terça-feira, 31 de outubro de 2017

Numeral

Ginasticar-se
no centro da casa estéril.
Criar corpo fora da linha da família
ferir-se dentro das paredes da cabeça
onde o pensamento é peso, sangue parado.

Vazar, sair da fila
e entrar no perfil fugitivo e fluido
do desequilíbrio, do exercício contínuo
e fazer um puxado, a partir da planta
da árvore insuportável, com o vento ausente.

Armando Freitas Filho

Um pedaço de cabeça

Um pedaço de cabeça
emite ainda a linha de ação
do pensamento, 
e o circuito do dia
cada vez mais curto
e veloz --- ligado no
derramamento metafórico
entre quatro paredes,
procurando a fresta
que engole o ar em seco.
A passagem picotada
a se emendar do outro lado
dependente, na expectativa
e sujeita à deriva
no dia que ainda não acabou
(o dia indigesto que engendra
a tortuosa noite).
A dor da idéia fixa
interrompendo a linha do sono.
Primeiro, pontilhando-o 
de imagens, depois ----
drástico, em cheio
direto no cérebro comprimido
pelas paredes do quarto,
reverberação fosforescente

Página desdobrável.

O papel, o protótipo, o piloto
o gesto espalhado
que apanha o sentido do espaço
e faz vitoriosos riscos
no gráfico de sua marca.
Espalhafato e spams
desde dentro ---o vazio
assina o ar, o raio , as
luzes verdes usando
sua velocidade intrínseca.
Fixando-nos a dobra de sombra
vertebrada. Estala
e se acrescenta a dobradiça
da página desdobrável
por vossa mão.
Os tomos de vossos dedos
no artigo, antes do gozo
ou no meio, antes do fim
da fruição ---- ou ainda
outros prazeres viscerais
de leituras preparadas por dentro
que continuam engalfinhadas
como nos sebos .

Escritor escritório 3

O papel de carta com o nome impresso
e riscado em parte, como que causalmente
foi remetido seguindo à risca a regra rigorosa
da etiqueta elegante dos bem pensantes
se refletindo nos tiques do que vai escrito.

Armando Freitas Filho

segunda-feira, 30 de outubro de 2017

POESIA (INTER)CALADA

Midnight.
More than 125.000.000 beam candel power shines on the top of world´s tallest building
navios podem ser vistos quarenta milhas no mar,
mais de 2.000.000 kilowats horas 
72 elevadores operando, correndo 600 a 1.200 feet por minuto, 7 miles shaft,
fios telefonicos, janelas
degraus desde o solo
toneladas de aço suficiente para ligar Baltimore-New York
ida e volta,
um milhão de visitantes por semana,
uma das oito maravilhas do mundo
---- a única construída no século XX,
neve e chuva podem ser vistas caindo lá de cima,
a chuva, às vezes, é vermelha.

Do top, do topest, do topless
procuro meu tipo inesquecível,
o observatório está no 102
on fine days one can see the surrounding country for distances up to 50 miles,
mas como os dias de hoje são nebulosos
Wieklich, ich lebe in finsteren Zeiten
(e vivemos numa época escura)
a vista não vai muito longe.

Babel; Babel, Babel
Muitas línguas ouvi lá de cima.
Entendi-as todas, babel inversa,
- no bedrocks procurei o nome do arquiteto
 --- nao achei

Affonso Romano de Santana

Carpintaria de muitos planos.

Uma gota que seja de você
em cada poema, como
para fortalecer minha desordem
a fim de  reanimar nosso pacto
e apresentar a prova entrelaçada
que imprime força à letra.
Me mantenho escrevendo,
o gesto incisivo que imagino,
preciso mergulho de rapina
no gargalo veloz da página;
para pegar, pescar, a voz úmida
submergindo contínua
no escuro que não pode secar
(ponto além da escrita,
o andar por dentro de si).
Cenho composto por poemas
e vazio sem rasuras, o poema
pega no tranco, arranco,
atropelo riscando a pista
com manchas de pneu furado
na batida: letras na margem apontadas
contra a mata dos sentidos,
flashback, o mel e a penugem
das pernas , e mais o puro movimento
do verso na direção das entrelinhas
(margens de permeio).
A mesa máquina se completa.
Carpintaria de muitos planos,
errática, acrescentado-se
de novos talhes, 
apagando-se e recomeçando
no pensamento, que se reescreve
continuamente,
rascunho e resultado constante.




