Retalhos de várias vozes
e fluxos de consciência
na solidão do monólogo
(a posse do discurso),
quando o corpo responde sedento,
são e hercúleo nos campos preparados;
olímpico inventor de sucessões
inesperadas, psicologicamente palpitantes,
pelos músculos rijos sob o sol
e o estado de atenção ampliada.
Alavanca da página
que vaza o verde e o azul
nos reflexos de vidro
(detonação de músculos e neurônios).
O zumbir do vento no gramado
e outros presságios do ouvido.
O disco girador das esferas de influência
(sarrafos, lirismo descuidado),
conversas e histórias na
fusão invisível dos eixos da narrativa.
Vejo o esboço na espiral
que vende e acelera o assunto.
Sem interrupção.
Tempo a fecundar.
Abrandando-me, em contemplação
meus olhos se guardavam,
calmos e atados no caule.
Havia ainda a concha na solidão
e o estado normal das coisas.
O fincar-se como mastro,
o dar a volta na chave
e fazer cifras com analogias.
Sem interrupção. Pélagos e
escarpas esculpindo a subida
lisa e verde como um fruto inteiro.
Aqui os raios abriam o riso
que não se penetra;
eriçava as crinas e esperava
a lunação nos pastos,
perseguindo cada clarão de luz,
quantas vezes perdido por cabeleiras
e bosques ---- cavernas e visões,
e ondas de carne navegando lemes
e expondo parte de seus jogos.
O trote das passadas adentro
com um badalo glandular de aviso.
Carpintaria de muitos planos.
Uma gota que seja de você
em cada poema, como
para fortalecer minha desordem
a fim de reanimar nosso pacto
e apresentar a prova entrelaçada
que imprime força à letra.
Me mantenho escrevendo,
o gesto incisivo que imagino,
preciso mergulho de rapina
no gargalo veloz da página;
para pegar, pescar, a voz úmida
submergindo contínua
no escuro que não pode secar
(ponto além da escrita,
o andar por dentro de si).
Cenho composto por poemas
e vazio sem rasuras, o poema
pega no tranco, arranco,
atropelo riscando a pista
com manchas de pneu furado
na batida: letras na margem apontadas
contra a mata dos sentidos,
flashback, o mel e a penugem
das pernas , e mais o puro movimento
do verso na direção das entrelinhas
(margens de permeio).
A mesa máquina se completa.
Carpintaria de muitos planos,
errática, acrescentado-se
de novos talhes,
apagando-se e recomeçando
no pensamento, que se reescreve
continuamente,
rascunho e resultado constante.
Adaime e osso
Deixarão que eu fale
porque sou poeta. E te direi
estrela inédita
na vastíssima escuridão
que me contorna, surgiste
tão igual à tua própria boca,
nunca meus olhos viram
teu corpo e tua carne tão moça.
Deixa meu ´peito ondular-se
nas tuas pernas de repente
permitidas. E prometo,
prometo mares e mundos
e te imagino subindo
as escadarias do prédio,
mãos enlaçadas,
palavra louca no ouvido,
não ouças ! ,
mas deixa as palavras
se transformarem
em coisas investidas de cor,
espaçadas e comovidas,
que nos abraçam e morrem conosco.
A forma das palavras é dúbia,
varia com a veleidade,
mas seus contornos se encaixam
como paisagem nos olhos.
O poema é andaime e osso.
Eis que dançam grinaldas
Eis que dançam grinaldas
e cada uma joga em mim o que mais amo:
a perna rósea, as ancas côncheas
e os ademanes verdes e rubros
dos olhos ágeis ----- isto já me sucedeu:
a tartaruga em sua casca,
em suas leis e jornadas
medita dia e noite.
Ouço os zumbidos dos besouros
e abelhas sobre o mel .
Ali abano minhas guelras
e borbulho meus acordes
de música submarina.
Mais uma hélice na engrenagem.
Como ?, no martelar submarino
as anêmonas pingam cúmulos
e gomos brancos de amnésia
onde as conjunções do tempo
reflorem , o inabordável frutifica,
o tempo criva os frutos
quando se sazonam as messes.
FILÃO
A cena se adensa
(mar incessante
com anseio de transbordar).
O mistério que nos ar-re-banha,
sonho concreto, passo e
vôo; mil platôs
e mania de topo
de peles recobertas
de dilemas
no verniz indiferente lá fora.
Fileiras, preciosa vista,
e filão de faiscar olhares.
Esteira rolante de calmas
e fé no tempo da visão
(aprimoramento),
ondas do mar
e torrente da montanha,
com olhares de lá
e ilusão do momento.
O que delimita o panorama ?
