sexta-feira, 26 de julho de 2019

ALTERNATIVE TAKE (em construção)

PETRARCAMENTOS ESPECTRIAS

Prefácio


A Poíesis possui uma natureza essencialmente colaborativa, sobretudo naqueles aspectos que comprovam a dialética entre as forças políticas e econômicas de nosso presente. Daí que até etimologicamente esse termo grego signifique ''produção'' ou ''fabrico'' . Mas na verdade, o que pretendo apontar são as presenças eleitas que tantos criadores constroem em si próprios ou no interior de suas obras, os companheiros de viagem, professores, críticos , parceiros dialéticos e autoridades , e todas aquelas outras vozes que murmuram sob as suas, e que são capazes de conferir até ao mais complexamente solitário e inovador dos atos criativos a experiência de uma trama compartilhada e coletiva.


Por isso escritura não é só expressão ---- é uma linguagem enviesada que , pretextando falar do mundo, remete sempre a si mesma como referente e como forma particular de refratar o mundo. A escritura questiona o mundo sem se preocupar em oferecer repostas, e por isso mesmo oferecendo-as intuitivamente ; os acordes psíquicos que a escritura toca liberam a significação , como um choque de espreita, mas não fixam nenhum sentido. Nestas circunstâncias, o sujeito que fala não é pré-existente ou pré-pensante, não está centrado num lugar seguro de enunciação, como o escriba anestesiado pela Doxa, mas produz-se, no próprio texto , em instâncias sempre provisórias, como uma substância desconhecida e extremamente volátil cujo manejo requer uma incrível intensidade de concentração.


A própria escritura como inimiga N 1 da Doxa, ou Opinião Dominante (conceito de Barthes colhido em Brecht ) ; seu campo só pode ser o do paradoxo, naturalmente ; e como a Doxa está sempre recuperando as posições paradoxais , é necessário seguir se deslocando como Jack London ou Rimbaud, levando o discurso a exercer sua função crítica e utópica. Nenhuma repetição de receitas para recolocar a Roda do Dharma em movimento : o próprio impulso de nossa consciência, aproveitado iniciáticamente, nos leva ao ABERTO DO MUNDO onde o único valor estável parece ser mesmo essa linguagem indireta, telepática, auto-referencial e auto-suficiente que caracteriza o texto poético moderno.


Minha escrita é o termo de uma metamorfose cega e obstinada, partindo de uma infra-linguagem que se elabora no limite da carne e do mundo, à medida que é expandida pela aquisição progressiva do nirvana. É o nirvana, ou o plasma, esse fogo consciencial que substitui, na consciência do escritor iniciado, as idéias e os pensamentos por idéias-palavras, pensamentos-palavras, formas-pensamento, palavras-valise e objetos parciais despedaçados dentro da mente, onde a forma não mais exprime , mas ''faz '' o conteúdo.


 E essa escritura não se presta à análise tópica, como desejariam as velhas sentinelas críticas da Doxa. Podemos mostrar as técnicas que fazem um bom estilista, mas não podemos isolar aquilo que transforma um bom estilo numa autêntica escritura poética moderna. Falo aqui da capacidade de infiltrar-se e apropriar-se de qualquer discurso camaleônicamente, como um vírus editorial. Não existem aspectos secundários no método operativo do plasma, ele é uma substância viva atuando no texto. Por isso a escritura é essa ''rajada forte de enunciação ''. Um texto é realmente escritural quando nele ouvimos a voz única de um corpo, e a recebemos como um gozo : e o gozo não é analisável, nem recuperável por qualquer tipo de meta-linguagem .Ele é sentido como intensidade psíquica, como perda do sujeito pensante e ganho de uma nova percepção das coisas.


Do autor


Epígrafe


I -NÃO TEMAS

Certamente: os livros que escrevo

e os que leio, com o elàn das
marcas de leitura diversas,
urgentes, rabiscadas e tremidas
por gestos da mão que falam forte,
fabricando um uso exclusivo e incômodo
que parece se aproximar da poupa rápida
que reduz o espaço do quarto antes da 
identificação e do espasmo no escuro.
À caminho da minha boca, sob a
treva do olho, o cérebro entra no
portal memorioso do Além, aquele nó 
que se desfaz ante o achado,
incessante e sarcástico

Do autor

II - Parlo per circoscrivermi...

