sexta-feira, 15 de setembro de 2017

UM CONTO PARA PABLO PICASSO

MÁLAGA ENTRE PARÊNTESIS.

Singular nome: Málaga.
Embora telegráfico, de seis letras,
três ''a'' ligados por três consoantes que lhe transformam o som suave em marteladas:
Ancha - Abierta - Acogedora.
Amplos espaços de água, terra e árvores.
Amplo espaço afetivo.
Comunicabilidade de vinhos.
Reconstituição de um adjetivo montado em vedeta
no tempo da crismada belle époque;
refiro-me à voluptuosa palavra que não rejeito pela imprevista ligação mais própria às línguas eslavas
do ''p '' e do ''t '' defendendo-se do assalto de tantas vogais e sua desinência que
não sem perigo
alude à ROSA
palavra exausta na área da linguagem poética
salva porque maldita.

Mas não é a suspeita palavra ROSA que Málaga nos propõe
é antes uma série de palavras resumidas num parque aberto com mil exemplares de plantas tropicais desnudadas ao olho do passante,
fato talvez único na Europa.
alamedas de plátanos e palmeiras em curvas que demonstram o espaço ao alcance da mão.
Tônica de árvores e vinhos nas ladeiras árabes de Alcabaza e Gibralfaro ----
o estreito de Gibraltar está próximo (percebe-se) :
separação físico-mitológica de dois continentes sustentados pelas colunas de Hércules.

Agota é chegado o momento de extrair da pena a palavra MAR.
Palavra deveras reduzida para tudo que contém.
Que se pode fazer com tal palavra?
Já sei: passá-la para o gênero feminino.
Assim fizeram os franceses e certos espanhóis,
que a consideraram ambígua.
Depois de ''La mer'' e ''La mar '', agora : ''A-mar''.
Direi que ''A-mar'' está hoje agitadíssima, furiosa.
Isso não deveria assustar-nos no contexto de uma cidade revolucionária.
Inútil: a minha volta estão todos assustados.
Durante a guerra Civil foram incendiados todos os seus templos.
Quanto à ''A-mar'', será uma palavra conservadora ou revolucionária?
Talvez as duas coisas: ''A-mar conserva e destrói.
Possui grandes arquivos, granes akáshas.
''A-mar'' sereniza-se influenciada pela fotografia em cores.
A mímica particular do espanhol e habituada à aliança
entre conceito e imagem.

Andar térreo da casa natal de Picasso.
Toque de brisa malagueña nos ramos.

K.M.


UM CONTO PARA PABLO PICASSO


Na ausência das Musas, apesar das competentes e divertidas edições do sábado, retrocedo no tempo para falar do meu assunto preferido: eu mesmo. Procuro columbar aqui aqui o menino Pablo que fui a partir de Málaga, caminhando célere entre balões soltos no ar, troçando incansavelmente de tudo e de todos à minha volta, apoderando-me da primeira Carmen ou Angustias, sob o impacto visual do mar no espírito, disparando desde então meu olho tentacular sempre aceso. Arquiandaluz, nervosíssimo, virtuose desde o ventre materno; rabiscando os primeiros esboços eu já dispunha da exagerada energia gestual que viria a se desenvolver e prolongar-se através do tempo.

Enfrentei para sempre o enigma do sacrifício taurino. Detinha-me ante os cartazes policromos que mostravam ao público nobres touros selecionados em Jerez de la Frontera,
o desfile do redondel,
os espadas revestidos de paramentos litúrgicos:
o traje de luces,
às voltas com a verônica,
a rebolera e a mariposa,
o interior vazio enchendo-se de milhares de pontos elétricos
que lembravam bolhas de champagne,
saudando,
de castoreño na mão,
o POVO;

defrontava no vértice da faena o momento da ''verdade'', já célebre:

Guerrita,
Lagartijo,
El Gallo,
El Espartero,

outras no ato de receber a alternativa ----- eu discutia ali os diferentes estilos de toureio.

A sala parecia um apartamento particular e, ao mesmo tempo, um local de negócios. Era mobiliado em estilo decorador,
de plástico,
objetos de arte artificiais nas paredes,
formas geométricas do tipo ''trompe l´oeil''
que intrigam os homens de negócios até hoje,
que são até hoje vulneráveis aos exploradores de arte.

