segunda-feira, 6 de novembro de 2017

A vida humana está ligada à lucidez

O que funda a atitude poética

é a confiança atribuída aos arranjos naturais
às coincidências, à inspiração.
A condição humana é, no limite,
redutível à contestação da natureza
por si mesma; ao questionamento
de ser por si mesmo.
Contestação dada no ordenamento cego
(no jogo de elementos diferenciados).
A vida humana está ligada à lucidez
---- que não é dada de fora, 
adquirida em condições contrárias -----
lucidez feita de contestações contínuas
de si mesma, que no fim se dissolvem.
A lucidez, a contestação não podem deixar
de atingir a consciência dos limites
em que os resultados relativos vacilam,
em que o ser é o questionamento de si mesmo

domingo, 5 de novembro de 2017

A chance solicita a vida espiritual.

A chance solicita a vida espiritual

é nela a que tudo se coloca 
--- do baralho à poesia ----
nas maneiras tradicionais de se atingir a chance
não podemos mais que roça-la
escrevendo-se recebe-se da chance um toque diferente
um arranco que dura minutos
na cadeira onde escrevo mesmo
a chance se instala com seus circuitos
então : um momento de paralisia total
nada podendo-se dizer sobre o assunto
ama-se a chance até a vertigem
e depois vê-se a chance afastar-se
e até que ponto segue-se o movimento
de apreensão.


K.M.

sábado, 4 de novembro de 2017

O encadeamento rápido dos movimentos.

A casa estreita no meio de telhados escangalhados

que dominam-se uns aos outros, uma longa faixa
de terreno dividida por um aleia de buxos
e acima das muralhas do vilarejo a extensão da floresta.
Depois de uma longa descontração :
a ausência do céu estrelado sobre as nuvens
e as dificuldades encontradas
Mas todas nulas se estou descontraído.
Começo a descontração sentindo-me diminuído
na risada para estrelas invisíveis.
Com o sentimento da dificuldade de fazer entrar no tempo
os atos necessários; rompido o acordo com o tempo
e com o remoroso decorrendo disso
o ato de escrever este caderno
fica em falta com o objeto profano , o projeto formado
em vez de rir em uníssono com o tempo
sentindo que a chance voltou como boa consciência
como equivalência da platitude
salvo pela evidência de gratuidade
que ela mesma representa, de abismo sob os pés.
Necessidade , por alternância, de se ligar ao tempo agindo,
mas a ação exige a descontração prévia
é o segredo do movimento
do encadeamento rápido dos movimentos

K.M.

Na origem e no resultado.

A chance joga os seres em conjunções

onde, dois a dois, por vezes sonham, 
agem, amam, se execram, se dominam.
Um homem , antes da conjunção
esquece-se de si mesmo , atraído
pelo ser amado. Como chuva ou raio
suspensos, calhando nessa conjunção.
Num sacrifício, a má chance
consome a chance tempestuosamente.
Marca o operador com o sinal nefasto
tornando-o sagrado. O sacrificiante
empregando a má-chance para os fins 
de uma chance. Uma consumação da chance
pela má chance é por vez chance
na origem e no resultado.

K.M.

sexta-feira, 3 de novembro de 2017

A BOCA DO POETA

Levaste à perfeição aquilo
de que falarei baixo,
olhando nos seus olhos:
Este alimento semelhante
à voz humana, à mesa
entre nós, é a fineza
do amor que te felicita.
O raio da lâmpada laça,
tece sua distração sensual.
Um leito espera e treme
no exílio de lençóis perfumados.
A Amorosa confia
em sua sinceridade infante.
Dama que harmoniza
com a boca do poeta,
o amor já confessado
na torrente serena,
dia após dia.
E na verdade entendo
o vosso andar junto,
a vossa fala útil,
pressinto o que vossa boca
esboça no silêncio,
no pólen das flores
cuidadosamente
como um pensamento difícil
que vale a pena abordar

Fala de amor.

