terça-feira, 13 de março de 2018

Provocatio. Spermatis.

Possuídos por essa curiosidade que, nos sonhos, mostra-se mais forte do que os temores nascidos de qualquer peripécia e nos arrasta até os finais ambíguos ou positivos.

Aqui, ria com pontualidade, sem malícia, mostrando-me jovem. Anulava todos os rudimentos de protestos com um olhar humilde, mas poderoso. O que pensava e dizia estava planejado para o nosso bem ---- alguns fazendo o gênero taciturno, importante. Idéias no ar.

Vejo-me então, como nunca, um indivíduo prosaico, sem raízes ou compromissos, como um imigrante. Até a premência, que suprimo, de pensar demasiado, de corrigir isso ou aquilo. Conduzo muitas vezes meu sorriso até ela em completo silencio, e isso basta para enumerarmos humildemente as alegrias da vida.

o vento vinha libertar-nos de nossas obsessões.

ruptura do tempo. Memória involuntária.

a cidade como um braço, a cidade provinciana e seu rio.

o primeiro frescor da noite,

o ar que se quebrava vibrando  na janela,

batendo nos rostos.

Ela esperando e sorrindo,

aumentado gradualmente

a felicidade do corpo.

as luzes da rua entrando,

acendendo e apagando nossos olhos

tão pensativamente

que temia que a felicidade terminasse

e me virava:

''quero olha-la duas vezes'',

no encosto da poltrona.

 Querido , ela diz

sorrindo para o ar que toca os dentes.

Não quero pensar, não quero saber o que fez minha felicidade nem o que pode destruí-la.

Se eu pudesse dizer.

Esperava, exortativo, sorrindo ainda, revestido por uma paciência diferente. Matizes, sub-grupos, causas de confusão. E isso acontecia sempre, com pequenas variantes que não contam, como a imposição de temas frívolos às conversas do meio da tarde, hora em que o mundo mais falava. E não eram só os dados econômicos e notícias , mas a comovente verbosidade do cidadão comum. Eu descobrira uma estranha felicidade em me demorar na modorra vazia da biblioteca pública, em fazer-me acreditar na visita borgiana do gênio, tempo para ficar lendo e bocejando, todo tempo de uma vida. E um momento antes de minhas locuções eu podia voltar a pensar nos livros, a mesma serena malícia vibrando na voz, chispando nos olhos sem se fazer notar. Mas acabava me endireitando, reconhecendo dívidas, imaginando que ao coloca-las em pauta encurtaria minha própria espera ali.

 Nos ligávamos pontualmente por diálogos e números, e as probabilidades de novas campanhas, publicidade, na perfeição de cada desenho final , dos textos e slogans que deviam impô-la na tela. Imaginavam-se cenários , jantares de negócios, discursos percorrendo avenidas ou nas praças, entre os pombos, a amizade e a proximidade oferecidos ocasionalmente.

Soube então que aquilo não era o resto, mas tudo, o que só se dava por um acréscimo cotidiano daquela substância, consagrando-a.

É il raconto incalzante di varie apertura sulla realtá.

L´abbandonarsi semantico del personaggio alla propria situazione.

(cadde! ) (cerebrum)

Fortuido, caloris e il quarantesimo giorno.

Provocatio. Spermatis.

Avevate.

De todos aqueles apartamentos saíam vozes aflitas, em meio a um colorido fantasmagórico. Vozes, ruídos roucos, orgiásticos, risadas insanas, e haviam uma série de tragédias e investigações em curso nos jornais, e heranças avivando atitudes suspeitas, lutas empresarias ferozes pelo mercado, e miudezas do ridículo cotidiano, os bichos em seus ninhos se preparando para a noite.

Una poesia é vitale quando se spinge altre i propri inevitabili limiti, quando cioe le cose che hanno ispirato de sue parole ci inducuono il senso de altre cose e di altre parole, provocando  il nostro intervento.


A vontade e o pouco dinheiro, o jogo semanal e as outras distrações do corpo me tornavam furtivo no meio em que circulava.
*

"El mar, sin embargo, provoca el deseo de adquirir dinero, abre las puertas al por mayor y al por menor, y en las almas crea unos volátiles y deshonestos hábitos, la ciudad parece poco fiable y hostil a sí mismo, y también a otras personas

K.M.

PONTEANDO

Eu avançava pela diagonal Norte rumo ao obelisco ; nada me diferenciava dos transeuntes fatigados do meio-dia durante as duas quadras que andei, olhando, ao passar, meu rosto suado nos vidros lustrosos das lojas, levando de um para outro a lembrança fugaz e imprecisa da nova expressão juvenil que ia transportando com minha cabeça um ar de segurança e desafio. Prudente, carregando o mínimo possível comigo, com receio de espantar as palavras recém-nascidas, flutuando fantasmagórico em busca do poema, levantava a cabeça um pouco para conhecer-me e estudar-me.