Quale lingua parlaremo nell eternitá?

Sull´argomento ocorre consultare Roma.
Spero che nell eternitá
l ´ínglese sia abolito:
sognamo il ritorno della monarchia brasiliana.
Nel centro dell´iconostasi
c´e una foto de Antonin Artaud.
Eppur ci muove sempre
un desidério di felicitá.
Cambiare il vuoto in consistenza?
Non sono mai riusciti a soddisfarci.
Ora parlo per circoscrivermi 
senza il conforto di un remo,
ma in sortilegi, guardando
la sua testa gli occhi ferrigni:
un ´esperanza che vorrá
inventare cosa nuove, un stock
inesauribili di radar-televisori.
Imboscate portando la veste nuziale.
Uno petroliere de 500.000 tonelate
paralizza tute, senza pensieri di trapianto,
solo per te sentire pulsar alla testa). 
Volevo anche offrirle una festa,
guardandomi con ochi di marziani,
durante il silenzio quadrato della notte.


DIFÍCIL GADO SUADO


''Till that Divine

Idea, take a shrine
Of Crystal flesh, through wich to shine''

Richard Crashaw, WISHES


Mateiro a reger o próprio rosto

com botas e esporas dispersas
no canto oculto, e nos comprovantes
de sua louca essência rupestre.
Um calor de ancas e sovacos
abrasados pela urgência das formigas
cumula o curral de palavras-chicote,
cumprindo as ordens do pasto.
Cheirando à ilusão, o couro dos bichos
bate na própria recusa. Rebate
o fim do boi com o bife
que desponta, enlaçável,
na boca do deus-dinheiro. É justo...
não querer perder a cria
desfalcando o debate com
seu difícil gado suado, ou teu
AMOR DE DONO ABSOLUTO.
Mais macho que os outros,
o leite represado bate 
no chicote das palavras
como se fossem suas filhas, este
CAVALO... goza a turbação geral
na sombra dos próprios cascos,
delimitando seu sono privativo
com um esguincho nos dentes. 
No Inconsciente Coletivo
do gado é que dormimos
e nele é que acordamos,
apontando o rumo na poeira
que o carreto reconquista.

PEDIDO (aceito)


Brutalmente sincero hoje:

com uma fobia de permanência
admitida em público
na egoteca profissional;
talvez segurando o riso
e as manias, ao consultá-los...
pois vossa inocência me co-move
quando intento dialogar com vós.
Livresco até a medula, agrego
desenhos fraternos à minha fala,
mas tão ressentidos, que só posso
explicá-los com breves doses
de ÓDIO, delatadas em cada presságio.
Ódio que flameja como uma pátria
nos músculos, ocultando o fervor dos dentes.
No entanto, é totalmente em vão
que me satanizam ''trozo a trozo'',
pois se me olham, em vossos olhos
advinho pedidos de ódio solidário
e propostas inseguras de vigilância.
Vontade não me falta (retruco)
de meter-vos ''en el bidon escatológico'',
fodidos ou triunfantes, com o rosto
carregado das próprias sombras. MAS...
espero um minuto, acalmando-vos
com uma pródiga cascata de sinais
nas franjas calcinadas da ladeira.
Cara a cara, lacônica é vossa coragem;
breves vossas decisões; e pobre de proteínas
os discursos que aguardamos juntos.
Falaremos às vezes de bois perdidos,
calando os que encontrarmos no caminho
com nossos fantasmas transitivos
infiltrados em cada angústia instantânea.
Na trincheira dos povos despedaçados
juntaremos todos os remendos de esperança
num canto qualquer, gulosos de toda
sobrevida que nossa carne expurgar.