Lado a lado, mudos
por um momento
meu corpo com o teu
e um gosto de terra úmida
nos aproximando brandamente.
Nossas bocas de ausência
unidas como se nunca
tivéssemos nascido.
Verdade e beleza do amor.
É de amor e aço
nosso passo na noite,
no morno rumor de sombras
e folhas. Temos
olhos e sonhos, traço
espaço e cor
e estruturas infantis de aparo,
a garra e a pupila do amor,
a fala de amor sem segredo
no labirinto de exígua ressonância.
Os colóquios rezafendo os ecos
das asas, até que a madrugada
ame e conheça, em pleno vôo.


Na representação desse jogo ----

Na representação desse jogo ----

em que o ser é posto por si mesmo
em questionamento
uma desaceleração do movimento
daria a ilusão de uma satisfação possível,
]a de uma lucidez sem falhas.
Para dizer a verdade
a lucidez sem falhas 
não pode se deter nem um instante
sobre si mesma
ela se destrói esgotando sua possibilidade
A lucidez não é independente do wquestionamento
seu último resultado é um ponto necessário
ao questionamento derradeiro
às primeiras estrelas.
Quando desço até o terraço
olho o ''mundo'' com a ideia de responder
alegre, altivamente
com a precisão exigida
às dificuldades angustiantes.

K.M.

Sou um lance de dados.

Mais longe que a poesia

o poeta ri da poesia
ri da delicadeza da poesia
do mesmo modo
a lubricidade ri
de tímidas carícias
posso num beijo
introduzir um ardor venenoso
mas poderia me restringir a olhar,
ao beijo. Deus não é o limite.
O limite do homem é divino.
O homem é divino
na experiência de seus limites.
Deixo-me, perco-me e 
---- em certo sentido ----
me reencontro
ainda uma vez
afogado num copo dágua.
Não posso me confundir com o mundo
que o meu valor
não pode mudar
O mundo não é eu
pessoalmente, não sou nada
A diversidade sem limite
e a terra ao pôr do sol
deslizando em suas planícies
suas montanhas e seus mares
Só tendo sentido na noite
sobre o fundo do não-sentido
não sou eu, é o homem em geral
árabe, delinquente, juiz ou forçado ----
que o mundo quiz
No sentimendo de que
o mundo em mim se joga

Aquilo que sou de ponta a ponta
é sob a condição de esquecê-lo
o que cai é a noite de Aminadab

encontro a exultação
o acordo com a vaidade
a criancice e o cômico
O mundo ligado à vaidade
requer uma loucura difusa


K.M. 

POSSIBILIDADES DE DIALÉTICA

Evidência primeira, o trabalho,

a ferramente, o objeto fabricado
e a relação regular entre trabalho e objeto,
 o saber elementar é o saber fazer.
Meu conhecimento de um objeto que fabriquei
é pleno e satisfatório, a que me esforço
por reportar o conhecimento que trenho
de outros objetos ---- os objetos naturais,
eu mesmo ou o universo.
Enunciados lógicos
a partir de evidências grosseiras,
a linguagem ordena um encadeamento
de situações equivalentes
pelo rigor matemático.
Deslizando através 
das possibilidades de ação
no domínio especulativo.
Mas logo a evidência
se move no interior da linguagem
através de números e frases
assumindo um aspecto dialético.
A ev idência formal e rigorosa
se opõe à evidência imediata.
Ela toma emprestado à primeira
o sentimento de convicção
a certeza do ''eu posso'',
mas recusa seu caráter exterior.

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

Sanglot long des violons

A voz que diz o verso
tem repetido que te ama;
a voz amante, sem medida,
lenta e branda. Bem sei
quem és e de onde vens.
Iniciei mil vezes o diálogo
e vesti e arrastei comigo
o amor. Sóis e sombras.
Preparo-me e aceito-me,
carne e pensamento desfeitos
(intento --- cheio de invenções,
tendências, e na praxis estranha
de processos, des-caído no
sanglot long des violons
de rua).