Outra receita

Da linguagem, o que flutua
ao contrário do feijão à João
é o que se quer aqui, escrevível:
o conserto das palavras, não só
o resultado final da oficina
mas o ruído discreto e breve
o rumor de roscas, a relojoaria
do dia e do sentido se fazendo
sem hora para acabar, interminável
sem acalmar a mesa, sem o clic
final, onde se admite tudo ----
o eco, o feno, a palha, o leve ----
até para efeito de contraste
para fazer do peso --- pesadelo.
E em vez de pedra quebra-dente
para manter a atenção de quem lê
como isca, como risco, a ameaça
do que está no ar, iminente.

Armando Freitas Filho

Escritor, escritório 2

A folha pousada foi o primeiro suporte
de onde se ergueu a planta no papel
carbono do pensamento, e depois na cartolina
na alvenaria que se segurou nas três linhas
que vieram sugeridas do mais íntimo grafite
---- velozes ----- à faísca que urdiu o diamente
antes de ficar na mão fria da máquina
sem saber como sair do aperto da lapidação.

Armando Freitas Filho

Escritor, escritório

Se há ruído, quando à mão
se escreve, não é o do arranhar
mas o do rastejo, do cicio de insetos
antikafkianos, porque reconhecíveis:
o do cupim cotidiano, no traçado
das traças, só percebido nos seus ofícios
aos que apuram a escuta, e pinçam
sem a mistura da mão e da máquina
a passagem do tempo, o escoar da areia ----
grão grânulo gris ---- na ampulheta

Armando Freitas Filho

Jactancia de quietude

Escrituras de luz embisten la sombra, más prodigiosas que meteoros. 

La alta ciudad inconocible arrecia sobre el campo. 

Seguro de mi vida y de mi muerte, miro los ambiciosos y quisiera entenderlos. 

Su día es ávido como el lazo en el aire. 

Su noche es tregua de la ira en el hierro, pronto en acometer. 

Hablan de humanidad. 

Mi humanidad está en sentir que somos voces de una misma penuria. 

Hablan de patria. 

Mi patria es un latido de guitarra, unos retratos y una vieja espada, la oración evidente del sauzal en los atardeceres. El tiempo está viviéndome. 

Más silencioso que mi sombra, cruzo el tropel de su levantada codicia. 

Ellos son imprescindibles, únicos, merecedores del mañana. 

Mi nombre es alguien y cualquiera. 

Paso con lentitud, como quien viene de tan lejos que no espera llegar.


Borges

domingo, 29 de outubro de 2017

Adaime e osso

Deixarão que eu fale
porque sou poeta. E te direi
estrela inédita
na vastíssima escuridão
que me contorna, surgiste
tão igual à tua própria boca,
nunca meus olhos viram
teu corpo e tua carne tão moça.
Deixa meu ´peito ondular-se
nas tuas pernas de repente
permitidas. E prometo,
prometo mares e mundos
e te imagino subindo
as escadarias do prédio
mãos enlaçadas
palavra louca no ouvido
Não ouças ! ,
mas deixa as palavras
se transformarem
em coisas investidas de cor
espaçadas e comovidas
que nos abraçam e morrem conosco.
A forma das palavras é dúbia,
varia com a veleidade,
mas seus contornos se encaixam
como paisagem nos olhos.
O poema é andaime e osso.