(sapatilhas de dança ponteando pela rua)

o próximo movimento, em tempo de larghetto,

deixava-me levar, sem nada além da idéia fixa da eternidade e seu brilho solitário em minha cabeça ---- havia algo nela que inspirava assombro e emoções infaliveis

e assentindo com a cabeça, separando os lábios até não poder duvidar de que sorria

benevolente, impessoal, formado para expandir a tolerância e incentivar a meditação

a indefinível coisa estendendo-se e adquirindo intensidade nos rostos

as palavras atravessando o sorriso extático sem alterá-lo, mais ou menos como nas representações do Buddha

certo de ter repetido o velho gesto de compreensão mahayana, repetindo mentalmente frases que escorriam e modificavam a paisagem até virarem mantras

segunda-feira, 12 de março de 2018

ESPÍRITOS


Aquele do qual se exigem
Apresentação e aprumo,
Inumeráveis textos e civilização,
Tem apenas sete notas cabais.
Seus olhos, flama celeste,
Terníssimo desejo de manifestação,
Mesmo amando não emigram.
Antes, se fixam
Deleitosos e frouxos
Por um instante
Alentando o coração,
Revertendo o continente do prana
Num tipo de conteúdo corporal
(mas sair desse aparente letargo
Complica a poesia).
A morte não se rende à formosura
E a desesperação nunca acerta
Na tradução, na lei da sorte,
No contrato da vida ---- ATMAN
(necessidade de abono).
Isto posto, somos capazes de esperar.
Reinando com o coração,
Como o próprio personagem,
Livre, seguro, com a fortuna ao lado.
O mágico volver dos olhos
A caricatura e o nome.
O círculo do sacrifício
E sempre um livro na mão
E uma impenetrável liturgia
(os olhos se derretem
À caminho do mar, os penedos ,
Os mármores mais duros da alma
vão nos livros mais complicados.
Os livros da maçonaria (33) e
Refestelam-se de números e jornais.
O filho da terra alucinada,
Do Espiador, do solícito desejo
Da política do maçom (procurando mágica
Nos próprios papéis, na longa trança
De idéias, na face transparente
No espelho da palavra perdida,
nas patéticas vozes truncadas).
Mas esperando a paz
nas brechas das lembranças
por onde o olho único transita.
‘’Todo o bem, todo o gosto,
Cá nesta solidão mortal
E clarividente, quando não lhe disserem
Esgotada na banca de negócios.
Condicionado na região deserta,
Este trecho de metafísica
É onde as coisas essenciais são servidas.
Céus. Estrelas. Poderes.
Pasmo e maravilha, o misterioso
Albanil escuta: é ilusão do pensamento (?) ,
Ou pensamento semiótico (?) ,
É aí, como num pórtico
No RIO AYURUOCA,
Ao som monótono]
Do Om Mani Padme Hum,
No RIBEIRÃO DOS ESPÍRITOS,
Ao som desse mistério
Tecido pelo gado. A Natureza
Fluindo pelos poros e,
na alma, um filtro apaziguante
da atividade pineal.
Nada a perturbar, apenas
(ao ar livre)]
A paisagem tomando o lugar
Do eu e seus invólucros.
Começa-se a conversar com os mortos.
Uma musica estranha,
Infinita, apesar de dissonante,
Alerta brotando da terra.
E o frio pelo cabelo dos montes
E um elo entre os dois olhos
marcando o infinito vivo do espaço ;
toda a floração  do evento
apenas pelo prazer de VER,
entreabrindo
(insólito céu)
Os olhos, ainda empe nhado,
Laborando na minúscula figura fantasma
Das pupilas. Mas sem seguir até o fim
O ritual. Depois, o sossego absoluto,
Tão traiçoeiro quanto a liberdade
(precisão e invocação, súplica);
Dono de uma certa sabedoria
Que teoriza, ladrilha a linguagem
Olhando a lombada do vazio
Evaporar-se.
Aplicação de pronto.
Reconhece-se o sonho
E seu sacerdote.