GAMÃO


Tretas de grandes sensações,

como essa farsa, que apanha
e oferece o outro Face como isca
para os feirantes esgotados
e sua argamassa de confusão.
Agora há silêncio de escutas
transigindo tudo sobre o mundo
no mais completo sigilo. AQUI
largo mão do aperto, abrindo
um atalho no entulho e
estancando o excesso de
reparos com determinação elétrica.
Rolo minha mão para longe,
como ga-mão que sai na frente
(indisfarçável temor)
no antigo hábito dos dados,
que virou um vício, um JOGO
de ciências do Tempo
através das formas trêmulas
da Audição, que regula as virtualidades 
NA FONTE. Essa ''pala'' rearticula
todos os vestígios num retraimento,
uma recognição avant la lettre,
que pára o sentido em curso
com coices de quem espera
por algo maior. O Abstrato
bloqueia o registro, para que,
no espaço vazio, VENHAS,
e nas redes desse Poder
arrisque o pedido amorfo
da ACOLHIDA. Gota a gota,
algum deus insasciável (sange)
reivindica seu impreciso esquema
de leitura, incrivelmene fortalecido
nos desordenados extremos do PACTO.
Em sua contra-prova entrelaçada, a
FORÇA (de convencimento?)
aprimora sua dívida com os
esforços metamórficos do POEMA

O BANCO


O Banco anuncia dinheiro vitoriano

com seu engenho de socar lavras
e bestas de semeadura no pasto.
Dinheiro que azeda o gado
cautelosamente, com os pigarros
pontuais dos senadores...
Dinheiro pisado por quantos
possuírem apólices, debêntures e
outros valores in aeternum,
assegurados pela incerteza
e os acenos dos Rothschilds
na Companhia de Navegação.
Depois, o dinheiro tranca-se
sozinho no céu do Banco,
ao jeito de cortejo encerrado.
O signo na testa do Diabo
prepara o ferrão, o veneno 
e a etiqueta, de tal sorte que 
comanda o ataque na escada, 
travando o caminho no breu.
No degrau do meio, a consciência
pública nos chama...  de ''camarada''?,
mas sua doçura de notícias é
um crucifixo pesado no meio do mato.
Só a talha fria do corre-mão
de prata nos acode, embalando
nosso cuspe com a secura
desesperada de seus disfarces.
Os degraus acima de nós
são alcançados com aflição,
matando (com medo de ser castigado)
um minotauro por segundo.

*

Sempre que me vê falando de NÓS,
ela receia que o poema fale
DEMAIS.Não exatamente de NÓS,
mas daqueles meus atletismos calados
que invadem seu mar noturno.
Mesmo assim, o poema fica orgulhoso:
unha, presa, tensa vontade de potência
em excursão pelo seu úmido país
de alicates delicados. Nada pode
contra a mão e seu ato, esmagando 
os distraídos no caminho da LUZ.
Pudores didáticos (depois) analisarão
as sombras na ferradura do cavalo, 
e pelas portas das ''compras e vendas''
correrá um gozo assustado, e talvez, 
longiquamente ilustrado
na fisionomia do jornal
que o MUNDO HABITA. Mas este
território encravado no jornal,
essa encruzilhada desejante
da LINGUAGEM, não é o mundo,
é o BANCO!, com todas as suas
sedes insondáveis decantadas.
Ele provoca-me em silêncio,
deixando seu Morse de lado
e burilando meus poemas no forno
*

COMARQUITA...


Verde país ferido, COMARQUITA!,

ronco financeiro no vazio,
que funcionaria melhor
SEM PRESIDENTE, com bolsas
pastoreadas por violinos
e dentes duros, límpida
REPÚBLICA VERBAL (idealizada
num quarto escuro,
SEM PECADOS). Mas
havemos de merecer
nossa elétrica justiça:
o corpo, esse trem imundo
que em pecado se atolou,
ESTÁ AQUI, mirando-te
e tirando-a por baixo
com cartas de doce zombaria.
Por isso não posso mais
(oh país que não tenho
nem necessito!)
ajudar-te com a tábua dos ''nove''.
''Acribillar-te com pelotazos?''
Não, já sabes que tive
que eleger outros jogos,
ainda menos sérios que o vosso.
O jogo do disfarce
que causa dó sob o riso
cortou-me o passo
e deu-me com a bota na cara.
Os hipnotizados foram à forra
e o produto acumulado dos meus roubos
foi sendo carregado tão depressa
que começaram a apostar corrida
nos BANCOS, onde as relações humanas
eram apenas uma forma de cortesia.
O Imperador seguia irredutível,
puteando como um louco,
tetanizando seu verbo
com 70% de eletricidade própria