Poema didático em três níveis

''No verso me reúno. me instituo
em claras tramas ou difusas,
não importa, o que importa:
é o que divulgo, o que de vulgo
e único a mim mesmo restituo.

Primeiro vivo, experimento,
depois pelo poema, me concentro.
enquanto ajo no dia a dia,
ajo e recuo,
mas voltando ao poema aí eu me situo.

Primeiro a vida, o fuso, o gozo, o expor-se
o impor quase. Depois o  crivo, o cravo,
o amargo travo, do que era vida e agora
é árido, do que era alto
e agora é trato, do que era flor
ou edema
e agora é poema

Affonso Roma no de Santa

SARVA

A ação agora é útil.
O mar aberto de feriado
e mil piscinas complacentes,
o entardecer vai ganhando
um verniz de hora parada
quando de sol. Mantendo
o dia imutável
à custa de um história
ou pelo menos o dia inteiro
rompendo o nível de consciência
com o relógio fatídico
em andamento controlado.
O presente, na escuta
da ordem do dia
e da ilusão variável
que esmerilha o tempo corrido,
sem interrupção,
desvendando a treva barroca
desse Yo de emblemas.
Mitografar a paisagem
é um projeto árduo.
Radar tremendo nas veias
em busca do amor.
Vocação de flutuar no vazio
e camuflar os abismos da boca.
Recomeçar com as probabilidades
da idade ---- et tout le reste
este littérature,
exposição de ritmos desejantes,
sorvo ardente
e tranquila respiração
rondando a luz da escrita


Desta vez eu a vi ''em sua transparência''.

Desta vez eu a vi ''em sua transparência''. 

Como se nada existisse 
senão nessa limpidez da chance 
na suspensão de um gancho.
Nada senão aquilo que podia ter sido,
que teria dev-ido não ser 
que se consome e joga.


A transparência numa luz nova
só podendo existir a esse preço
o sol como um ser
uma mulher incomparavelmente bela
              algo incomparavelmente apreensível. 


A chance como uma flecha
que traz na ponta a febre matadeira
em nada distinta de si ----
um amor insensato a cria,
oferecendo-se afoito em silêncio.


Gota quebrada por um raio
curto instante de fulgor
mais brilhante que um sol
nessas incertas conjunções

quarta-feira, 1 de novembro de 2017

Interiores sucessivos.

Tempo mais durável
onde se recriar,
instalação ampliada
como se, de repente
raízes imensas se engendrassem,
com terra se misturassem
sem que se veja
de onde provém a seiva.
Imagens de outras imagens
descortinando interiores sucessivos
e sucessivos cenários montados
de outros que se montam e se descortinam.
Mais que se alicerces no chão se adentrassem,
é como se eu fosse máquina
prestes a partir de si mesma
por si mesma, pra si mesma
sugerindo alheias direções
e doces falas de afeto.
Máquina de egoísmo doce e lento
em seu trajeto destilando a água
dos espelhos ---- alijado do coreográfico
e de habilidades cansativas;
além da carícia, é a paisagem
que se insinua nas cinzas
das invasões e dos gestos.
A ausência do amor que se pressente.

TEMPO FECHADO

Quando eu faltar
tomo assento
assalto você
que não parecerá
comigo por fora
só no escuro de
dentro, do avesso.
Você não me verá
mais, mas vai me
perceber invasor
germinando no chão
do próprio corpo
incorporando-me
sem parar, sem saber
como deter essa
reação, a não ser
se sentir que sua
vida está atada
à minha, apenas
por uma parte.

