platôs: “tudo é
político mas toda política é ao mesmo tempo macro e micropolítica”294
. Donzelot, comentando O Anti-Édipo e as subversões que este livro opera,
tanto na psicanálise quanto no marxismo, afirma que o lugar que ocupa o
conceito de produção na obra faz “do empreendimento de Deleuze e Guattari
um marxismo de dimensões mais amplas”295
. Se o desejo é produção, não há
espaços restritos de produção desejante. É preciso reescrever “o aparelho
psiquiátrico e psicanalítico”, que se referem ao desejo não como “produção
mas à lei, referindo-o não ao espaço político e social mas ao enclave irrisório
da família”296
. O propósito é lançar o desejo “no conjunto marxista das forças
produtivas. Ele só é refreado, regulado, por aquilo que regula qualquer
produção”297
. Deleuze, em uma de suas aulas sobre O Anti-Édipo relativa ao modo de
funcionamento do capitalismo, afirma que o que passa sobre o corpo de uma
sociedade são sempre fluxos298
. Os fluxos, numa formação social, falam dos
caracteres dos investimentos sociais, coletivos, e dos investimentos
inconscientes no próprio campo social.
O socius, como dispositivo historicamente produzido, é pensado em seu
funcionamento maquínico que se define por fluxos heterogênicos,
independentes e irredutíveis, geradores de infinitas formas de semiotizações. Desse modo, ele não se constitui por objetos e sujeitos que o pré-existem, mas
se produz, ao mesmo tempo, num mesmo plano, como efeito do encontro dos
corpos que os fluxos estabelecem entre si. O ser vivo é, assim, um corte no
fluxo. Os fluxos são o corpo primeiro do “socius”; sempre acontecem e vão
sendo definidos a partir das especificidades dos encontros. Corpo, que os
autores de O Anti-Édipo e de Mil Platôs denominam de corpo sem órgãos, que
são os corpos das afecções, encontro de fragmentos que escapam aos
princípios de organização, de formalização e de organismo. Na definição de
Deleuze e Guattari: “ele é não desejo, mas também desejo. (...) Ao Corpo Sem
órgão não se chega, não se pode chegar, nunca se acaba de chegar a ele, é
um limite”299
. O encontro dos corpos, momento em que os fluxos se conectam, é
presidido por uma operação maquínica. No entanto, essa operação não deve
ser confundida com as das máquinas técnicas que trabalham por produção de
produto. As máquinas desejantes não querem dizer nada, não desejam nada, apenas funcionam por desarranjo, fragmentação, acoplamento e, quando
agenciadas, produzem territórios, outras máquinas, fluxos e universos
existenciais. Em Mil Platôs, Corpo sem Órgãos é também o nome do plano de
consistência das multiplicidades, o que assegura a junção de heterogêneos num
conjunto aberto, tornando-se, portanto, parte importante na elaboração
conceitual de uma teoria das multiplicidades. No entanto, ele mesmo não seria
tanto “uma noção, um conceito” quanto “um conjunto de práticas”300
, que
possibilita uma ruptura em relação aos estratos que ordenam as multiplicidades, como as do organismo, da significância e da subjetivação. Por isso, ele se opõe
e combate o organismo como fruto do sistema do juízo distributivo de Deus, que
ordena os órgãos segundo funções e finalidades, constituindo um organismo
através da estratificação do corpo. Assim, a constituição de um corpo sem
órgãos requer uma desestratificação, que deve ser feita com “prudência”, “como
dose, como regra imanente à experimentação”301
. Os agenciamentos do desejo
produtivo dependem da constituição de um corpo sem órgãos. Há uma
dificuldade a ser superada nesse processo de “construção de um corpo sem
órgãos”. A desorganização dos órgãos, ou, como aparece em Lógica do sentido, a identificação da fissura incorporal de superfície, pode ser conseguida de várias
maneiras: os drogados com suas químicas, os masoquistas com suas dores, entre outros., mas é preciso ter prudência para não ultrapassar o delicado limite
do corpo. A prudência consistiria em observar o que se separa de um corpo sem
órgãos da morte do corpo. Em Mil Platôs, Deleuze e Guattari advertem: “experimentação muito delicada, porque não pode haver estagnação dos
modos, nem derrapagem do tipo: o masoquista, o drogado tangenciam estes
299 DELEUZE, G. e GUATTARI, F. Mil Platôs: capitalismo e esquizofrenia. Vol. 3. Trad. Aurélio Neto, Ana Lúcia de Oliveira, Lúcia Cláudia Leão e Suely Rolnik. São Paulo: Ed. 34, 1999, p. 9. 300 Id. 301 Id. Ibid., p. 11.
86
perpétuos perigos que esvaziam seu CsO em vez de preenchê-lo”302
. É preciso
impedir que o corpo seja desterritorializado a ponto de encontrar a morte, ficar
na superfície preservando a vida. Voltaremos a abordar essa questão no
capítulo cinco.
Deleuze e Guattari, ao afirmarem que onde há produção e reprodução
sociais, há produção desejante
303
, sinalizam que as formas de produção social
implicam, elas também, um elemento de anti-produção acoplado ao processo
de produção. Cada sociedade teve a sua espécie de superfície de registro.304
Um corpo pleno denominado como socius (corpo da terra, corpo do déspota ou
capital) que, funcionando como superfície de registro, rebate-se sobre as
formas produtivas e apropria-se delas, desarranjando-as.
No caso do capitalismo, o capital se constitui como o corpo sem órgãos
do processo capitalista, inserindo-se entre o produto e o produzir como fluxo
de poder mutante que toma para si a deriva da força de trabalho e os limites
de sua própria fruição. Desse modo, o capital não é apenas a “substância
fluida e petrificada do dinheiro, mas confere à esterilidade do dinheiro a forma
sob a qual este produz dinheiro”305 e uma mais-valia valor “como substância
motora de si própria”.306
“O corpo pleno transformado no capital do capital- dinheiro suprime a distinção da produção e da anti-produção; ele mistura em
todo lugar a anti-produção às forças produtivas, na produção imanente de seus
próprios limites sempre alargados”307
. O capitalismo opera os fluxos com a condição de os introduzir numa
máquina não mais de código, e sim numa máquina axiomática, cujo limite é
determinado pelo valor do lucro. O capitalismo só permitiria as
desterritorializações até um certo limite para depois reterritorializar tudo.
A positividade do funcionamento capitalista é de se constituir sobre o
negativo das outras sociedades (enfraquecimento dos códigos). Ele não
enfrenta esta situação de fora, ele vive dela e nela encontra, concomitantemente, sua condição e sua matéria, impondo-a com toda a
302 Id. Ibid., p. 13. 303 Cf. DELEUZE, G. e GUATTARI, F. O Anti-Édipo: capitalismo e esquizofrenia. Trad..Georges Lamaziere Rio de Janeiro: Ed. Imago, 1976, p. 52. 304 Cf. Id. Ibid., p. 177 - 345. 305 Id. Ibid., p. 25. 306 Id. Ibid., p. 288. 307 Id. Ibid., p. 425.