Sanha. Senha.
Sob a neblina
sopro a fumaça,
rompo a cortina,
des-dissimulo.
Ó extravagâncias da Natureza!
Reparo. Firmo confiante.
O agito do mar
e a montanha antena,
sentinela e alternância
de ritmos ---- improviso dos ventos,
plagas, tumultos,
bulícios.
Maneiras de ver
Falante engraçado
para ouvir, depois rir.
O biscate é vender
delírios, colírios.
Maneiras de ver
e audição dinâmica,
eu disse, ah,
o destaque geral
(real e imaginado)
gesto pensado
por uma mente comum,
tangível,
de maneiras de ver
os sinuosos enredos
que palpitam
e as percepções fabricadas
o vazio exigindo
toda a razão;
perspectivas de
sobrancelha cerrada
à luz de um hipnotismo absurdo,
embolamento de sorrisos
e idéias em cadeia ----
por dentro tudo revolvido
com a limitada visão do espelho
a me mostrar sinais, a
respiração, só
e esta pálida vontade de.
(simultâneo, a necesidade de.
talvez haja o imperativo
de um objeto,
irresistivelmente ----
um poema antigo e enorme
cheio de labirintos
onde o poeta mira a musa,
penetra seus encantos;
o poeta recria a musa
silenciosamente:
ama, desperta, agradece,
agrada e esquece.
A metamorfose da musa.
Habitat
Habita, familiar, a faixa do relâmpago, as ruínas do maremoto, a chama dançante, o reino das ondas giróvagas, o balanço dos navios correlativos, a fantasmagoria de Veneza que dorme esquecida em si própria, auto-espectra, a subversão da luz.
Si sventola enormes giornales.
Scrittori, è vietato pensare alla bottéga in ufficio, il concetto de bottéga nuoce alle istituzioni; ai piani dello Stato; allo sviluppo dell´industria; alla stabilitá del tecnocrate. In pandemonium forse andrá meglio: ------ Il viaggiatore non ancora stanco di aver girato il mondo con le sue varianti fantasticando sulle galassie (.) ieri furibondo la martelai (il faro è il galeotto dei nostri torbidi amori elettrico coronato di pietra. Mi appare di scorcio; mi attaca alla gola - poi si sventola enormes giornales.
Epifenômenos da mente.
Por decreto da sorte
o conhecimento cósmico em expansão,
um só princípio ordenador,
um só Purusha ,
movendo-se ótico e sanguineo
AO CORAÇÃO
(ei-lo já delirante, a ebúrnea aljava:
livros, sacrifícios, padrões).
O medonho lugar sagrado
iluminando a corola de tua boca
enquanto tuas pupilas devoram o mundo.
O seu , e o nosso bem se esconde;
na terra oculto jaz outro tesouro
além do conhecimento
(daquela tenra vida o fio de ouro),
conexões secretas nutridas, a melhor
metafísica aplicada
que vaza como água invisível
no pensamento, na sede de
dados economicos e ações;
porque o século vai começar
saudando o PIB e o Graal
ao mesmo tempo, entre o Alfa e Ômega.
Nunca dizendo a impronunciável
verdade absoluta: Brahman. A
imitação do Agnihorta
na sorte e na prole.
Quatro cores básicas
e essa infinita reverberação
de dígitos capitalizados.
Ares imperiais
em cada história local
(seus conteúdos e jornais),
toda manhã e toda noite.
Mente . Palavras e Manas.
Graha captura,
apreende, influencia,
e de líquido alcançado,
libação divina ----
corações atraídos
em cujos olhos, que
encantavam, se revia a Natureza.
Olhos e despojos.
Opacas névoas eclipsadas.
Mas também olhos milagrosos,
epifenômenos da mente.
Gnose
Há neste espaço, mas coincidindo com a consciência do herói, ou com o acontecimento central dessa consciência (a Luz), uma espécie de intermitência, uma zona da qual somos mantidos afastados, para que, por essa lacuna no seu interior, seja feita a Luz e assim ele exerça a pura potência de ver. Mas esse tempo improvável, não captado, roubado ao encadeamento regrado do dia comum, não é só a profundidade da duração que Bergson exprimiu. O que acontece aqui é que o personagem central ---- esse homem que comercializa gratuitamente a própria vidência --, entrando em diferentes estados de consciência intensificada ao longo do dia, parece entrar sempre na mesma Luz, transportando-a apenas a pontos um pouco diferentes e, cartografando o abismo das visões, as lembranças de acontecimentos futuros, a imagem do imaginário divino, está sempre prestes a se afirmar numa quase exterioridade alarmante.
Nenhum comentário:
Postar um comentário