Eis que dançam grinaldas

Eis que dançam grinaldas
e cada uma joga em mim o que mais amo:
a perna rósea, as ancas côncheas
e os ademanes verdes e rubros
dos olhos ágeis ----- isto já me sucedeu:
a tartaruga em sua casca,
em suas leis e jornadas
medita dia e noite.
Ouço os zumbidos dos besouros
e abelhas sobre o mel .
Ali abano minhas guelras
e borbulho meus acordes
de música submarina.
Mais uma hélice na engrenagem,
Como ? no martelar submarino
as anêmonas pingam cúmulos
e gomos brancos de amnésia
onde as conjunções do tempo
reflorem , o inabordável frutifica,
o tempo criva os frutos
quando se sazonam as messes
K.M.

sábado, 28 de outubro de 2017

Jogo.

Relógio, breviário, jogo.
O fato, a cor, o trato
e esses quadros no meu sangue
a pulsar molduras em mim.
Aqui dentro o tempo
nunca finda. Precipita-se
nos fusos da emoção
de cem portas,
apenas portas eu sou
de ir e vir,
entre as ervas do campo
o limite é feito de cal
e a bola rola, falando
de vontades grandes e 
disformes, 
e de estranhos caminhos
para o mundo dos homens
e suas agonias.
O ´poema destila em mim
o desejo, o gesto que liberta
e a lua nova, o que está perto,
traduzindo a efêmera vontade
da fala. Grande.
O poema infinito
e a eternidade para a rosa.

sexta-feira, 27 de outubro de 2017

FORMAS

Existem peixes à tona
no pensamento
começando em ti
tomando formas
e sumindo na retina.
Cada encontro desfeito destes
iniciados nunca
mas guardados em retalhos
no fundo dissolvente da canção;
além da espera,
as vontades primeiras
intercalando sombras
e formas serenas,
relatando o que é,
querendo abranger e
integrar, sentir e acumular,
fluir na tua lembrança
escolhendo o que deve ficar
além da máquina
(possa eu também me situar
nos meus nervos e tecidos
e respirar agudamente
a história escolhida).

Capítulos diários do painel.

Manhã transformada em folha e fruto,
que fala de pensamentos intocáveis
e estoura no cruzamento de signos
deste amor de pensá-la sem revê-la,
sucumbido pelo sonho; quero antes
a certeza da fera que dispara
e banqueteia. A certeza firme
que rezam as árvores morro acima.
O desabalo da manada de máquinas
e as cifras do mau poeta
O poeta industrial
que liga e desliga conceitos
nos capítulos diários do painel
(sobre o palco, a certeza é
desumana, couraça,
longe das crenças do trono,
a certeza causa dano, mas
é aspiração confessa
pelo momento de agir
(este arremesso do disco
que dispara os músculos
e descreve as curvas
do infográfico geral).
No momento da ação pousar
quando cansado e dúbio ----
tomá-lo ofegante e rubro
e nele reviver as apostas,
absorvendo cada ausência
em que as formas nos confinaram

Atalho e apelo.

E o nosso amor discreto,
amante-amiga
no leito que vazio se contempla,
que não se farta de referir-se,
todo feito de distâncias necessárias
e brumas fronteiriças
que atraem a sucessão do olhar,
que levam e trazem palavras
que persistem, que aproximam
do todo de silêncio e segundos,
do enigma do poema que vem,
preciso, atalho e apelo
à escuta consagrada,
rondando os caminhos do sono
e envolvendo-se igual à rede
no mistério da vida.

quinta-feira, 26 de outubro de 2017

DESENHO

Amor que não traz outra opção,
que se afirma e necessita,
tanto minha forma se integrou na tua
(em mim mesmo criada
nas horas de inteiro envolvimento).
Eu te recebia em meu silêncio
e calmamente consentias
um outro tanto de si;
mais ainda, acrescentavas a
absorção dos olhos
no onde e no como
à força de contemplação,
já pressentindo que os passos
estão todos comprometidos,
partindo de mim
e se estendendo às outras partes
do desenho (onde e como eu fico
conformando cada detalhe).
Contigo fica muito de mim
concentrado em algum dia
ou guardado num momento de sol;
até a presença ausente
quando o olhar se perde nas alturas
traz nosso ser à tona.