UIVO


As coisas estavam mornas,

inisinuando-se em ''banho-maria'',
até que a Lua transformou
a ansiedade do poeta em névoa
entornando seus olhos no seu fantasma.
Quando os outros amantes da Lua
a contemplavam, ela minguava miseramente.
Mas os olhos do poeta a satelitizavam
até o limite, produzindo um fenômeno cultural.
Nuova Beatrice a entrar no quarto,
batendo vôo com suas fobias rasantes
sobre réstias de fala minha no lençol.
Mas a vontade de ser forte
me fazia correr através das bocas
mais estudadas do século, em busca
da verde reentrância da Lua.
Fácil não estava... o único acordo
entre nós, era o de que eu me degenerara,
e que minha feroz inocência de poeta
não servia mais como álibi.
''Outros satélites, menos improtantes,
mais sub-célebres do que eu,
caíram por você... FILHO DA PUTA!,
mas eu não: nem minhas gaivotas postais,
nem minhas cédulas comedoras-de-árvore''.
Consolava-me de sua agitação exterior
com minha enervante quietude interna,
dizendo-me que ela não sabia tudo a respeito.
e que não seria capaz de delatar, rindo,
a peleja da minha sombra com a dela
depois da meia-noite; nem poderia ver
até onde chegavam minhas antenas
na aurícula esquerda.
Tinha no meu berretin inexpugnável
um triunfo letal, a prova de derrotas e olvido.
Ali, onde acabava o poeta, e começavam
os múltiplos tentáculos do polvo halterofilista,
a sombra do poeta armazenava suas pistas
SILENCIOSAMENTE
e comia sem queixa,
depois de uivar bastante.

O GELO DA LIBERDADE


A LUZ ainda flui sobre nós

lentamente, com seu dom silencioso.
Às suas lisonjas cedo, à elas
dedicarei minhas canções.
Peregrinos infestam o pão estrangeiro
de nossa juventude, e sabemos que
o acerto final com eles estará justificado
por gente mais simples
e mais orgulhosa do que NÓS...
Perguntado a mim: ''Foste tu quem a Dante
ditou as páginas do Paraíso?''.
E eu: ''Sim, fui eu''. 
O que era espontâneo, naquele momento,
era bem mais fácil de lidar
do que com o espelho. Timidamente
a cúpula verde-claro batalhava
por seus vencedores, entrechocados
num rodízio de brindes
(Musas e convivas: eis finalmente
o gelo da verdadeira liberdade:
não mais enganos, até o amanhecer,
enquanto flui o riacho das provas
da minha mais perfeita inocência ---
doce sombra de trombetas vitoriosas).
Oh, quão pouco lhes resta
a fazer nesta terra (eu lhes dizia),
além de brincar um pouco com este garoto.
Depois, ''talvez infelizmente'', a China:
um dia alguém me reconheceu lá
como um osso duro de roer.
Mas também foi só.


COM PASSO CERTEIRO


Mantenho-me CONTRA,

retendo todos os ápices
gerados pela rapidez.
E penso em usar ainda melhor
o gesto incisivo que imagino,
precisamente com sua ASA
de rápida exegese, voraz-
MENTE repetido no gargalo.
Submerso, continuo. Escurece.
Fora há a crítica dosada
por dentro, apesar de suas pautas
de validade vencida, SEMPRE
RETROCEDENDO, em busca
da metáfora (que atualiza).
O escritor é sem-teto, mas
eles não detém a Metáfora.
No mais, tudo nos distancia:
o estilo conflituoso, excludente,
a incisividade exclusivista e o
passo inquisitorial do alquimista,
classificando cargas e voltagens
entre suas posses egoístas.
Abertura mesmo, só de alguns
palmos precisados tentacular-
MENTE, abduzindo partículas
que o CINZA fechou em recipientes.
Na profusão de erros desusados
da EXPERIÊNCIA,  a turbulência
do POEMA aprova apenas o rascunho
que alarga o texto e sua usura épica.
Fogo lavado pela chuva, perto de
onde a PAUSA sugere à Mão
a Letra trêmula e fora de alcance.
Com o cenho franzido, componho
pelo menos a linha onde a LUZ
emudece todo musgo vingativo
entre os DENTES ---- aquela
instantânea e insegura
soteriologia do gozo, sem 
seus aquosos disfarces de
CERCO, CULPA e RESERVA.


