terça-feira, 13 de março de 2018

PONTEANDO

Eu avançava pela diagonal Norte rumo ao obelisco ; nada me diferenciava dos transeuntes fatigados do meio-dia durante as duas quadras que andei, olhando, ao passar, meu rosto suado nos vidros lustrosos das lojas, levando de um para outro a lembrança fugaz e imprecisa da nova expressão juvenil que ia transportando com minha cabeça um ar de segurança e desafio. Prudente, carregando o mínimo possível comigo, com receio de espantar as palavras recém-nascidas, flutuando fantasmagórico em busca do poema, levantava a cabeça um pouco para conhecer-me e estudar-me.

(sapatilhas de dança ponteando pela rua)

o próximo movimento, em tempo de larghetto,

deixava-me levar, sem nada além da idéia fixa da eternidade e seu brilho solitário em minha cabeça ---- havia algo nela que inspirava assombro e emoções infaliveis

e assentindo com a cabeça, separando os lábios até não poder duvidar de que sorria

benevolente, impessoal, formado para expandir a tolerância e incentivar a meditação

a indefinível coisa estendendo-se e adquirindo intensidade nos rostos

as palavras atravessando o sorriso extático sem alterá-lo, mais ou menos como nas representações do Buddha

certo de ter repetido o velho gesto de compreensão mahayana, repetindo mentalmente frases que escorriam e modificavam a paisagem até virarem mantras

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