87
violência. “Sua produção e repressão soberanas só podem acontecer a esse
preço”308
. O capitalismo se engrandece sobre este signo: o de estar sempre pronto
para ligar um axioma a mais à máquina. Seu funcionamento é paradoxal à
medida que se constitui historicamente sobre aquilo que as outras sociedades
temiam: a existência e a realidade de fluxos descodificados que ele toma para
si, desterritorializando e produzindo combinatórias em escalas cada vez
maiores. “O capitalismo é a única máquina social (...) que se constitui como tal
sobre fluxos decodificados, substituindo os códigos intrínsecos por uma
axiomática das quantidades abstratas em forma de moeda”309
. Tendo como
combustíveis para sua acumulação, a “vampirização” da vida do trabalhador e
de seu lazer. “O capital é trabalho morto que como um vampiro se reanima
sugando o trabalho vivo e quanto mais o suga mais forte se torna”310. Confirma
Marx, abordado por Deleuze e Guattari: “O capital se torna assim um ser bem
misterioso, pois todas as forças produtivas parecem nascer dentro dele e
pertencer-lhe”311
. O capitalismo tem esse duplo movimento, ao mesmo tempo que
descodifica todos os códigos, ele procura também re-codificar: descodificação
ou desterritorialização dos fluxos e a sua reteritorialização, por vezes, violenta. Quanto mais a máquina capitalista se desterritorializa e descodifica os fluxos
para deles extrair a mais valia, mais os aparelhos burocráticos do capitalismo
reterritorializam, com toda força aqueles fluxos desterritorializados. O
capitalismo indica através de quais canais os fluxos desterritorializados podem
passar: os fluxos do cabelo, os fluxos da boca, os fluxos da orelha e os fluxos
do corpo em geral podem fluir livremente até o limite de sua subversão ditado
pela máquina axiomática. Daí em diante, toda a transformação será
convergida para o capital-dinheiro. Nisto consiste o paradoxo, em toda busca
de saída, ao seu final ou em seu percurso, está também a sua captura ou seu
fim.
308 Id. Ibid., p. 51. 309 Id. Ibid., p. 117. 310 DELEUZE, G. e GUATTARI, F. In: CARRILHO, Manuel, M. (org). Trad. José Afonso Furtado. Capitalismo e esquizofrenia: dossier Anti-Édipo.Lisboa: Assírio & Alvim.,1976, p. 56. 311 DELEUZE, G. e GUATTARI, F. Op.cit., p. 26.
88
Nas “revoluções frustradas”, não se contou com esse limiar. Maio de 68
caminhou até esse ponto, as forças dominantes capitalistas “permitiram” que
se fosse até o seu limite. Esqueceu-se do contra-fluxo que atravessa todos os
códigos e que funciona de maneira estranha ao desejo revolucionário. Este se
volta contra os ideais de libertação com a permissão das massas
revolucionárias. Os partidos e os sindicatos já se encontram divididos por
fluxos “desembestados”. Quando as instituições percebem esses fluxos
desgovernados, surgem, então, os temores que facilitam a ação de um contra- desejo. A axiomática capitalista é uma laminação dos modos de viver, de
pensar, de existir, de sentir. É o achatamento de toda possibilidade criativa. Essa virtualidade capitalista é capaz de penetrar em todo lugar, e em todo
movimento cultural, político, religioso. Não é assim que se passam com as
obras antigamente sacras? Hoje, são objetos de valor capitalista, perderam o
seu significado religioso.
O problema parece ter sido o de se considerar os fluxos, as
desterritorializações e o desejo sob uma forma ingênua. Mesmo nas leituras
críticas que se fez sobre o desejo, pensava-se em torno de um desejo livre e aí
parecia que tudo estava bem, mas Deleuze e Guattari foram mais fundo ao
considerarem o funcionamento das máquinas desejantes.
No Anti-Édipo toda máquina estabelece um sistema de cortes, toda
máquina estaria relacionada a um fluxo material contínuo que ela emite e outra
corta. Se pensarmos o funcionamento da máquina-intestino que se conecta à
máquina-ânus, máquina-estômago que se conecta à máquina-boca, a boca do
neném que se conecta à máquina-peito, seguindo essa série até ao campo
social, não podemos esquecer que os modos de funcionamento são os
mesmos. Tudo é máquina e tudo é produção de produção. As máquinas
desejantes não visam a uma produção final como as máquinas técnicas, mas
sim à produção como processo de produção. Toda máquina desejante
comporta uma espécie de código de funcionamento que está estocado nela. Um mesmo órgão pode ser desvirtuado em relação às conexões e aos fluxos
por ele estabelecidas. A boca é para comer, é fluxo de saciação por ingestão
de alimentos, mas a boca anoréxica é para vomitar. “A boca do anoréxico
hesita entre uma máquina para comer, uma máquina anal, uma máquina para
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falar, uma máquina para respirar (...). Somos todos bricoleurs”312
, com nossas
pequenas máquinas. Sexo oral, sexo anal, as máquinas não se mantêm
sempre com os mesmos códigos. Assim como nas máquinas sociais, por
serem também atravessadas por fluxos, podem ter seu funcionamento
atrapalhado pelo desejo. A máquina policial, às vezes, pode funcionar como
máquina bandida. Há uma subversão permanente dos fluxos, a tranqüilidade
pela via dos fluxos do desejo é uma ilusão. Além da descodificação e da
desterritorialização, ainda se tem a subversão das “especificidades” dos fluxos.
O erro da psicanálise foi se considerar capaz de passar da lei que proíbe
ou reprime o desejo ao próprio desejo. Assim, a crítica que o desejo pode fazer
ao poder não é à proibição ou à repressão, não é que lhe impeça de existir ou
freie seu curso, mas muito mais o que lhe faça existir e lhe obrigue a circular
em certos caminhos ou sob certa imagem.
O que se procura fazer, na linha do Anti-Édipo, é se distanciar da posição
psicanalítica e, também das ingênuas críticas que se faz à repressão do
desejo. A crítica do Anti-Édipo vai mais além, atinge as formas de repressão
que recalcaram o sexo e a enunciação, fazendo tudo circular na representação
e na interpretação, afastando o desejo do campo da produção e aprisionando
tudo no eu e na família.
maiores lucros, entram num sistema de descodificação, formando um novo
corpo pleno, o capital-dinheiro. Na sociedade capitalista, aparece um
paradoxo: “o sócius perde o controle dos fluxos ocorrendo processos de
desterritorialização dos códigos e de reterritorialização sucessivos”285
. Os
fluxos descodificados substituem os códigos até então colocados. Todos os
antigos códigos são substituídos por uma axiomática de quantidades abstratas
na forma de moeda. Nada resiste à fantástica máquina capitalista: “a
descodificação dos fluxos, a desterritorialização do socius formam assim a
tendência mais essencial do capitalismo. Ele não cessa de aproximar-se de
seu limite, que é um limite propriamente esquizofrênico”286
. Por um lado, libera
os fluxos, mas ao mesmo tempo leva esses fluxos até um determinado limite
que se fosse além levaria a sua própria dissolução e a partir de então ele
recodifica os fluxos.
O capitalismo não tem um território pré-definido como no sistema feudal, o império atual é nômade. O império de hoje “vive de contradições”287
, não
teme aquilo que foi o terror de toda sociedade. Em nossa sociedade, os fluxos
descodificados são re-dirigidos pela máquina capitalista, tornam-se
organismos burocráticos e são engendrados no corpo pleno: os fluxos de
capital deslizam semelhantemente ao nômade ou ao esquizo. O nômade, à
semelhança do esquizo, é o desterritorializado por excelência, aquele que foge
e faz fugir tudo. Ele faz da própria desterritorialização um território subjetivo. O
império de hoje depende das flutuações dos fluxos de toda ordem: fluxos de
emprego, de informações, de capital, de bens, de modas e os de
conhecimento. A máquina capitalista circula a terra em busca da captura do
desejo das massas. Os chamados “serviços do bem” são o sonho de consumo
de toda a sociedade capitalista.