COMBINATÓRIA


Antes de qualquer impressão

a Revelação parece clara,
mas a linha frágil da escrita
mira a marca imensa
como um alvo, investindo em
APOIO... em falso?
Sintonização afásica de murmúrios
mínimos, mas minuciosos,
''por dentro'' do ''intra-day''.
Champagne e arremate de gala
em dicção urgente pela veia,
misturando numa única opção
dois pulsos distintos: a aventura e
o fluxo, via íntima tomando corpo.
Cálculo combinatório: impulsos,
músculos, números e um pouco de
bacon no escuro, mastigado errado.
Bicho abreviado e incógnito passando,
enquanto o arpão, fixo no olhar parado,
hesita entre mecanismo e acidente
com a praia rente sob a repercussão do Sol.
Um momento de slide confidencial e
depois, só um pouco da alma volta.
Volta geralmente em palavras finais,
tentando recolocar a voz, 
que está em jogo, num palmo de 
músculo rijo. A palavra é voraz.
Drama de audácia e sede,
resistindo esticada ao debate cru,
que se arranha toda por dentro,
sem registro verossímil, sem pausa.



MEA CULPA AO MOLHO MADEIRA


Enquanto isso, sombras deitam suor e pressa

no meu riso, não exatamente atormentado,
mas tão louco quanto o de Narciso
(e ele realmente ria tanto assim?).
A princípio, exponho-me em vão:
o panorama se modifica
por simples posse de padrões alagadiços, 
maturando as condições do meio
com a carne do silêncio.
O descompasso de ver-se romper o canto
em mil bailadas de naturezas diferentes.
Cada um calçando
o desatino do próprio ato
com o do próximo, na ante-sala do caos...
E a cada apocalipse momentâneo
a confusão dos capitais no encalço
dos arranha-céus, sugando até o suplício
a carne esparramada no labirinto.
Na platéia, todos esquentando o intestino
com o prato do Demônio:
''Mea Culpa Ao Molho Madeira''.
Isso te sacia, amor?
As frases celebrando o tormento
com o néctar do veneno ----
nuvens tramando queixas vagas
que criam garras, forjam verdades
e vendem máscaras de extermínio
à qualquer um que passa na rua.



LIMBO


''O canto sai da boca ensimesmada''

lá onde nenhum Presidente se faz ouvir.
A brisa o trouxe, o temporal o leva.
E pouca coisa este poeta é capaz
de transmitir num beijo, SABE?
Na úmida assombração que vem do Norte
já prospera o dínamo do silêncio.
De caos a caos, o silêncio muda tudo:
refaz o mundo no exercício dos dentes
e sorri de toda paz, enquanto a tarde cinza
fica escura, e o mundo testemunha
a indigestão de tudo. Meu falo,
debulhado na língua da tv,
''penetra surdamente no reino das palavras'',
como outro valor mais alto que se alevanta.
Desde a alimentação se reconhece um homem.
E também pela respiração, onde correm 
as energias da sociabilidade e do estigma.
Mas o poeta está no Limbo, 
voando no céu de sua soberba.
Que será que planeja ele?
Fluir, ORA!, totalmente
envolto em seus mistérios
sem destino, enquanto o mundo
se perde em memórias mortas
à luz de notícias desidratadas.
Salve, lobo triste!, suspendei
por um momento vossos jogos
com a doçura oclusa
do monstro que espera,
sem ânsia de morrer...

LETARGO


Ocupação seca e imóvel (in dubio)

sob o testemunho mudo do radar,
assinando cada pique dos olhos
(plenos de sentidos incognosféricos)
sem muita recorrência vertical.
Perdido em meu rigor subterrâneo
e só em minha carne (a medula
espelha doses de exposição
entre vozes e limosines sem rumo).
Persiânica aceleração central
do pensamento, todo carne por dentro.
O Céu não me dissolve, MAS
deixa bilhetes na linha do horizonte:
fileiras de luz ejaculadas, pingando o viço
do desgaste contínuo, desabobadado,
sob cargas de motor e paralisia.
Riscos de lesmas como acompanhamento
e curto-circuitos ''conectivos''
sem força de expressão --- a marca
do corte nas palavras que sobraram
e qualquer coisa inútil que desapareceu
sem deixar rastro sob o radar...
Os cálculos modelaram a máquina
disponível, de acordo com a pressão
e os rosnados do deserto.
Máscaras de estrelas e língua-dura
levaram a hora áspera ao máximo rigor
enquanto pedaços elásticos de Deus
repercutiam mínimos êxtases instantâneos
na batalha cega do palato.

