Eu sentia que, em vez de um ar rarefeito,
a ventura é que me enchia.
Estava a salvo.
A vista desses nadas
me fazia possuir as imagens,
eu corria para elas
ou folheava um album de marinheiro
ou um livro qualquer ;
como minhas próprias obras
pareciam dirigir-se apenas à vista
ou ao ouvido exigente que,
para desfrutá-las, nossa inteligência desperta em nós.
Colaborei estreitamente com esses dois sentidos.
Eu fazia, sem perceber, que saíssem de mim todos os sonhos.
Os sonhos que eu suscitara outrora e agora.
Quando ainda não conhecia ninguém
e a vida cotidiana havia sido extinta.
Uma ilha deserta habitada pelo nagual.
Ninguém ganhava menos em ser desse modo,
eu pensava,
transportado de um mundo para outro
e tendo acesso a um grau que poderíamos classificar
de alternativo, um mesmo objeto
para escapar assim à esmagadora força da matéria
e nos recrearmos nos fluidos espaços do pensamento.
De súbito acontecia-me e, por um instante,
tinha percepções incrivelmente úteis.
Uma exaltação momentânea
de percepções nuas
e ainda assim
vendo-as num recuo privilegiado
da imaginação e das artes.
K.M.
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