O trabalhador não está mais preso à terra, e o capital desliza sem aviso
prévio para qualquer território onde haja maior “promessa” de lucros, liquidez, segurança e, hoje, mais do que nunca, onde as políticas de sustentabilidade
sejam sustentáculos sociais. O capitalismo funciona com base em um mercado
mundial e não encontra nenhuma fronteira que possa impedir a sua expansão. Deleuze falou da sociedade contemporânea como a sociedade de controle;288
ele reafirma o que Foucault já havia defendido, que o novo funcionamento do
poder opera “ao ar livre” e por modulação contínua; num tipo de controle que
nunca destrói as coisas completamente; ao contrário disto, as transformam
contínuas, ilimitadas e rapidamente, de forma imperceptível - como “um gás” - não as deixando jamais terminar. “É uma fantástica fabricação de riqueza e
miséria”289
. O capitalismo se faz polícia do mundo: invade, mata, modifica as
paisagens, destrói, assassina qualquer forma de vida, desde que, de algum
modo, haja uma interposição dos fluxos, isto é, o capital-dinheiro em seu
movimento ondulatório pelo planeta. Não é mais a velha toupeira monetária
dos meios de confinamento, “mas a serpente o é das sociedades de
controle”290
. Encontramos aí, nos dispositivos de controle, uma ilimitada
potência que se enrosca no incontrolável movimento sinuoso da serpente
financeira pois, se “o homem da disciplina era um produtor descontínuo de
energia, (...) o homem do controle é, antes, ondulatório, funcionando em órbita,
num feixe contínuo”291
. Mas além de fazer tudo correr solto, a condição capitalista impõe a tudo a “lei do valor”, cria um equivalente geral para todas as coisas: o dinheiro é o
equivalente geral; não tem a preocupação de codificar tudo, mas de
axiomatizar com a máquina abstrata capital-dinheiro. O dinheiro passa a reger
tudo: os modos de vida, as relações com a natureza e as relações com a vida
em geral.
Os códigos medievais vinham de uma ordem superior (Igreja, Estado, reis, nobreza, etc.), mas a “lei do valor” é imanente, é mais problemática do
que os códigos, ela tem um funcionamento que atravessa tudo. Ela não vem
de cima, ela se infiltra pelo meio, e contamina a tudo e a todos. A tendência
mais essencial do capitalismo é essa capacidade de desterritorializar, descodificar tudo. É aí que o capitalismo se aproxima cada vez mais de um
limite esquizofrênico.
Deleuze e Guattari já haviam mostrado o que há de comum entre
capitalismo e esquizofrenia. Na esteira “descodificante”, tanto os fluxos quanto
o regime de produção capitalista arrastam consigo toda formulação de
códigos, com uma diferença peculiar do capitalismo: ele desfaz todos os
valores para introduzir um único que serve ao regime de produção, o capital- dinheiro. Os afetos, o conhecimento, o desejo são fortemente incorporados ao
atual regime de acumulação capitalista.
Há uma advetência, ao longo do Anti-Édipo, para a estreita relação entre
produção desejante e produção social. Os autores mostram que o socius não é
um todo autônomo, mas um campo de variações entre uma instância de
agregação (máquinas molares – técnicas e sociais) e uma superfície de
errância (máquinas desejantes) como regimes diferentes de uma mesma
produção imanente, contrariando a tradição e a psicanálise que atrelam o
desejo à falta e a economia política capitalista que reduz as relações entre
forças à dimensão capital-trabalho. A economia do desejo e a economia
política são uma só: economia de fluxos. Homem e natureza estão imersos
numa universal produção primária, produtividade de fluxos e cortes de fluxos
da produção desejante.Esta se caracteriza pelo produzir sempre o produzir, pelo injetar o produzir no produto, pela produção de produção. Não existe mais
distinção homem-natureza: “a essência humana da natureza e a essência
natural do homem se identificam na natureza como produção ou indústria, isto
é, igualmente na vida genérica do homem”292
. Esta afirmação implica, por um
lado, na desnaturalização das análises que inscrevem o campo social numa
dicotomia totalizante e excludente entre o nível molar (macropolítica) e o nível 292 DELEUZE, G. e GUATTARI, F. Op,cit., p.18.
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molecular (micropolítica)293
. Como disseram os autores de Mil Platôs: “tudo é
político mas toda política é ao mesmo tempo macro e micropolítica”294
. Donzelot, comentando O Anti-Édipo e as subversões que este livro opera,
tanto na psicanálise quanto no marxismo, afirma que o lugar que ocupa o
conceito de produção na obra faz “do empreendimento de Deleuze e Guattari
um marxismo de dimensões mais amplas”295
. Se o desejo é produção, não há
espaços restritos de produção desejante. É preciso reescrever “o aparelho
psiquiátrico e psicanalítico”, que se referem ao desejo não como “produção
mas à lei, referindo-o não ao espaço político e social mas ao enclave irrisório
da família”296
. O propósito é lançar o desejo “no conjunto marxista das forças
produtivas. Ele só é refreado, regulado, por aquilo que regula qualquer
produção”297
. Deleuze, em uma de suas aulas sobre O Anti-Édipo relativa ao modo de
funcionamento do capitalismo, afirma que o que passa sobre o corpo de uma
sociedade são sempre fluxos298
. Os fluxos, numa formação social, falam dos
caracteres dos investimentos sociais, coletivos, e dos investimentos
inconscientes no próprio campo social.
O socius, como dispositivo historicamente produzido, é pensado em seu
funcionamento maquínico que se define por fluxos heterogênicos,
independentes e irredutíveis, geradores de infinitas formas de semiotizações. Desse modo, ele não se constitui por objetos e sujeitos que o pré-existem, mas
se produz, ao mesmo tempo, num mesmo plano, como efeito do encontro dos
corpos que os fluxos estabelecem entre si. O ser vivo é, assim, um corte no
fluxo. Os fluxos são o corpo primeiro do “socius”; sempre acontecem e vão
sendo definidos a partir das especificidades dos encontros. Corpo, que os
autores de O Anti-Édipo e de Mil Platôs denominam de corpo sem órgãos, que
são os corpos das afecções, encontro de fragmentos que escapam aos
princípios de organização, de formalização e de organismo. Na definição de
Deleuze e Guattari: “ele é não desejo, mas também desejo. (...) Ao Corpo Sem
órgão não se chega, não se pode chegar, nunca se acaba de chegar a ele, é
um limite”299
. O encontro dos corpos, momento em que os fluxos se conectam, é
presidido por uma operação maquínica. No entanto, essa operação não deve
ser confundida com as das máquinas técnicas que trabalham por produção de
produto. As máquinas desejantes não querem dizer nada, não desejam nada, apenas funcionam por desarranjo, fragmentação, acoplamento e, quando
agenciadas, produzem territórios, outras máquinas, fluxos e universos
existenciais. Em Mil Platôs, Corpo sem Órgãos é também o nome do plano de
consistência das multiplicidades, o que assegura a junção de heterogêneos num
conjunto aberto, tornando-se, portanto, parte importante na elaboração
conceitual de uma teoria das multiplicidades. No entanto, ele mesmo não seria
tanto “uma noção, um conceito” quanto “um conjunto de práticas”300
, que
possibilita uma ruptura em relação aos estratos que ordenam as multiplicidades, como as do organismo, da significância e da subjetivação. Por isso, ele se opõe
e combate o organismo como fruto do sistema do juízo distributivo de Deus, que
ordena os órgãos segundo funções e finalidades, constituindo um organismo
através da estratificação do corpo. Assim, a constituição de um corpo sem
órgãos requer uma desestratificação, que deve ser feita com “prudência”, “como
dose, como regra imanente à experimentação”301
. Os agenciamentos do desejo
produtivo dependem da constituição de um corpo sem órgãos. Há uma
dificuldade a ser superada nesse processo de “construção de um corpo sem
órgãos”. A desorganização dos órgãos, ou, como aparece em Lógica do sentido, a identificação da fissura incorporal de superfície, pode ser conseguida de várias
maneiras: os drogados com suas químicas, os masoquistas com suas dores, entre outros., mas é preciso ter prudência para não ultrapassar o delicado limite
do corpo. A prudência consistiria em observar o que se separa de um corpo sem
órgãos da morte do corpo. Em Mil Platôs, Deleuze e Guattari advertem: “experimentação muito delicada, porque não pode haver estagnação dos
modos, nem derrapagem do tipo: o masoquista, o drogado tangenciam estes
299 DELEUZE, G. e GUATTARI, F. Mil Platôs: capitalismo e esquizofrenia. Vol. 3. Trad. Aurélio Neto, Ana Lúcia de Oliveira, Lúcia Cláudia Leão e Suely Rolnik. São Paulo: Ed. 34, 1999, p. 9. 300 Id. 301 Id. Ibid., p. 11.
