Montanha-eras,
mar-segundos.
Na montanha se vê
igual que no mar.
Corpo-mar,
conteúdo-continente;
montanha a pervagar
ante vossos olhos;
mar à deriva.
Atracada montanha.
Insone mar.
Recriação de gestos
e cenas mudas.
A pantomima da montanha
que aponta, embaixo, o vale
(risos, amuos)
e ilhas rodeadas,
povoações que aglomeram,
platitudes,
formas e cheiros,
ruídos,
cidades,
desprojetos empilhados,
poleiros e bichos,
desejos sem asas
e lugares de vícios proprietários
(reflexos vermelhos
de ferro em brasa) ;
cobiça, ganância, fel ----
monturos dormentes acodem,
abeiram o fim.
O rio fende o vale feito vela
de saveiro no mar.
Desmareio n ´águas longe;
montanha-alusiva,
mar-referente.
O olho da montanha
tem pontaria ----
e o mar é de histórias:
aqui, vapores,
lá, borbulhas ,
verdes-musgos
de agarrar alucinado.
Através um vento forte
nos olhos, poeira, coração.
Medra a lida e o amor,
a presença importa:
o riso, a luta, o esforço
(não me censure),
obra todo o tempo
(façanha do ar)
e especulo,
marítimo-montanheiro,
sobre os cimos daqui.
A tentação que remete
pro alto, incontornável
certa falta de ar,
a respiração suspensa
entre os segundos.
Acima, o mar de nuvens
silencia o trovão
na precipitação chuvosa
e solidões amplíssimas
fazem oceanos
nos céus interiores .
Desfazem-se as sufocações delirantes
do mar de palavras.
Vou virando ao solnascente
sem perder de vista
sinais que bem sei
de marchas, e nuvens
sempre tão aflitas.
Atos e questões,
e meu verso a granel.
Momento eterno assim,
fixado insone, cultivando
pensamentos e obras
meu poema sonha
meu verso radiativo.
Além do Sul
(longínquo charco)
ninguéns, nadas rarefeitos
em estado de gina,
tudos sombrios infindáveis,
ondas e cumes fantasmagóricos,
fiapos de nuvem
que estremecem à toa,
searas que sobrepairam-se,
flutuações, zumbidos
e claridade fria,
sem contrastes;
raios erram,
emanações se esquecem,
eflúvios sós ;
cismos e espasmos,
energias reorientadas
em longos circuitos mentais,
pistas calcinadas
vielas batidas
velocidade criptográfica
e material desterritorializado:
oco sem fundo,
ocioso figurar,
olhos dilatados
se os prateia o
dúctil branco-brilhante.
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