sábado, 9 de setembro de 2017

ÂNGULO DE APRECIAÇÃO

O vento aumentava, úmido,
movendo as pontas dos penteados.
Nos arranha-céus de Manhatan
as loiras, erguidas como espectros
no nevoeiro, dançam loucas e tristes,
bambos e molengas fôqueces.
A chuva recrudesce sobre a escura
passagem de gretas ; frias, alvíssimas
pernas, nos musgos e fortes torrões.
Com suas asas de cera, são anjos caídos;
com suas pernas de mármores, frutos
do Mar Morto. Todas tem sexos gelados
enquanto Malibu chora à porta de um banco
e um judeu olha e vê apenas a Palestina.
''Deixa que a Babilônia cái sozinha'' , diz.
Fluem então rios, nascem mares longínquos
no fundo esbatido do horizonte. 
Na Terra da Promissão, brotam santos.
Com a complicada camisola,
um a loira senta-se sobre semanas
envelhecidas, tão segura da 
domesticidade do futuro
quanto das austeridades do dia atual.
Toda curiosidade podendo saciar-se
em dois dias. "Eu não poderia mudar
meu princípio; venho das tragédias
loucas dos oceanos, dos oceanos
que me introduzem nas algas e sargaços ----
meu grande corpo branco
está sempre pesando sobre uma iniciação.
E o dom feminino da permanência ,
essa falta de individualidade,
esse parentesco com a terra
eternamente me deita de costas 
sob o suor antigo ---- nossos passos ,
nossa breve presença, não poderiam
mudar meu princípio, forçando-o
a acontecer, desta vez de forma diferente.
Estas saudade de terras frias morrendo
onde se anulam os dramas de todos os homens,
apenas para que eu possa, mais perto
da morte, evocar uma intimidade profunda.

Nenhum comentário:

Postar um comentário