Vou no escuro mesmo, em Braille.

Sombra não passada a limpo
publicada pelo Sol, contra a parede.
Letargo de lagarto escorrendo para o chão.
Minha voz não está mais na linha.



Livrai o couro do Diabo!


A qualquer hora

a força não contida
da relação a dois brotava,
e ''Deus'' dizia:
''Amadureça, meu rapaz!
NÃO VÊS?!'', Então,
um silêncio selvagem
(quase um susto
dentro do cérebro)
rasgava o mundo
e a imensidão da vigília
(sonâmbula veloz)
revelava seu desejo,
já testando a língua do poema
(plena de sentidos)
no corpo cru do sono:
FALO É DO MAR!
Achada nas areias, pela minha 
predisposição passageira ao Bem.
Muito simpática, pareceu-me
fortemente inclinada ao sexo.
Agora, desnudado meu disfarce,
os barões oligopólios da Bolsa
me assinalam, rindo entre si.
Trinitas pater: estou vivendo
entre Rosa-Cruzes?, com café 
demais no fígado de Prometeu?
Socorro, Musas da encruzilhada!
Livrai o couro do Diabo!
Só mais uma vez...
Serei conciso: preciso de vocês,
que me fizeram restos de vós,
bem ao vosso jeito.
O Cão sempre diz: ''Nem ligo!'',
mas sempre pulsa mais forte
quando de vós se acerca.


TRIUNFO DAS COISAS-FOFAS


Ainda não tinha dito

a mais mínima palavra
por amor à arte, quando
derrubei desastrado o pote.
Apenas um período de testes,
e eu já estava liquidado.
Últimas voltas no deserto privado
sob um céu sem acontecimentos.
Eu havia perdido a luta
contra as coisas-fofas,
que haviam subestimado meu fogo.
''Queremos motivos mais razoáveis
que o incêndio'', elas diziam
''Nos deixe dormir em paz!''.
Uma porção absurda de mim
sobrava no espetáculo, sem jeito,
a endurecer-se no automóvel
que delimitava meus sentidos.
As coisas me faltavam, enquanto
a infâmia lambia os beiços.
O ruído dos caminhões na tempestade
me tornava um cavalo assustado
na beira da estrada, engasgado
com a própria saliva, os dentes quebrados.
''Talvez esperemos do outro lado''
continuavam elas ''...o alarme rústico
do teu veredicto: o sinal fotosférico
do farol, ou o ruído especulativo
de alguém correndo até vomitar''.

K.M.



Sem título


Por justaposição, montagem,

eu hauria os processos
de estabilização de esgotos
''correndo'' a céu aberto
contra o clarão das notícias.
Atravessando a História,
o VERBO começava das AÇÕES,
que eram ''jogadas em mora'',
cultivadas, pari passu, na fusão
de inúmeros restos de sensações
e fenômenos políticos paralizados.
Os ventos, ao meu canto, emprestavam
a ARTE DO BEIJA-FLOR: 
de sugar o néctar da coluna
da rosa perdida em Marte.
Selênico rompido à meia-noite
espalhando grãos de urânio
nas paredes latejantes do crânio.
Mais um sinal: as perguntas decisivas
da Musa, depois, me esmagavam.
Em close-up, pela brecha da fechadura
eu reaparecia o tempo inteiro
calado, como convinha à ''audiência''.
Rosa só parcialmente raptada
ao fim de uma noite inteiramente reta,
de cujo sono corrido só restou o TREM
em alta velocidade, e sua salivação
(psicológica? NÃO NÃO NÃO...


POKER


À luz vermelha, o espelho devendo

notícias duras à cena luciferina,
à temperatura fria da espera
detalhada na aterrisagem forçada.
A vida toda aguardando com medo? ---
O direito de escrever --- as cotas da Bolsa ---
O lugar onde morrer --- que pescoços, que moças? ---
Cafezinho para Miss Oratória!
Autoridade é isso: operar a preocupação
conjuntamente, com a escória,
acossado por grandes companhias
de investimento. Um desconto aqui!
E correndo à sombra dos nomes difíceis,
da letalidade perdida, das contas do carro,
da boa sorte diminuída, dos partícipes
enlameados nas paragens executivas.