Por um fio ainda
está seguro, corial.
Tudo à mão, mas
sempre por um fio:
o amor básico, ar
alimento, agasalho
que se tece deste fio
que vai se desfiando
por vontade mútua
de quem o teceu tão
seu, e por quem quis
o seu calor certo sem
erro, de inteiro acerto.
Ainda por um fio
não teme mais o frio
do lado de fora, a fome
nem o ar de todos em
nada complacente ---- vê
que a parte de cima se
fundiu com outra parte
nesta carta do pai.

Armando Freitas Filho

terça-feira, 31 de outubro de 2017

Numeral

Ginasticar-se
no centro da casa estéril.
Criar corpo fora da linha da família
ferir-se dentro das paredes da cabeça
onde o pensamento é peso, sangue parado.

Vazar, sair da fila
e entrar no perfil fugitivo e fluido
do desequilíbrio, do exercício contínuo
e fazer um puxado, a partir da planta
da árvore insuportável, com o vento ausente.

Armando Freitas Filho

Um pedaço de cabeça

Um pedaço de cabeça
emite ainda a linha de ação
do pensamento, 
e o circuito do dia
cada vez mais curto
e veloz --- ligado no
derramamento metafórico
entre quatro paredes,
procurando a fresta
que engole o ar em seco.
A passagem picotada
a se emendar do outro lado
dependente, na expectativa
e sujeita à deriva
no dia que ainda não acabou
(o dia indigesto que engendra
a tortuosa noite).
A dor da idéia fixa
interrompendo a linha do sono.
Primeiro, pontilhando-o 
de imagens, depois ----
drástico, em cheio
direto no cérebro comprimido
pelas paredes do quarto,
reverberação fosforescente

Página desdobrável.

O papel, o protótipo, o piloto
o gesto espalhado
que apanha o sentido do espaço
e faz vitoriosos riscos
no gráfico de sua marca.
Espalhafato e spams
desde dentro ---o vazio
assina o ar, o raio , as
luzes verdes usando
sua velocidade intrínseca.
Fixando-nos a dobra de sombra
vertebrada. Estala
e se acrescenta a dobradiça
da página desdobrável
por vossa mão.
Os tomos de vossos dedos
no artigo, antes do gozo
ou no meio, antes do fim
da fruição ---- ou ainda
outros prazeres viscerais
de leituras preparadas por dentro
que continuam engalfinhadas
como nos sebos .

Escritor escritório 3

O papel de carta com o nome impresso
e riscado em parte, como que causalmente
foi remetido seguindo à risca a regra rigorosa
da etiqueta elegante dos bem pensantes
se refletindo nos tiques do que vai escrito.

Armando Freitas Filho

segunda-feira, 30 de outubro de 2017

POESIA (INTER)CALADA

Midnight.
More than 125.000.000 beam candel power shines on the top of world´s tallest building
navios podem ser vistos quarenta milhas no mar,
mais de 2.000.000 kilowats horas 
72 elevadores operando, correndo 600 a 1.200 feet por minuto, 7 miles shaft,
fios telefonicos, janelas
degraus desde o solo
toneladas de aço suficiente para ligar Baltimore-New York
ida e volta,
um milhão de visitantes por semana,
uma das oito maravilhas do mundo
---- a única construída no século XX,
neve e chuva podem ser vistas caindo lá de cima,
a chuva, às vezes, é vermelha.

Do top, do topest, do topless
procuro meu tipo inesquecível,
o observatório está no 102
on fine days one can see the surrounding country for distances up to 50 miles,
mas como os dias de hoje são nebulosos
Wieklich, ich lebe in finsteren Zeiten
(e vivemos numa época escura)
a vista não vai muito longe.

Babel; Babel, Babel
Muitas línguas ouvi lá de cima.
Entendi-as todas, babel inversa,
- no bedrocks procurei o nome do arquiteto
 --- nao achei

Affonso Romano de Santana

Carpintaria de muitos planos.