K.M.


domingo, 11 de março de 2018

SATORI

Chuta que des-atrofia.
Chuto o medo,
o que pode acontecer.
Chuta para conhecer os segundos
voando na velocidade da luz ;
ou chuta para tumultuar, assim
só por chutar. Chuta pra diante,
se lança, chuta o limite,
quase alcança, enviesado.
Chuta dentro da cabeça, nada mais.
Acompanha a bola de cabeça erguida
só para ver onde é a zona
de maior caos .
Ou chuta com esperança
ou para recordá-la, chuta o tempo
dentro do espaço ---- na área concreta do campo.
Chuta a lua ---- no ângulo , golaço.
Chuta só em pensamento.
Ou chuta mantricamente
até o mesmo chute
entrar em várias esferas.
Um chute de espera silenciosa
com o coração no olho. Satori *.

K.M.

''Satori'' significa ''chute no olho'' e ''despertar súbito da consciência''

Epifenômenos da mente.


por decreto da sorte
o conhecimneto cósmico em expanção,
um só princípiop ordenador,
um só Purusha , 
movendo-se ótico e sanguineo
AO CORAÇÃO
(ei-lo já delirante, a ebúrnea aljava:
livros, sacrifícios, padrões).
O medonho lugar sagrado
iluminando a corola de tua boca
enquanto tuas pupilas devoram o mundo.
O seu , e o nosso bem se esconde;
na terra oculto jaz outro tesouro
além do conhecimento
(daquela tenra vida o fio de ouro)
conexões secretas nutridas, a melhor
metafísica aplicada
que vaza como água invisível
no pensamento, na sede de
dados economicos e ações;
porque o século vai começar 
saudando o PIB e o GRaal
ao mesmo tempo, entre o Alfa e Ômega;
Nunca dizendo a impronunciável
verdade absoluta: Brahman. A
imitação do Agnihorta
na sorte e na prole.
Quatro cores básicas
e essa infinita reverberação
de dígitos capitalizados.
Ares imperiais
em cada história local
(seus conteúdos e jornais),
toda manhã e toda noite.
Mente . Palavras e Manas.
Graha captura,
apreende, influencia,
e de líquido alcançado,
libação divina ----
corações atraídos
em cujos olhos, que 
encantavam, se revia a Natureza.
Olhos e despojos.
Opacas névoas eclipsadas.
Mas também olhos milagrosos,
epifenômenos da mente.

K.M.

META-BOLISMO DA BOLA

A bola sela aliança
mas é fantasista
(não se abusa da bola) ,
a bola também tem juízo,
é sensível, afeto
e paixão da bola.
O segredo da bola
é singular e plural,
por isso a bola causa;
a bola apre(e)nde,
joga e deixa jogar, 
fato e fenômeno;
a bola é arte-fato
e fator ---- 
devagar com a bola
senão ela te enrola,
extrapola, etc
A bola é tudo
menos tola, a bola burila,
dá show de... a bola finge
que cola no pé,
que imita a lua
no pé do craque,
a bola cheia flui,
flutua, mas não brilha igual
para todos : a bola escolhe,
prenhe de emoção, desdenha e
acolhe, não adula,
deita, rola, não dá bola.
A bola tem bala na agulha
(a política da bola),
a bola sente o dinheiro da bola .
Se você não sabe
a bola até explica:
nem ócio, nem negócio
(a bola assola
de tantas boladas) ;
ganha, empata, apanha,
sente-pensa-age e,
quando não é o caso,
foge. A bola tem humores
(a bola de cristal
e a alma complicada da bola).
A bola fica diabólica
quando os deuses se distraem,
quando irada com o juiz
a bola cospe fogo no jogo ----
a bola absolutamente visada
e técnica, tática, estratégica bola,
resistente a esquemas,
a bola labuta pacientemente
e passeia sua auto-estima;
nos pés do craque a bola
dá asas à imaginação coletiva,
inventa tabelas, pérolas
que passam de pé em pé, 
enquanto a posse de bola
ilude a fome de bola,
a bola bate papo
e lê o futuro do lance.
A bola é clarividente
e extraterrena, 
ela abduz o jogo,
volúvel e polivalente,
a bola apronta
quando não se sabe o que fazer.
Pensa em jogar para a frente,
visão de jogo e
ânsia de gol, a bola emula
e organiza ---- prende muito ela
que ela se solta, entra ou sai,
''intro-metida'' em profundidade,
a bola tenteia, calcula rápido,
toma tento e marca
(a bola de boa pontaria)
em câmera lenta;
depois, sorrindo, desponta,
a bola de risco, acelerada,
bola de contra-ataque,
bola de sonho e pesadelo
(meta-bolismo da bola);
a boa bola circula e
descreve, embola a filosofia
de jogo, ela se desloca 
e topa quase tudo, mas diz
''Tudo tem limite''.
O labor da bola,
suas irradiações caóticas.




K.M.