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perpétuos perigos que esvaziam seu CsO em vez de preenchê-lo”302
. É preciso
impedir que o corpo seja desterritorializado a ponto de encontrar a morte, ficar
na superfície preservando a vida. Voltaremos a abordar essa questão no
capítulo cinco.
Deleuze e Guattari, ao afirmarem que onde há produção e reprodução
sociais, há produção desejante
303
, sinalizam que as formas de produção social
implicam, elas também, um elemento de anti-produção acoplado ao processo
de produção. Cada sociedade teve a sua espécie de superfície de registro.304
Um corpo pleno denominado como socius (corpo da terra, corpo do déspota ou
capital) que, funcionando como superfície de registro, rebate-se sobre as
formas produtivas e apropria-se delas, desarranjando-as.
No caso do capitalismo, o capital se constitui como o corpo sem órgãos
do processo capitalista, inserindo-se entre o produto e o produzir como fluxo
de poder mutante que toma para si a deriva da força de trabalho e os limites
de sua própria fruição. Desse modo, o capital não é apenas a “substância
fluida e petrificada do dinheiro, mas confere à esterilidade do dinheiro a forma
sob a qual este produz dinheiro”305 e uma mais-valia valor “como substância
motora de si própria”.306
“O corpo pleno transformado no capital do capital- dinheiro suprime a distinção da produção e da anti-produção; ele mistura em
todo lugar a anti-produção às forças produtivas, na produção imanente de seus
próprios limites sempre alargados”307
. O capitalismo opera os fluxos com a condição de os introduzir numa
máquina não mais de código, e sim numa máquina axiomática, cujo limite é
determinado pelo valor do lucro. O capitalismo só permitiria as
desterritorializações até um certo limite para depois reterritorializar tudo.
A positividade do funcionamento capitalista é de se constituir sobre o
negativo das outras sociedades (enfraquecimento dos códigos). Ele não
enfrenta esta situação de fora, ele vive dela e nela encontra, concomitantemente, sua condição e sua matéria, impondo-a com toda a
302 Id. Ibid., p. 13. 303 Cf. DELEUZE, G. e GUATTARI, F. O Anti-Édipo: capitalismo e esquizofrenia. Trad..Georges Lamaziere Rio de Janeiro: Ed. Imago, 1976, p. 52. 304 Cf. Id. Ibid., p. 177 - 345. 305 Id. Ibid., p. 25. 306 Id. Ibid., p. 288. 307 Id. Ibid., p. 425.
87
violência. “Sua produção e repressão soberanas só podem acontecer a esse
preço”308
. O capitalismo se engrandece sobre este signo: o de estar sempre pronto
para ligar um axioma a mais à máquina. Seu funcionamento é paradoxal à
medida que se constitui historicamente sobre aquilo que as outras sociedades
temiam: a existência e a realidade de fluxos descodificados que ele toma para
si, desterritorializando e produzindo combinatórias em escalas cada vez
maiores. “O capitalismo é a única máquina social (...) que se constitui como tal
sobre fluxos decodificados, substituindo os códigos intrínsecos por uma
axiomática das quantidades abstratas em forma de moeda”309
. Tendo como
combustíveis para sua acumulação, a “vampirização” da vida do trabalhador e
de seu lazer. “O capital é trabalho morto que como um vampiro se reanima
sugando o trabalho vivo e quanto mais o suga mais forte se torna”310. Confirma
Marx, abordado por Deleuze e Guattari: “O capital se torna assim um ser bem
misterioso, pois todas as forças produtivas parecem nascer dentro dele e
pertencer-lhe”311
. O capitalismo tem esse duplo movimento, ao mesmo tempo que
descodifica todos os códigos, ele procura também re-codificar: descodificação
ou desterritorialização dos fluxos e a sua reteritorialização, por vezes, violenta. Quanto mais a máquina capitalista se desterritorializa e descodifica os fluxos
para deles extrair a mais valia, mais os aparelhos burocráticos do capitalismo
reterritorializam, com toda força aqueles fluxos desterritorializados. O
capitalismo indica através de quais canais os fluxos desterritorializados podem
passar: os fluxos do cabelo, os fluxos da boca, os fluxos da orelha e os fluxos
do corpo em geral podem fluir livremente até o limite de sua subversão ditado
pela máquina axiomática. Daí em diante, toda a transformação será
convergida para o capital-dinheiro. Nisto consiste o paradoxo, em toda busca
de saída, ao seu final ou em seu percurso, está também a sua captura ou seu
fim.
308 Id. Ibid., p. 51. 309 Id. Ibid., p. 117. 310 DELEUZE, G. e GUATTARI, F. In: CARRILHO, Manuel, M. (org). Trad. José Afonso Furtado. Capitalismo e esquizofrenia: dossier Anti-Édipo.Lisboa: Assírio & Alvim.,1976, p. 56. 311 DELEUZE, G. e GUATTARI, F. Op.cit., p. 26.
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Nas “revoluções frustradas”, não se contou com esse limiar. Maio de 68
caminhou até esse ponto, as forças dominantes capitalistas “permitiram” que
se fosse até o seu limite. Esqueceu-se do contra-fluxo que atravessa todos os
códigos e que funciona de maneira estranha ao desejo revolucionário. Este se
volta contra os ideais de libertação com a permissão das massas
revolucionárias. Os partidos e os sindicatos já se encontram divididos por
fluxos “desembestados”. Quando as instituições percebem esses fluxos
desgovernados, surgem, então, os temores que facilitam a ação de um contra- desejo. A axiomática capitalista é uma laminação dos modos de viver, de
pensar, de existir, de sentir. É o achatamento de toda possibilidade criativa. Essa virtualidade capitalista é capaz de penetrar em todo lugar, e em todo
movimento cultural, político, religioso. Não é assim que se passam com as
obras antigamente sacras? Hoje, são objetos de valor capitalista, perderam o
seu significado religioso.
O problema parece ter sido o de se considerar os fluxos, as
desterritorializações e o desejo sob uma forma ingênua. Mesmo nas leituras
críticas que se fez sobre o desejo, pensava-se em torno de um desejo livre e aí
parecia que tudo estava bem, mas Deleuze e Guattari foram mais fundo ao
considerarem o funcionamento das máquinas desejantes.
No Anti-Édipo toda máquina estabelece um sistema de cortes, toda
máquina estaria relacionada a um fluxo material contínuo que ela emite e outra
corta. Se pensarmos o funcionamento da máquina-intestino que se conecta à
máquina-ânus, máquina-estômago que se conecta à máquina-boca, a boca do
neném que se conecta à máquina-peito, seguindo essa série até ao campo
social, não podemos esquecer que os modos de funcionamento são os
mesmos. Tudo é máquina e tudo é produção de produção. As máquinas
desejantes não visam a uma produção final como as máquinas técnicas, mas
sim à produção como processo de produção. Toda máquina desejante
comporta uma espécie de código de funcionamento que está estocado nela. Um mesmo órgão pode ser desvirtuado em relação às conexões e aos fluxos
por ele estabelecidas. A boca é para comer, é fluxo de saciação por ingestão
de alimentos, mas a boca anoréxica é para vomitar. “A boca do anoréxico
hesita entre uma máquina para comer, uma máquina anal, uma máquina para
89
falar, uma máquina para respirar (...). Somos todos bricoleurs”312
, com nossas
pequenas máquinas. Sexo oral, sexo anal, as máquinas não se mantêm
sempre com os mesmos códigos. Assim como nas máquinas sociais, por
serem também atravessadas por fluxos, podem ter seu funcionamento
atrapalhado pelo desejo. A máquina policial, às vezes, pode funcionar como
máquina bandida. Há uma subversão permanente dos fluxos, a tranqüilidade
pela via dos fluxos do desejo é uma ilusão. Além da descodificação e da
desterritorialização, ainda se tem a subversão das “especificidades” dos fluxos.