CLAREIRA


CLAREIRA, campo e registro

do NÚMERO, do enredo
insondável, profundamente
perseguido (à força de nado).
Mergulho no NADA implícito
e sem ruído, TOTAL-
mente à Mão no
rastejo do cio kafkiano.
irreconhecível cotidiano
traçado nos ofícios que
apuram a ESCUTA
e pinçam a mistura da Máquina,
a escoar as babas de sua glândula.
Nas Linhas acima, chega
a conta do ruído sem fim.
É o trajeto da fome
dando cabo do que foi escrito.
Um feito ousado! Como
um esporte que se planta
no papel, carburando o pensamento.
Depois, como velozes faíscas
na urdidura fria da Máquina,
no aperto da lapidação
rigorosa do poema.
Comigo ele estanca,
atropelado na própria derrapagem.
Correção auto-aplicável,
freando na margem cautelosa
em que o poema se desculpa
(aparentemente arrependido)
com a criança mais gorda
da platéia, que chora

INCESTO


Epígrafe


''Começo a ver no escuro

um novo tom
de escuro''

C.D.A., Ciência, de

A Vida Passado a Limpo


Monto minha geografia metafísica

com as especulações dos homens,
sem perder de vista os nomes
que acrescentam peso morto à ação.
A cada passo eu masco o valor
de suas medidas, brincando
de estar deles perto ou longe.
Sorvo meu próprio sono para
campear outra forma de existir,
farejando com a mão em doidos horizontes.
Certo é que vivo oculto
em minha própria fronte, entupida
da minha coleção de segredos.
O punhal de prata me força à isto, 
compensando-me pelo mal de ser homem,
pondo-me na alma algo que a destrói.
Sabe o DemônIo? QUE MILAGRE! QUE SOMBRA!
Ele existe, postado em frente de casas inabitáveis
de onde não desembarcará nunca.
''Metade sombra ou todo sombra?
Tuas relações com a LUZ... 
como se tecem? Amarias talvez?''.
Não sei, mas estou sempre inspecionando
as nuvens e a direção dos ciclones, como o poeta.
Certo é que meu reino comanda de perto
poças consideráveis de solidão mágica;
inflexivelmente, sempre pressentindo
na tarja sanguínea a irromper,
UM NOVO ESCÂNDALO NOTURNO,
denunciando as diferentes espécies de treva
em que os objetos do meu amor se elaboram.
Tão engraçada aquela: não sinistra, mas meiga
como uma nuvem que se afasta, calmamente, 
abrindo um portulano malicioso entre meus olhos,
onde galopam afoitas minhas sombras.
Totalmente orgulhosa do solo humano
em que pisa em seu despojamento:
claro raio ordenador com que se esquiva,
retraindo-se como ausente da ''realidade''.



FALA SAUDOSA


Afinal já regresso

ao tempo verde das andorinhas.
A amada emudece um rio inteiro
apagando os rastos da minha fala saudosa.
Uma paz coroada de folhas novas
nos roça a face com que a beijamos,
como se beija uma nuvem na tardinha.
Sorrimos, pois vimo-la criar folhas com sua seiva e
''temos cuidados especiais com sua segurança''.
''De repente, sentimos um arco ligando ao céu
nossa medula, e no fundamento do ser a hora fulgura''.
Tendo a noite ficado para trás, ela subsiste ainda
na minha íris madura, a censurar-me fortemente.
A perturbação de entrar no seu quarto silente
e penitenciar-me com sua delícia sonâmbula:
animal terrivelmente adulto a espreitá-la
a noite inteira, sorrindo como quem 
a si mesmo se revela. Vingado de tudo com o arrepio
com que se vai à caça, e perdido no abandono de NÓS
em que se esfuma nossa posse agora.
Mas agora nos sabemos pensados naquela região,
ainda que admitidos somente no rasto
de outras coisas, BEM MAIS AGRESSIVAS.


NOVOS EXPEDIENTES



Voltamos à nós destroçados?