Ajudado por algumas assistentes eu havia construído uma pequena ''plaza del toros'' em papelão e madeira, com os animais, seus matadores, picadores, banderilleros, etc;
participei de todas as corridas mimando-as depois em casa ou na rua;
temível aficcionado, torcia, apostava, discutia, brigava; trazia no sangue o demônio da taurimaquia.

*

Permaneceria toureiro ao longo de toda minha vida, avesso ao bizantinismo das teorias,
polêmico e ambíguo,
tourearia ainda os monstros Velásquez, Goya, Delacroix
e também toda a pintura do século XIX,
fechando o ciclo histórico iniciado com a Renascença.

Do arranha-céu, naquele momento, podia contemplar o panorama da cidade moderna, naquela breve tarde de domingo. No oeste, um sol áspero lançava uma luz alaranjada sobre os contornos escuros do centro do bairro comercial, as margens do rio e as negras treliças das pontes. O lago, em tons de ametista, douradas e prateadas, estava pronto para receber sua cobertura invernal de gelo.

----- Só não me pergunte o nome do lugar
pois não faria nenhuma diferença --,

surpreendi-me pensando que, se Sócrates estava com a razão ao afirmar que não se pode
APRENDER NADA COM AS ÁRVORES
que unicamente as pessoas que encontramos ao vivo podem nos ensinar algo sobre nós mesmos
então eu ia
DEFINITIVAMENTE
no caminho errado
(ainda que toureando)
prestando atenção na paisagem em vez de ouvir vozes humanas,
eu contemplava a água pensativamente.
Sócrates me teria dado uma nota baixa.
Parecia antes estar no final das coisas de Wordsworth ---
árvores, flores, água.
Porém arquitetura, engenharia, eletricidade, tecnologia, sociedade e família
tudo isso me trouxera essa história apressada
de pintura
o drama dialético
na sala de negócios
o confronto de uma grande personalidade criadora
COM A NATUREZA
a sociedade e o destino adversos.

Prosseguia depois ininterruptamente em Barcelona
onde viria a descobrir
ao mesmo tempo
a arte romântica e o estilo liberty;

em Paris
(quer dizer,
Cézanne,
Degas,
Lautrec;

na Côte d´Azur,
meu perpétuo miradouro;

no universo inteiro:
a Escandinávia pusera-me este copo na mão,
a Escócia enchera-o de uísque,
e eu me sentara lá,
entre touros e homens de negócios,
a relembrar coisas maravilhosas acerca do sol,
por exemplo,
que a luz de outras estrelas,
ao penetrar no seu campo gravitacional,
sofria uma leve curvatura.

O sol vestia um xale feito dessa luz universal.

*
seu único trabalho era sentar-se com pessoas
em bares e restaurantes.

Eu era volátil demais para um trabalho sedentário como esse
e não conseguia entender de que maneira era feito;
as raízes do fenômeno prodigioso
(eu pensava)
haviam sido plantadas muito longe dali,
nenhuma sala de imprensa
poderia decifrar a cidade andaluza oculta
onde armei-me do olho zahori
e descobri a enormidade da vida,
a fabulosa Espanha e seus absurdos,
a primeira Consuelo ou Angustias,
os cartazes gigantes das corridas,
o território da própria corrida,
o caráter singular de cada ''diestro'',
o problema espanhol paralelo ao rito antiquíssimo da tourada ---

onde comecei a pintar o auto-retrato gigantesco que é minha obra.

*

Esse continua a ser o tempo do superindividualista Pablo Picasso. provocador da própria apoteose,
distante quase sempre, salvo no período cubistA,
da rigiDeZ esTrutuRaL;
fértil em improvisações e scherzi,
infatigável operador do figurativismo
através de esquemas deformadores;
de Picasso, mestre em metamorfoses,
que se dão romanticamente em espetáculo,
e acham-se inseridas na história,
mas para transbordá-la na sua interminável faena;
o pintor diestro aplica com desenvoltura
violentas estocadas, inclusive muitas que,
embora recebendo o aplauso unânime dos aficcionados,
se perdem na desarrumação do redondel.

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