O erro da psicanálise foi se considerar capaz de passar da lei que proíbe
ou reprime o desejo ao próprio desejo. Assim, a crítica que o desejo pode fazer
ao poder não é à proibição ou à repressão, não é que lhe impeça de existir ou
freie seu curso, mas muito mais o que lhe faça existir e lhe obrigue a circular
em certos caminhos ou sob certa imagem.
O que se procura fazer, na linha do Anti-Édipo, é se distanciar da posição
psicanalítica e, também das ingênuas críticas que se faz à repressão do
desejo. A crítica do Anti-Édipo vai mais além, atinge as formas de repressão
que recalcaram o sexo e a enunciação, fazendo tudo circular na representação
e na interpretação, afastando o desejo do campo da produção e aprisionando
tudo no eu e na família.
Cena maquínica (operador)
Cena maquínica
No seu projeto do Livro, Mallarmé introduz a figura de um mestre de cerimônias - espécie de antiator - que não sendo um mero recitador de poesia, nem tampouco atuando nos moldes representacionais de um ator comum, é por ele designado “operador”. Como nos lembra Puchner (2002), tal terminologia, sugerindo algo como a operação de uma máquina, satisfazia Mallarmé à medida que permitia uma abordagem do processo de criação por um viés rigorosamente impessoal, rompendo de vez com a ideia de uma criação subjetiva. E esse aspecto mecanicista acabava sendo ainda mais reforçado pelos cálculos matemáticos obsessivos que perpassam todo o projeto (pois além das notas detalhando, de forma precisa, aspectos da composição final do Livro e da coreografia de sua leitura, há, ainda, um grande número de gráficos esquemáticos que dizem respeito ao gênero do Livro nos termos de sua forma textual e teatral; número de convidados, bancadas, assentos, folhas, sessões etc). Para Mallarmé, interessavam acima de tudo nesse tipo de automatização do processo de criação , as diferentes permutações passíveis de operação por meio dos vários arranjos de folhas soltas (devidamente numeradas); assim como as possibilidades de sentido derivadas dessa ars combinatoria.
Por outro lado, esse automatismo, de acordo com indicações contidas no próprio Livro, deveria reter, sempre, um certo grau de “mistério”- termo que, aliás, costumava ser empregado por Mallarmé em suas referências aos efeitos mobilizados por sua estética simbolista de forma geral. De acordo com Puchner, no caso do Livro isso se reflete pelo caráter cerimonial de sua leitura performática, esse “meio-termo” que parece desempenhar a mediação entre o teatro e o livro. Sobre esse último aspecto, porém, Blanchot (1984) sustenta que, embora seja possível aproximar a leitura do Livro de um tipo de cerimonial sagrado - com traços de prestidigitação, teatro e liturgia católica -, não se pode desconsiderar o fato de que o operador, não sendo um leitor vulgar, também não era um autor ou um intérprete privilegiado capaz de tecer comentários sobre o texto, no sentido de fazê-lo passar de um sentido a outro ou de mantê-lo em movimento entre todos os sentidos possíveis. O operador, nesse caso, não seria propriamente um leitor. Ele seria, de fato, a leitura. Por esse viés, a operação, enquanto leitura, é “a obra que se realiza suprimindo-se, que se prova confrontando-se consigo própria e se suspende ao mesmo tempo que afirma” (BLANCHOT, 1984, p. 254).
De modo que, para Blanchot a palavra “operação”, ao conservar não só o sentido que lhe advém da palavra “obra”, como também adquirindo a acepção quase cirúrgica que lhe confere o seu caráter técnico, passa a ter valor correspondente ao de “supressão”. Subtrai-se o tempo da narrativa, à medida que se opta por mostrar, em vez de contar[3]. Elimina-se o conceito, uma vez que se opera apenas na esfera onde a arte é pura linguagem. Por fim, suprime-se o direito de autor, de modo a impedir que até mesmo o operador (leitor) saiba de antemão “o que é o livro, nem se ele é, nem se o devir a que o livro responde ao mesmo tempo que o constitui com a sua supressão infinita tem desde já um sentido para nós ou terá alguma vez um sentido” (Ibidem, p. 254).
Considerando-se alguns dos aspectos que perpassam a ideia da operação (e do operador) no projeto do Livro de Mallarmé - dentre os quais, a supressão do autor e/ou do intérprete privilegiado, assim como a substituição da expressão de ideias ou emoções pelo automatismo -, pode-se perceber porque tanto Badiou, nas conjecturas que faz a respeito de uma possível cena do porvir[4], quanto Deleuze, ao se referir à mecânica da subtração mobilizada pelo teatro de Carmelo Bene, fazem uso da mesma[5]. Operação e operador, nesse sentido, parecem ser termos adequados para se nomear um teatro (e cada um daqueles que o agenciam) livre das amarras da representação, da encenação, da interpretação, do sentido e da autoria.
Postado por Kalki-M
DELEUZE: MÁQUINAS DESEJANTES
PUBLICADO EM 10/05/2013 POR RAFAEL TRINDADE
DELEUZE: MÁQUINAS DESEJANTES
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O corpo sob a pele é uma fábrica superaquecida,
e por fora,
o doente brilha,
reluz,
em todos os seus poros,
estourados”
– Antonin Artaud
Somos máquinas desejantes, não no sentido metafórico, literalmente. Máquinas acopladas a outras máquinas, máquinas produzindo conexões, máquinas passando fluxos. Tudo em nós cria, faz, corta, torce, processa, produz… Nosso corpo é uma usina. É assim que Deleuze e Guattari definem o ser humano em “O Anti-Édipo”. Suas críticas à psicanálise vão longe, neste texto abordaremos o conceito de máquinas desejantes e o inconsciente produtivo.
Tudo para Deleuze é produção, constante movimento. Nós também somos este fluxo material: átomos se juntando e se separando, formando moléculas que se sobrepõe, decompõe, justapõe. O movimento é sempre de expansão, sempre algo passando por cima de algo, sempre alguma coisa engolindo outra. Confuso? Pois é assim mesmo que Deleuze quer, as máquinas desejantes são uma multiplicidade pura que nega a identidade.
Estas partículas se juntam para formar coisas, elas adquirem uma determinada ordem que possui a capacidade de manter-se. E aqui é onde nós nos encontramos: a organização das máquinas desejantes cria o organismo (e o corpo é uma máquina dentro de uma máquina social). As células são máquinas microscópicas, os dentes são máquinas de morder, o olho é uma máquina de ver, o estômago é uma máquina de digerir, o pênis é uma máquina de fecundação, o útero é uma máquina de fazer bebês.
Picture-9
Estas máquinas acoplam-se umas às outras em sistemas binários formando regimes associativos: junto-separado, corte-fluxo, enche-esvazia. Produção de produção. Sempre em movimento, sempre movimentando e sendo movimentadas por máquinas menores e maiores. Produção sem lógica, sem nexo, sem finalidade. Homem e terno e celular e carro caro se tornam máquina alto executivo. Mulher e megafone e cartaz e tinta na cara se torna máquina feminista. Criança e espada de plástico e cavalo de brinquedo e máscara vira máquina super-herói. Sempre uma coisa e outra coisa, sempre “e… e… e…”.
O que define precisamente as máquinas desejantes é o seu poder de conexão ao infinito, em todos os sentidos e em todas as direções” – Deleuze & Guattari, O Anti-Édipo.
Esta produção é também o que define nosso inconsciente: uma usina, uma metalúrgica operando na máxima capacidade (a natureza não economiza). “O inconsciente produz. Não para de produzir. Funciona como uma fábrica” (Deleuze, Abecedário). Somos fruto dessa produção desenfreada. O desejo se cria, se faz, se expande e nós sentimos isso em nós, zunindo, rangendo. E quando o desejo cresce e transborda, ele cria, e toda criação acontece no real (porque não há nada além da realidade). Não há negatividade na natureza; como ela existe, ela parte sempre de um ponto maior que zero. Por isso não falta nada ao desejo: todo desejo é produção de realidade.