Eu sei quando te amo

Que tu me tenhas.
Eu sei quando te amo
(a mistura de massa e forma
verbal, tanta singeleza).
Meu sangue corre em ti
e a palavra de amor simula
e tudo que é teu corpo
se alonga em mim
pulsando na sombra.
Depois da praia
é tão natural que a vida
em nós conflua,
tênue vontade de poesia
e messo isso
encharcado do momento
(o riso, o tremor
nos dedos)
o curto interstício,
parada do amor
no silêncio pressentido
Ah! , se ao menos em ti
eu nao me dissolvesse

Assumindo proporções próprias

Descarregar o peso
como um fantasma,
um peso inócuo
saído dos jornais
onde os olhos descobrem
o recrudescimento da voz
e o arrepio do instinto
da época informada.
Assumindo proporções próprias
começo a pesquisar
um assunto no outro
até encontrar vestígios dispersos
nas entrelinhas, nos acenos
e transeptos ----- o
cicio de Minas Gerais
me traz a gíria nebulosa
demais da conta,
a necessidade de feitos
e ranhuras desbordantes
nas palavras; anota-se 
sim ou não
ao fim de cada poema
e assovia-se inaudivelmente
a melodia colhida.
A mínima letra
basta para avivar a canção
senão a escrita de mais um dia
no branco instante onde
cria-se o vácuo,
ideograma e fixação

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

Frases

Alfanje que corta a palavra viva.
Frases laminadas e retorcidas
aditivando a memória. E mais:
em seu cortejo de versos rápidos
pingando o sábio silêncio do entreato
e se afastando um passo
para voltar com pressa dobrada.
Um sorriso conforme a praia
e tendo, enfim, toda a sintaxe
agarrada por dentro. Ferragens
e destroços ---- onde começa e termina
a boca, o verbo se confunde
com a espreita do que se pretende.
O corpo sopra para fora
os gestos aflitos
guardados na memória;
olhos nos olhos, espiando
as dificuldades vivas do poema,
as horas que não dormimos
ou simplesmente não tocamos os fatos
com a língua travada e os gestos pendentes.
Toda ação se torna muda ----
ainda quando a cor e a forma tua
se fundem, e dividida em outras me mostras
o prisma das aparências e dados

Transitando de si para si

Teu grande desejo de coisas novas
transformou-se em coragem
e preparação final. E depois:
convicção de variedades,
entusiasmo por cada cor
e vontade de explicar com números.
Andaste lendo muito esses dias,
tão pronta e apta, completa,
transitando de si para si
num alongamento das palavras,
procurando tanto, ó deuses,
os destinos e seus destinados.
Teu s olhos ficarão alerta
porque hás de querer ver
e porque a poesia aparece
no fim de cada gesto.
O silêncio contorna as palavras
e a ternura do dia desaba
prometendo mais alguma coisa
e consumindo sonhos adolescentes.

Do inefável ao fato.

Tempo exato do gesto
cruzando as horas. Os fortes
atacam a tarefa:
esquivar-se, agir,
condescender ou refutar
(onde, como e quando).
O que se ouve e o que se sente ----
segredos repentinos que fazem
a floração dos atos e gestos,
o esplendor da caminhada
e o alimento inesperado
do espírito , no encontro mais difícil e prolongado
com o sublime, o abstrato
salvo e restaurado.
Do inefável ao fato
o verbo encarnado
num transcurso corrido
servindo o pão comunicado.
Cena das falas emergentes
e seu governo múltiplo
como algo mais sutil
correndo nas veias.

terça-feira, 24 de outubro de 2017

Espiral

Retalhos de várias vozes
e fluxos de consciência
na solidão do monólogo
(a posse do discurso)
quando o corpo responde sedento,
são e hercúleo nos campos preparados;
olímpico inventor de sucessões
inesperadas, psicologicamente palpitantes,
pelos músculos rijos sob o sol
e o estado de atenção ampliada.
Alavanca da página
que vaza o verde e o azul
nos reflexos de vidro 
(detonação de músculos e neurônios)
O zumbir do vento no gramado
e outros presságios do ouvido.
O disco girador das esferas de influência
(sarrafos, lirismo descuidado),
conversas e histórias na
fusão invisível dos eixos da narrativa.
Vejo o esboço na espiral
que vende e acelera o assunto.