Uma gota que seja de você
em cada poema, como
para fortalecer minha desordem
a fim de  reanimar nosso pacto
e apresentar a prova entrelaçada
que imprime força à letra.
Me mantenho escrevendo,
o gesto incisivo que imagino,
preciso mergulho de rapina
no gargalo veloz da página;
para pegar, pescar, a voz úmida
submergindo contínua
no escuro que não pode secar
(ponto além da escrita,
o andar por dentro de si).
Cenho composto por poemas
e vazio sem rasuras, o poema
pega no tranco, arranco,
atropelo riscando a pista
com manchas de pneu furado
na batida: letras na margem apontadas
contra a mata dos sentidos,
flashback, o mel e a penugem
das pernas , e mais o puro movimento
do verso na direção das entrelinhas
(margens de permeio).
A mesa máquina se completa.
Carpintaria de muitos planos,
errática, acrescentado-se
de novos talhes, 
apagando-se e recomeçando
no pensamento, que se reescreve
continuamente,
rascunho e resultado constante.




Outra receita

Da linguagem, o que flutua
ao contrário do feijão à João
é o que se quer aqui, escrevível:
o conserto das palavras, não só
o resultado final da oficina
mas o ruído discreto e breve
o rumor de roscas, a relojoaria
do dia e do sentido se fazendo
sem hora para acabar, interminável
sem acalmar a mesa, sem o clic
final, onde se admite tudo ----
o eco, o feno, a palha, o leve ----
até para efeito de contraste
para fazer do peso --- pesadelo.
E em vez de pedra quebra-dente
para manter a atenção de quem lê
como isca, como risco, a ameaça
do que está no ar, iminente.

Armando Freitas Filho

Escritor, escritório 2

A folha pousada foi o primeiro suporte
de onde se ergueu a planta no papel
carbono do pensamento, e depois na cartolina
na alvenaria que se segurou nas três linhas
que vieram sugeridas do mais íntimo grafite
---- velozes ----- à faísca que urdiu o diamente
antes de ficar na mão fria da máquina
sem saber como sair do aperto da lapidação.

Armando Freitas Filho

Escritor, escritório

Se há ruído, quando à mão
se escreve, não é o do arranhar
mas o do rastejo, do cicio de insetos
antikafkianos, porque reconhecíveis:
o do cupim cotidiano, no traçado
das traças, só percebido nos seus ofícios
aos que apuram a escuta, e pinçam
sem a mistura da mão e da máquina
a passagem do tempo, o escoar da areia ----
grão grânulo gris ---- na ampulheta

Armando Freitas Filho

Jactancia de quietude

Escrituras de luz embisten la sombra, más prodigiosas que meteoros. 

La alta ciudad inconocible arrecia sobre el campo. 

Seguro de mi vida y de mi muerte, miro los ambiciosos y quisiera entenderlos. 

Su día es ávido como el lazo en el aire. 

Su noche es tregua de la ira en el hierro, pronto en acometer. 

Hablan de humanidad. 

Mi humanidad está en sentir que somos voces de una misma penuria. 

Hablan de patria. 

Mi patria es un latido de guitarra, unos retratos y una vieja espada, la oración evidente del sauzal en los atardeceres. El tiempo está viviéndome. 

Más silencioso que mi sombra, cruzo el tropel de su levantada codicia. 

Ellos son imprescindibles, únicos, merecedores del mañana. 

Mi nombre es alguien y cualquiera. 

Paso con lentitud, como quien viene de tan lejos que no espera llegar.


Borges

domingo, 29 de outubro de 2017

Adaime e osso

Deixarão que eu fale
porque sou poeta. E te direi
estrela inédita
na vastíssima escuridão
que me contorna, surgiste
tão igual à tua própria boca,
nunca meus olhos viram
teu corpo e tua carne tão moça.
Deixa meu ´peito ondular-se
nas tuas pernas de repente
permitidas. E prometo,
prometo mares e mundos
e te imagino subindo
as escadarias do prédio
mãos enlaçadas
palavra louca no ouvido
Não ouças ! ,
mas deixa as palavras
se transformarem
em coisas investidas de cor
espaçadas e comovidas
que nos abraçam e morrem conosco.
A forma das palavras é dúbia,
varia com a veleidade,
mas seus contornos se encaixam
como paisagem nos olhos.
O poema é andaime e osso.