Nesta oficina se processa toda a produção inconsciente que nos atravessa, podemos sentir o desejo a fluir por nossos poros e ultrapassar nossa pele. O inconsciente produtivo se utiliza da matéria para sua criação. Mas quando o inconsciente é impedido de produzir, ou quando o desejo não pode expandir-se, ele rebate e volta-se para dentro de nós, abrindo um buraco que passamos a definir como falta (ver Deleuze e o Desejo).
O inconsciente produtivo não é um palco onde se interpreta uma peça de teatro grego, não interiorizamos nada porque não há interior, existem apenas fluxos, máquinas dispostas em determinadas ordens. O inconsciente não repete indefinidamente uma peça de teatro porque na verdade é uma usina atômica. Ele explode e podemos ouvir o estrondo nos atravessar e ecoar pelo espaço ao nosso redor. Esta produção desejante é completamente anedipiana, ela resiste ao Édipo (veja aqui).
Ninguém nos pergunta “quais são suas máquinas desejantes?”, ninguém quer saber como você está organizado, querem logo te encaixar em algum lugar. Nossas máquinas desejantes são organizadas pela máquina social. O padre diz que você é filho de Deus, o psicanalista te convida a se deitar no divã. A fantástica usina fica então reduzida a um “sujo segredinho familiar”: papai-mamãe-filhinho. Toda produção desejante é esmagada por Édipo e suas interpretações. O desejo não quer ser interpretado, ele quer criar, quer expandir-se.
Nós somos máquinas desejantes movidas por um inconsciente produtivo, façamos jus à definição! Enquanto formos organizados por máquinas sociais, nossa produção se perderá indefinidamente ou estará diretamente ligada a meios externos que não nos convém. Máquinas gregárias ao invés de máquinas nômades. Primeira tarefa positiva da esquizoanálise: descobrir suas próprias máquinas desejantes. Não interpretar, mas experimentar! Esta é a condição essencial para as produções se transformarem em intensidades. Produção a serviço da improdução (ver Corpo sem Órgãos). Só assim é possível passar de máquinas entorpecidas para máquinas revolucionárias.
Se não se montar uma máquina revolucionária capaz de se fazer cargo do desejo e dos fenômenos de desejo, o desejo continuará sendo manipulado pelas forças de opressão e repressão, ameaçando, mesmo por dentro, as máquinas revolucionárias” – Deleuze, Conversações.
DELEUZE: MÁQUINAS DESEJANTES
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O corpo sob a pele é uma fábrica superaquecida,
e por fora,
o doente brilha,
reluz,
em todos os seus poros,
estourados”
– Antonin Artaud
Somos máquinas desejantes, não no sentido metafórico, literalmente. Máquinas acopladas a outras máquinas, máquinas produzindo conexões, máquinas passando fluxos. Tudo em nós cria, faz, corta, torce, processa, produz… Nosso corpo é uma usina. É assim que Deleuze e Guattari definem o ser humano em “O Anti-Édipo”. Suas críticas à psicanálise vão longe, neste texto abordaremos o conceito de máquinas desejantes e o inconsciente produtivo.
Tudo para Deleuze é produção, constante movimento. Nós também somos este fluxo material: átomos se juntando e se separando, formando moléculas que se sobrepõe, decompõe, justapõe. O movimento é sempre de expansão, sempre algo passando por cima de algo, sempre alguma coisa engolindo outra. Confuso? Pois é assim mesmo que Deleuze quer, as máquinas desejantes são uma multiplicidade pura que nega a identidade.
Estas partículas se juntam para formar coisas, elas adquirem uma determinada ordem que possui a capacidade de manter-se. E aqui é onde nós nos encontramos: a organização das máquinas desejantes cria o organismo (e o corpo é uma máquina dentro de uma máquina social). As células são máquinas microscópicas, os dentes são máquinas de morder, o olho é uma máquina de ver, o estômago é uma máquina de digerir, o pênis é uma máquina de fecundação, o útero é uma máquina de fazer bebês.
Picture-9
Estas máquinas acoplam-se umas às outras em sistemas binários formando regimes associativos: junto-separado, corte-fluxo, enche-esvazia. Produção de produção. Sempre em movimento, sempre movimentando e sendo movimentadas por máquinas menores e maiores. Produção sem lógica, sem nexo, sem finalidade. Homem e terno e celular e carro caro se tornam máquina alto executivo. Mulher e megafone e cartaz e tinta na cara se torna máquina feminista. Criança e espada de plástico e cavalo de brinquedo e máscara vira máquina super-herói. Sempre uma coisa e outra coisa, sempre “e… e… e…”.
O que define precisamente as máquinas desejantes é o seu poder de conexão ao infinito, em todos os sentidos e em todas as direções” – Deleuze & Guattari, O Anti-Édipo.
Esta produção é também o que define nosso inconsciente: uma usina, uma metalúrgica operando na máxima capacidade (a natureza não economiza). “O inconsciente produz. Não para de produzir. Funciona como uma fábrica” (Deleuze, Abecedário). Somos fruto dessa produção desenfreada. O desejo se cria, se faz, se expande e nós sentimos isso em nós, zunindo, rangendo. E quando o desejo cresce e transborda, ele cria, e toda criação acontece no real (porque não há nada além da realidade). Não há negatividade na natureza; como ela existe, ela parte sempre de um ponto maior que zero. Por isso não falta nada ao desejo: todo desejo é produção de realidade.
Nesta oficina se processa toda a produção inconsciente que nos atravessa, podemos sentir o desejo a fluir por nossos poros e ultrapassar nossa pele. O inconsciente produtivo se utiliza da matéria para sua criação. Mas quando o inconsciente é impedido de produzir, ou quando o desejo não pode expandir-se, ele rebate e volta-se para dentro de nós, abrindo um buraco que passamos a definir como falta (ver Deleuze e o Desejo).
O inconsciente produtivo não é um palco onde se interpreta uma peça de teatro grego, não interiorizamos nada porque não há interior, existem apenas fluxos, máquinas dispostas em determinadas ordens. O inconsciente não repete indefinidamente uma peça de teatro porque na verdade é uma usina atômica. Ele explode e podemos ouvir o estrondo nos atravessar e ecoar pelo espaço ao nosso redor. Esta produção desejante é completamente anedipiana, ela resiste ao Édipo (veja aqui).
Ninguém nos pergunta “quais são suas máquinas desejantes?”, ninguém quer saber como você está organizado, querem logo te encaixar em algum lugar. Nossas máquinas desejantes são organizadas pela máquina social. O padre diz que você é filho de Deus, o psicanalista te convida a se deitar no divã. A fantástica usina fica então reduzida a um “sujo segredinho familiar”: papai-mamãe-filhinho. Toda produção desejante é esmagada por Édipo e suas interpretações. O desejo não quer ser interpretado, ele quer criar, quer expandir-se.
Nós somos máquinas desejantes movidas por um inconsciente produtivo, façamos jus à definição! Enquanto formos organizados por máquinas sociais, nossa produção se perderá indefinidamente ou estará diretamente ligada a meios externos que não nos convém. Máquinas gregárias ao invés de máquinas nômades. Primeira tarefa positiva da esquizoanálise: descobrir suas próprias máquinas desejantes. Não interpretar, mas experimentar! Esta é a condição essencial para as produções se transformarem em intensidades. Produção a serviço da improdução (ver Corpo sem Órgãos). Só assim é possível passar de máquinas entorpecidas para máquinas revolucionárias.
Se não se montar uma máquina revolucionária capaz de se fazer cargo do desejo e dos fenômenos de desejo, o desejo continuará sendo manipulado pelas forças de opressão e repressão, ameaçando, mesmo por dentro, as máquinas revolucionárias” – Deleuze, Conversações.
Luzinha deslizando de nuvem em nuvem.
Acordo : no horizonte, o céu está pálido
riscado pela luminosidade do sol já posto.