Sem interrupção.

Tempo a fecundar.
Abrandando-me, em contemplação
meus olhos se guardavam,
calmos e atados no caule.
Havia ainda a concha na solidão
e o estado normal das coisas.
O fincar-se como mastro,
o dar a volta na chave
e fazer cifras com analogias.
Sem interrupção. Pélagos e
escarpas esculpindo a subida
lisa e verde como um fruto inteiro.
Aqui os raios abriam o riso
que não se penetra;
eriçava as crinas e esperava
a lunação nos pastos,
perseguindo cada clarão de luz,
quantas vezes perdido por cabeleiras
e bosques ---- cavernas e visões,
e ondas de carne navegando lemes
e expondo parte de seus jogos.
O trote das passadas adentro
com um badalo glandular de aviso.

PONTAS

Fazer tudo o que der.
Decisão. Fruto indefinido
esperando pelo verso
(assim à mostra)
no pasto das imagens ao vivo.
A soma de corpos conhecidos
devassando o olhar contricto
(olhamos para nossas mãos
quando nos espraiamos
em formas raras, e imaginamos
realizações difíceis, cada vez que
(rito cumprido)
nos preparamos para agir
o vento sopra suas letras em nossos ouvidos
e uma canção perdida nasce na boca.
Valor de consistência
das palavras. Cabeça e asas:
verso corrido, agrupado,
estrelas e individualizações;
fica na cabeça o ser dissolvente 
e a fantasia cheia de pontas
da meditação

segunda-feira, 23 de outubro de 2017

Satori

Advento do gesto único
e argumento, trunfo, marco;
sólido instrumento de viver,
o pensamento ama debater-se
contra o tempo. Eu mesmo
sonho o pensamento contra o tempo,
a doutrina zen da ''não-mente'',
sonhos de planície e satori ---- 
defluir de novas senhas,
adubo e desvelo, deveres do
sangue e do gesso, 
a desatar molduras
(dilatações extremas e gerais)
que se pressentem na carne:
sobressaltos e urgências,
água esparramada em cristal,
digestão conceitual e gula,
buraco de concha, segredando
o ritmo colorido dos dias
e pensamentos em ação
(conclamando olhares e sombras)


Leme

Trajeto do canto à palavra
que a si mesmo ultrapassa:
densa forma de gosto,
de letra e pressuposto de poder;
mais que o fruto que se planta,
é a luta: membros, sal na boca
e um desejo de prados duplos,
de máquinas de tudo, 
das chaves da fome
e da escassez ---- leme da própria imagem
onde o sangue é alarme
e o corpo consome os pensamentos;
luta e exultação; cal, calos e vida ----
onde e quando ---- ferro e cálcio,
da cartilagem ao osso,
chumbo e abdômen,
vai-se fazendo a anatomia
predileta, o uso completo
do cotidiano, o andar das horas 
na cabeça, reabsorvendo o olhar.
O silêncio no teu caminho
sempre ajuda a conquistar
os segundos preciosos de volta;
sempre ajuda a decifrar
o corpo que se instala no mito
e acena e longe

Na direção do instante.

Doçura, mansidão, amor.
Quero assemelhar-me a tais coisas
e tornar-me exato no descanso.
A sobrevivência quase nula
da palavra, entre respirações de amor
lentas como o silêncio.
Como eu me faço,
ultrapasso e complemento
como um verão.
Gostaria de encontrar-te
e desmanchar-me nos teus ditos,
olhos de luz e ecos na boca,
falando docemente
do cotidiano da vida:
''Um dia a se gente se observa,
se admira, mais que isto:
um dia a gente toda se denuncia
e emerge da vida organizada
com os olhos fluindo
sem desperdício
na direção do instante