Eis que dançam grinaldas

Eis que dançam grinaldas
e cada uma joga em mim o que mais amo:
a perna rósea, as ancas côncheas
e os ademanes verdes e rubros
dos olhos ágeis ----- isto já me sucedeu:
a tartaruga em sua casca,
em suas leis e jornadas
medita dia e noite.
Ouço os zumbidos dos besouros
e abelhas sobre o mel .
Ali abano minhas guelras
e borbulho meus acordes
de música submarina.
Mais uma hélice na engrenagem,
Como ? no martelar submarino
as anêmonas pingam cúmulos
e gomos brancos de amnésia
onde as conjunções do tempo
reflorem , o inabordável frutifica,
o tempo criva os frutos
quando se sazonam as messes
K.M.

sábado, 28 de outubro de 2017

Jogo.

Relógio, breviário, jogo.
O fato, a cor, o trato
e esses quadros no meu sangue
a pulsar molduras em mim.
Aqui dentro o tempo
nunca finda. Precipita-se
nos fusos da emoção
de cem portas,
apenas portas eu sou
de ir e vir,
entre as ervas do campo
o limite é feito de cal
e a bola rola, falando
de vontades grandes e 
disformes, 
e de estranhos caminhos
para o mundo dos homens
e suas agonias.
O ´poema destila em mim
o desejo, o gesto que liberta
e a lua nova, o que está perto,
traduzindo a efêmera vontade
da fala. Grande.
O poema infinito
e a eternidade para a rosa.

sexta-feira, 27 de outubro de 2017

FORMAS

Existem peixes à tona
no pensamento
começando em ti
tomando formas
e sumindo na retina.
Cada encontro desfeito destes
iniciados nunca
mas guardados em retalhos
no fundo dissolvente da canção;
além da espera,
as vontades primeiras
intercalando sombras
e formas serenas,
relatando o que é,
querendo abranger e
integrar, sentir e acumular,
fluir na tua lembrança
escolhendo o que deve ficar
além da máquina
(possa eu também me situar
nos meus nervos e tecidos
e respirar agudamente
a história escolhida).

Capítulos diários do painel.

Manhã transformada em folha e fruto,
que fala de pensamentos intocáveis
e estoura no cruzamento de signos
deste amor de pensá-la sem revê-la,
sucumbido pelo sonho; quero antes
a certeza da fera que dispara
e banqueteia. A certeza firme
que rezam as árvores morro acima.
O desabalo da manada de máquinas
e as cifras do mau poeta
O poeta industrial
que liga e desliga conceitos
nos capítulos diários do painel
(sobre o palco, a certeza é
desumana, couraça,
longe das crenças do trono,
a certeza causa dano, mas
é aspiração confessa
pelo momento de agir
(este arremesso do disco
que dispara os músculos
e descreve as curvas
do infográfico geral).
No momento da ação pousar
quando cansado e dúbio ----
tomá-lo ofegante e rubro
e nele reviver as apostas,
absorvendo cada ausência
em que as formas nos confinaram

Atalho e apelo.

E o nosso amor discreto,
amante-amiga
no leito que vazio se contempla,
que não se farta de referir-se,
todo feito de distâncias necessárias
e brumas fronteiriças
que atraem a sucessão do olhar,
que levam e trazem palavras
que persistem, que aproximam
do todo de silêncio e segundos,
do enigma do poema que vem,
preciso, atalho e apelo
à escuta consagrada,
rondando os caminhos do sono
e envolvendo-se igual à rede
no mistério da vida.