Uma bela estrela de ouro,
o crescente delicioso da lua
no meio das nuvens leves,
para além de morros e do instante
o sono! , arranco-me ao sono e escrevo
içando-me para melhor ver
(e melhor ser visto)
sobre o cimo da escrita.
E poucos instantes depois,
o sono de novo,
esgotante como uma agonia.
E que chatice escrever um livro
lutando contra o esgotamento do sono,
a desejar a transparência de um livro,
luzinha deslizando de nuvem em nuvem,
de um horizonte ao horizonte seguinte,
da frase inicial ao parágrafo.
riscado pela luminosidade do sol já posto.
Uma bela estrela de ouro,
o crescente delicioso da lua
no meio das nuvens leves,
para além de morros e do instante
o sono! , arranco-me ao sono e escrevo
içando-me para melhor ver
(e melhor ser visto)
sobre o cimo da escrita.
E poucos instantes depois,
o sono de novo,
esgotante como uma agonia.
E que chatice escrever um livro
lutando contra o esgotamento do sono,
a desejar a transparência de um livro,
luzinha deslizando de nuvem em nuvem,
de um horizonte ao horizonte seguinte,
da frase inicial ao parágrafo.
MOVIMENTOS DELIBERADOS
Opor movimentos deliberados
à ingenuidade de um dilaceramento extático.
Não podemos fazer do êxtase uma meta almejada,
e ainda menos o meio de obter outro resultado.
A indiferença às vias de acesso não suprime o fato
de que o êxtase supôs o acesso ao êxtase.
Mas aquele que fala e atola em suas próprias palavras
está necessariamente à procura das vias de acesso ;
demora-se em movimentos deliberados,
não podendo recusar meios aos quais
consente reduzir sua vida.
Percebo a necessidade de uma lucidez,
de audácias e endurecimentos imprevistos.
Tenho da pesada realidade
o sentimento nu.
O horror, incessantamente,
mas tenho o estômago para amar esse peso
sem reticências..... a existência precisa ir ao extremo,
aceitar os limites reais e somente esses limites;
sem isso, como rir ?Se tivesse uma complacência
que me detivesse na pergunta, se negasse
o peso que não puder erguer,
seria ''liberal'' ou cristão :
como poderia rir ????
O horizonte diante de mim (horizonte aberto).
Para além dos vilarejos, das cidades e dos seres humanos
que comem, falam, suam, tiram a roupa, se deitam.
Como se não existissem. Do mesmo modo
os seres do passado. Mas a esse mundo de para além
é que quero dar a transparência de frases como:
''Mas a esse mundo..... etc ''
Nesse além da colina e do instante
onda esgotada
à ingenuidade de um dilaceramento extático.
Não podemos fazer do êxtase uma meta almejada,
e ainda menos o meio de obter outro resultado.
A indiferença às vias de acesso não suprime o fato
de que o êxtase supôs o acesso ao êxtase.
Mas aquele que fala e atola em suas próprias palavras
está necessariamente à procura das vias de acesso ;
demora-se em movimentos deliberados,
não podendo recusar meios aos quais
consente reduzir sua vida.
Percebo a necessidade de uma lucidez,
de audácias e endurecimentos imprevistos.
Tenho da pesada realidade
o sentimento nu.
O horror, incessantamente,
mas tenho o estômago para amar esse peso
sem reticências..... a existência precisa ir ao extremo,
aceitar os limites reais e somente esses limites;
sem isso, como rir ?Se tivesse uma complacência
que me detivesse na pergunta, se negasse
o peso que não puder erguer,
seria ''liberal'' ou cristão :
como poderia rir ????
O horizonte diante de mim (horizonte aberto).
Para além dos vilarejos, das cidades e dos seres humanos
que comem, falam, suam, tiram a roupa, se deitam.
Como se não existissem. Do mesmo modo
os seres do passado. Mas a esse mundo de para além
é que quero dar a transparência de frases como:
''Mas a esse mundo..... etc ''
Nesse além da colina e do instante
onda esgotada
Fazendo da linguagem um uso clássico.
A cada vez o amor é o outro planeta.
Afundamos nele liberados do vazio
dos tamborilamentos. De fato, no amor,
deixamos de ser nós mesmos.
Isso contra a indiferença entorpecida
de uma leitora que, um pouco mais adiante
deixando este livro de lado porquê...
Que encontros consigo mesma ?
Isso contra meus ''quanto ma mim '' ,
as diferenças desejadas.
Fazendo da linguagem um uso clássico.
A linguagem como órgão da vontade,
da colocação em ação.
Expressando-me sob o modo da vontade.
O móbil da vontade que segue seu caminho até o fim.
O que significa o abandono da vontade
se falamos : romantismo, mentira,
inconsciência e antifiguri poético
K.M.
Afundamos nele liberados do vazio
dos tamborilamentos. De fato, no amor,
deixamos de ser nós mesmos.
Isso contra a indiferença entorpecida
de uma leitora que, um pouco mais adiante
deixando este livro de lado porquê...
Que encontros consigo mesma ?
Isso contra meus ''quanto ma mim '' ,
as diferenças desejadas.
Fazendo da linguagem um uso clássico.
A linguagem como órgão da vontade,
da colocação em ação.
Expressando-me sob o modo da vontade.
O móbil da vontade que segue seu caminho até o fim.
O que significa o abandono da vontade
se falamos : romantismo, mentira,
inconsciência e antifiguri poético
K.M.
A terra se decompunha como um prisma.
A incapacidade de colocar a máquina em ação,
a preguiça poética, acarreta diretamente
---- ou por tabela ---- o recurso à autoridade divina.
A divina liberdade do riso exige a natureza submetida ao homem,
e não o homem à natureza.
Estou deitado no chão, apoiado de costas em X.
Lembro de minha atitude jovial, até elegante.
Eu existia dessa maneira besta.
No tempo, a realidade do mundo.
A terra se decompunha como um prisma.
O tempo a lançava para todos os lados de uma vez.
Os morros, os pântanos, a poeira e
os outros homens não estavam mesmo separados,
menos indistintos que as partes de um líquido.
O cavalo e a mosca !, tudo estava misturado.
K.M.
a preguiça poética, acarreta diretamente
---- ou por tabela ---- o recurso à autoridade divina.
A divina liberdade do riso exige a natureza submetida ao homem,
e não o homem à natureza.
Estou deitado no chão, apoiado de costas em X.
Lembro de minha atitude jovial, até elegante.
Eu existia dessa maneira besta.
No tempo, a realidade do mundo.
A terra se decompunha como um prisma.
O tempo a lançava para todos os lados de uma vez.
Os morros, os pântanos, a poeira e
os outros homens não estavam mesmo separados,
menos indistintos que as partes de um líquido.
O cavalo e a mosca !, tudo estava misturado.
K.M.
Colocação em ação da máquina.
Uma espécie de homem transformado
capaz de superação, conduzindo par a par
a colocação da ação em questão.
O trabalho e o riso. O conhecimento opõe
à certeza da colocação em ação
a dúvida final da colocação em questão.
A vida faz de uma condição a outra.
Do emaranhado visto como essencial
à colocação em ação da máquina.
capaz de superação, conduzindo par a par
a colocação da ação em questão.
O trabalho e o riso. O conhecimento opõe
à certeza da colocação em ação
a dúvida final da colocação em questão.
A vida faz de uma condição a outra.
Do emaranhado visto como essencial
à colocação em ação da máquina.
quarta-feira, 30 de agosto de 2017
''Perambulators''
ACUMULAR IMPULSO EM FAVOR DE UM GRANDE CORTE DE IMPOSTOS
E DANEM-SE AS CONSEQUÊNCIAS
MAS AS CHANCES AGORA MINGUARAM
PREFEREM AGORA PENSAR EM FUMAR ÓPIO DO QUE FUMA-LO
DEIXARAM DE PENSAR COMO UM PARTIDO GOVERNANTE
E NUNCA MAIS ELABORARAM UM PLANO PRÓPRIO
E ISSO É TÃO REAL CO MO UMA METÁFORA,
COMO UMA FRASE ESCRITA POR UM DOENTE
NO LIVRO DA RAPARIGA UE ENCONTROU NO TERRAÇO
OU UMA PARTIDA DE XADREZ NO CONVÉZ DE UM NAVIO.