GESSO

Tu permaneces no tempo,
cabelo coral indefinido,
pedindo sol ----
meu olhar estagnado
acelerando teu pescoço
feito água corrente,
verde aguado das veias
e rosa molhada.
Sabes onde termina
o livro, tua presença
peregrina no tempo,
pesando favoravelmente,
cultivo e síntese.
Difícil é demarcar
 o instante ;
o canto destaca
apenas o limite da palavra
---- música , novelo e ovo ----
e configura-me no gesso
em que tranquilo me exponho

O CANTO

Aquele que antes falava
testifica a elevação
entre palavra e canto.
O que se perde se dissipa:
palavras. Mas o canto
se afirma, organiza
(acrescenta, articula)
as palavras: o eu fluindo.
Voltando a cada presságio.
Acenderei as luzes na minha porta
e verás o eu fluindo
como um retorno do instante.
A lamparina do teu quarto
ficará acesa a noite inteira.
O amor sobrevive.
O canto é ato claro.

Numa noite como essa

Numa noite como essa

esquentando a água do café.
A gente tem muito assunto
e muito a lembrar
Pode apostar que é bom
você ter vindo pra cá.
Me abrace, moça linda
Diga que nunca vai sumir,
passe os dedos pelas minhas costas
e traga um toque de êxtase.
Eu não consigo pregar o olho
O ar tão frio lá fora
e a noite tão funda
Eu ouço a fogueira crepitar
e deixo queimar, queimar.
Deixo os quatro ventos soprarem
em volta da porta desse chalé.
Não estou assim tão longe
e sua cidade é minha também
Acho que já fizemos isso uma vez
Tinha um pouco de geada no vidro
e eu cheguei num lugar
onde o carvalho não se dobra ----
não havia mais o que dizer.
Estava, pois, indo ;
estava fechando o livro
e partindo, com páginas e textos.
Partindo pro que der e vier
Vovó disse : ''Rapaz ,
siga o seu coração 
e vai se dar bem no final
caminhando pela estrada
e saindo pela noite ''.
Antes de chegar à beirada
e estar de cara pro limite, 
carne sacudindo no esqueleto
e nervos saltando
Uma fumaça no meu rosto
com um círculo em volta do sol
nascido de uma luz que cega
e de um vento que vira a noite

domingo, 22 de outubro de 2017

Agora a manhã está clara

Venha me encontrar onde durmo,
ao vento. Me conte o problema
ao pé do ouvido. Eu sentei e escrevi
as melhores palavras que tinha
e disse que estaria aqui na quarta de noite,
ao vento. Na tarde seguinte, 
sob a chuva. Agora eu a conhecia tão bem
quanto me conheço

*


Agora a manhã está clara

Tudo misturado num saco.
Eu não entendo. De cara pro
''muro''. Eu ia querer saber.
Mas agora a manhã está clara
e é tudo novo pra mim
como algum mistério.
Eu sou um escritor difícil,
virtude de enxergar tudo de longe.
Mas é difícil tbm de pensar.
Das trevas dos sonhos
são desertadas palavras
e secretado silêncio puro.
Ainda estou sonhando?
Queria que ela
destravasse a voz e falasse
sem qualquer dúvida
a noite voando, girando
se revirando  em seus sussurros.
Talvez tendo que advinhar
e aceitar qualquer coisa tentando.

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

SONO ÍNTIMO

Eu escutava aquela murmurante emanação misteriosa,

suave como um zéfiro marinho,
fascinante como esse luar que era teu sono.
E, de fato, logo que tu dormias um pouco mais profundamente,
deixavas de ser apenas a planta que fora;
seu sono, à beira do qual eu cismava com franca volúpia,
era algo que se podia gozar indefinidamente,
era para mim toda uma paisagem.
Teu sono supunha junto a mim algo calmo
tão sensualmente delicioso como essas noites de lua cheia numa baía tropical,
que se tornava suave como um lago
e onde os ramos mal se moviam;
onde, estendidos na areia,
escutaríamos sem fim o quebrar do refluxo.