''Perambulators'' em todas as comissões públicas ao vivo
impedindo que as coisas aconteçam em favor da fabricação de salsichas legislativas
ABOLIR, REVOGAR , ESMAGAR, ERRADICAR,
essa é a consequencia de se paralisar um governo
e levar a América às beira de um calote na dívida.
a polícia simplesmente olha o FBI parado na aléa de trás.
eu, uma criança no carro , aceno à inconsciência lúcida do público
com palavras como CONSTRUIR, CONSULTAR, CONCESSÕES MÚTUAS E DOCUMENTOS PRELIMINARES
CORTE ESOPIANO
CORTE ESOPIANO. O arquiteto é reduzido à ''engenheiro'.
o poeta, à garimpeiro de mumificados versos alheios.
Draws conclusions on the Wall Street
Some speak of the Futures. Hedges. Creatio.
Biologia, Política, Biopolíca e Inteligência Atificial.
Geração de filhos por encomenda e indicação de magistrados estratégicos.
Nossa prioridade imediata: ''fingere''.
Verbo polissêmico de instável auro moral.
Na língua inglesa, sua forma trivial ,
mas altamente sugestiva, é ''dough''.
O ''fictor'' tbm era um servidor em ritos sacerdotais
ligeiramente menos eletrônicos e robóticos que agora ----
enfim, ele preparava a ''oferenda sagrada''.
Era um criador de imagens, como Dédalo .
The cloak and the dagger dangles
Madams ligut the candles
Totalidades combinatórias de supercomputadores divinos
in the ceremonies of the horsemens
even the pawn must hold a grudge...
Saber onde estar para poder estar em toda parte
Mas um computador assim só seria um outro nome de Deus.
Estátuas de fósforos desmontando-se sobre as outras
Saber onde deitar-se para estar passeando em todas as ruas do mundo
assim que o último fósforo apagar-se no quarto
para poder sentir absolutamente doido a água roçando as coisas umas contra as outras
My love winks , she does no bother
Yet she kows too much to argue or to judge
A ponte à meia-noite certamente voltará a tremer.
My love winks , again --- no bother.
The country doctor rambles
and the bankers ´nieces seek perfection
expecting all the gifts that wise men brings.
THE WIND HOWLS LIKE A HAMMER
AND THE NIGHT BLOWS COLD AND RAINY.
K.M.
Postado por Ka
Onde a veia temporal estoura
Bêbada de beleza, de impudor,
de juventude, a bacante dança
com o personagem da morte.
A dança maravilha por isto:
cada um dos dois ama no outro
o rechaço do que ele próprio é,
e seu amor chega aos próprios limites
onde a veia temporal estoura.
Seu riso é o riso sem pessoa.....
ambos são abusados, ambos abusam.....
um pouco mais pura, a noite
seria a certeza do dia,
e o dia seria a da noite.
K.M.
Sou um lance de dados.
Mais longe que a poesia
o poeta ri da poesia
ri da delicadeza da poesia
do mesmo modo
a lubricidade ri
de tímidas carícias
posso num beijo
introduzir um ardor venenoso
mas poderia me restringir a olhar,
ao beijo. Deus não é o limite.
O limite do homem é divino.
O homem é divino
na experiência de seus limites.
Deixo-me, perco-me e
---- em certo sentido ----
me reencontro
ainda uma vez
afogado num copo dágua.
Não posso me confundir com o mundo
que o meu valor
não pode mudar
O mundo não é eu
pessoalmente, não sou nada
A diversidade sem limite
e a terra ao pôr do sol
deslizando em suas planícies
suas montanhas e seus mares
Só tendo sentido na noite
sobre o fundo do não-sentido
não sou eu, é o homem em geral
árabe, delinquente, juiz ou forçado ----
que o mundo quiz
No sentimendo de que
o mundo em mim se joga
Aquilo que sou de ponta a ponta
é sob a condição de esquecê-lo
o que cai é a noite de Aminadab
encontro a exultação
o acordo com a vaidade
a criancice e o cômico
O mundo ligado à vaidade
requer uma loucura difusa
Fico feliz por descobrir em mim
um lance que define a partida.
Sou um lance de dados,
essa é minha força.
Tudo em mim se dirige a um ponto.
K.M.
terça-feira, 29 de agosto de 2017
O repouso do ser isolado
Fui espiar a sala de espera vazia.
Apoiei a testa no vidro da janela
imaginando se ela teria vindo de balsa
ou se fizera o contorno pelo norte, de carro;
a extrema lucidez nunca era dada numa lucidez imediata,
mas num desfalecimento da lucidez.
Assim que a noite caía o conhecimento era possível.
O humor da febre no final de Aminadab,
livre das perspectivas clássicas.
O questionamento do ser isolado
mas na transparência, na glória,
se negando como ser isolado.
Se estava sozinho no hotel,
tentava adivinhar o que ela sentia de longe,
ou qual fora sua impressão da praça redonda,
com trechos de areia e pedregulho avermelhado;
e que significado tinha para ela a igreja em ruínas,
rodeada de andaimes com marcas de bala.
Na medida em que o ser isolado se via
como uma existência natural
sem perceber em sua solidão
o dilaceramento de todas as coisas
---- e de si mesmo ---- que ele é ----,
ele estava em equilíbrio com a natureza.
Era, enfim, o repouso do ser isolado ----
a contestação cessava.
O triunfo da natureza
A história de um carro parado
entre galhos grossos e o perfume
das glicínias; das batidas na porta ecoando
na solidão convencional da paisagem.
Cruzando a borda dilatada da angústia
praticamente infinita e febril
como se tivesse crescido dentro de mim
o longo monólogo daquela nova presença
e tratava de imaginar que meu outro,
o do cristal, executava meus gestos e que ele,
meu duplo, os repetia.
O sentimento de potência atesta o sucesso de um
elemento natural contra a natureza
elemento que coloca a natureza em questão.
Mas a natureza triunfaria, escaparia do questionamento
se o elemento , triunfando sobre ela,
ao triunfar a justificasse por seu êxito.
Seria o triunfo da natureza
não do questionamento da natureza
Quando a noite chegasse ao fim.
Quando a noite chegasse ao fim
quando eu me levantasse e aceitasse
sem raiva, que tinha perdido:
que não podia salvar-me inventando uma pele
para o personagem e
entrando nele sem mais nem menos
esquecer as ansiedades do verso
que não tenho já que prender em palavras.
Minha vontade me impôs uma disciplina precisa.
Acordo depois da meia-noite, sem saber,
coberto de uma suadeira de angústia.
Lá fora o vento sopra furioso
e o céu está estrelado.
Desço até a ponta do terraço.
Engulo, na cozinha, um copo de vinho tinto.
Percebo uma dificuldade
a que nenhuma ação precisa
responde: se sofro a consequência de um erro.
É a situação do remorso.
Mas a transparência não resolveria nada
se não levasse a existência à intensidade do riso.
No riso o êxtase é solto, imanente.
O riso do êxtase não ri,
mas abre infinitamente.
A transparência é atravessada pela flecha do riso
saída de uma mortal ausência.
O amor pela flecha e o desembaraço
que nasce de um sentimento de triunfo,
quando só fosse possível manter o persoangem
num momento qualquer da noite
murmurando consigo mesmo e
cumprindo palavras e atos noturnos.
Ia ficar ali, próximo apenas para meu ouvido.
Determinados atos, cruzando previstas quinas,
tocando numa planta ou numa grade
para que o futuro seja tão irrevogável como o passado.
Agora hajo dessa maneira
para que o acontecimento que desejo
outra coisa não seja que o termo final de uma série.
Depois, saio para caminhar pela rua.
Certo de que este episódio será,
durante certo tempo, uma anedota.
K.M.
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