SONO ÍNTIMO 2

O rumor de sua respiração, tornando-se mais forte,

podia dar a ilusão do ofego do prazer e,
quando o meu chegasse ao fim,
poderia beija-la sem interromper seu sono.
Nesses momentos parecia-me acabar de
possuí-la completamente, como uma coisa
sem resistência da natureza muda.
Eu fruía seu sono com um amor clamante,
assim como ficava horas a escutar a rebentação das ondas.
Estava diante de mim e para mim;
tanto tempo como antigamente eu ficava deitado na praia,
ao luar,  ---- e teria ficado ali a contemplá-la e escutá-la.
Às vezes o mar se encapelava, e a tempestade se fazia sentir
até na baía, e eu me punha, como ela, 
a escutar o ronco de seu sopro.
Quando do fundo do sono ela subisse
os últimos degraus do sonho, 
que fosse em meu quarto que ela renascesse
(eu pensava)
para a consciência e para a vida,
que ela se indagasse por um instante :
''Onde estou ????'' e, vendo os objetos
de que estava cercada, a lâmpada cuja
luz fazia quase imperceptivelmente piscar os olhos,
pudesse responder que estava em sua casa
ao constatar que despertava na minha.
Quando é assim de uma hora hesitante relativa
a uma criatura, quando é da incerteza de poder
ou não retê-la que nasce o amor, este amor
traz a marca da revolução que o criou,
e lembra muito pouco o que tínhamos visto
até então quando pensávamos nesta mesma criatura.

K.M.

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Respostas

O vento cortava as palavras

para faze-las maiores.
A ventania esparramava
um desejo de nitidez
precificado, caro ;
esparramava as tintas na parede
da meditação.
Era este vento 
que dizia o que ela era
sua boca molhada
suas indagações e respostas
na janela do arranha-céu
olhares bailando
em saltos fluidos
de torre em torre
apesar de sua saia agitada
em movimentos reinhidos,
doce como um cervo,
fazendo o corte com orgulho,
ficando perto
dos passos do tempo,
com cordas de desculpas
guiando nossas palavras,
guiando nossos passos
por instintos  sensíveis
e desmontagem de respostas fáceis

Veredito óptico

Estou de olhos fechados,

esta é a hora
se você quer me jogar.
Bicos elásticos sob o jersey.
Já estou pronto,
voando ou já pirei?
Diga o meu nome
em voz alta
e diga que foi impossível
vir hoje à noite.
Necessitando muito tempo
para arranjar-me,
até então escondido
aqui na estante
entre livros velhos
e labirintos difíceis
indo parar no fundo dos teus olhos
para ficar a  noite inteira ali.
Não que eu esteja interrogando
ou participando de uma enquete,
meu relógio apenas não marca
o tempo ordinário e conhecido.
Tudo bem, queremos uma conexão
mas apostando transversalmente
no veredito óptico da viagem

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Acendendo luzes

Pensa em visgos e algas verdes;
indaga, narinas, aromas alpestres:
Extra, ó fragrâncias
de verdes ervas despenhadeiras;
fímbria, franja a desmanchar-se
e águas eólicas a roçar
o ser dos músculos,
a flor das pedras;
rumo, roda, ladeiras
trocando imaginações.
Arauto? Guru de si mesmo,
o Mercado é mistagogo?
Tem ''jeito de asceta''?
Peculiar, norteando-se,
sem noção de posse ou receio
o Robô lança amarra e âncora,
seu último passo
na direção do verso
que o liberta desse ágio,
que chega, marcha, 
corta, pega e faz
e vê quem lê
rodando sem parar
pegando as palavras com a mão
e acendendo luzes
sem franzir a testa

O que simulacra, imita ?

Escrevo,
não me sabe onde o extremo,
se atinasse, escritor ;
compõe, justapõe,
sobrepõe, dispõe
põe, contrapõe e repõe
e vê no que dá ----
fazedor de qualquer coisa.
Discurseira inveterada,
Transbordante de... quê ?
Frases, retalhos
quase versos
tentativas, fragmentos
Percebe-se o que a coisa implica.
Profunda, ela capricha e pavoneia,
encobre e trunca,
oculta, escamoteia
O que esconde, dissimula ?
O que simulacra, imita ?
Mistifico essa coisa,
Dito assim porque escrevo raramente
sobre política