O terreno da batalha está desocupado?
Não: nenhum monstro de vinte andares
esmagou aindas as patas das rãs, nem
houve vitória do pequeno sobre o muito.
Minha timidez agora suplica infantilmente,
tão logo ouvida como desdenhada.
Minha hipócrita classe de carros caros
e sorrisos diplomados, minha desapontada
legião de ''chefinhos bravos'', minha dialética desperdiçada
estão finalmente sós, entre os fortes riscos do NADA.
Disfarço de mim mesmo este núcleo monstruoso
em que sobrevivo, para não ter que condenar
tua salada verde. Olho de frente: a vontade de poder
não cede um milímetro de luz
às ameaças nascentes, aos cumplices da claridade
nas notícias dos erros cometidos. Um cavalo
relincha, galopando doidamente, sob a última
pressão bancária do dia: ela é judiciária
e tinge o espaço oval dos Diretores Financeiros
enquanto uma carta deslembrada do poeta
masturba-se de tudo na contra-corrente.
Noturno e ambíguo sorriso sem rumo,
pedindo verbas, propondo convênios midiáticos
e demitindo pessoas dos novos expedientes
em que a alma, como uma víbora calma,
coleia na pele dos rostos. 

K.M.


O TEMPO DO COMEÇO


Acontecia com os quadros de Van Gogh

e agora acontece com este poema
pressentido nas aragens conversadeiras:
o processo criativo, alimentado
por um silêncio decisivo, é mais importante
que o próprio poema. E acontece também
com a moda dos tele-jornais, e com as moças
fáceis de se drogar com ela...
Pergunte aos profissionais da solidão
pelas coisas impregnadas de sono
concetradas no fogo do coração;
e quantos falsos começos começaram
desde então, e perceberás que o tempo
de todo começo é uma ilusão.
Comece medindo a altura do teu sono
e discutindo o preço da vida com cuidado.
Pergunte ao teu vago despropósito
de captar certezas maiores que a calma,
quantas presenças fantasmagóricas
cabem no seu coração, sem vergonha
ou medo de vê-lo totalmente encurralado.
Tente despertar as coisas molhadas de chuva
com a decisão subterrânea do teu corpo;
um pouco de lama invisível na cama
tornará visível sua decisão, no seu mundo 
de tantas alternativas, de repetidos NÃOS
fluindo nos canais neutros da vida.
Só é possível quebrar esta rotina com um golpe
do corpo contra o silêncio: se o sucesso não chega,
não precisa mais lutar, é porque teus sentidos
o perderam de vista na hora de me pagar.
Todos teus risos fáceis, depois, serão numerados
pelos carimbos dos Bancos, na hora de sonhar. 
Única forma tranquila de não saber
mais nada do que está acontecendo com você.

K.M.



GRANADA SEM PINO: UM, DOIS, TRÊS...


Na ordem direta, como

as jornalistas, digo logo
o que vai acontecer:
a poesia mudará de mão
e se tornará menos descritiva.
A veia lírica, agora,
será minha nuvem fugitiva
(bússula e chão das vias íntimas).
Mas não me irrite: a mídia
me espera, apreensiva, na sala VIP e
ai de mim se tudo corresse
tão bem , que meus músculos
aprodecessem de não terem
a que resistir. Em perigo
me mostro mais verdadeiro,
e agora há mais ameças que nuvens
encharcando o galinheiro.
Todos mantêm-me no limbo,
sugando as veias do meu destino.
E eu mantenho a atitude suspeita
do saqueador, sempre na espreita
da arrogância executiva, dos que mandam
na mata, na meta dos que amam
vender tudo a troco de nada,
carregados como rifles de emboscada.
Seus dodges de luxo estão recheados
de olhos de bebês africanos: única carne
que hoje têm para vender, ''por fora'',
nos portões dos fundos da História.
A raiva dos séculos parece ter
enferrujados seus olhos, e sua memória
com a visão aplastadora da Hidra,
esta bolha cada vez mais incandescente
que não clama pela respiração artificial,
amealhada, sub-contratada do jornal.
Este poder, o quarto na escala do fiat
que dissimuladamente interrompre você
só quer o mal da Hidra. E POR QUÊ?
Por que quanto mais lhe batem na cabeça,
mais ela se multiplica, mais espessa,
como um homem espancado na multidão.
E tantos homens nasciam daquela AÇÃO,
daquele homem de aço, rindo no chão,
que os carrascos tombavam aflitos,
cansados de espancar o erudito metal
que só despedaçam na imaginação.
O espetáculo aterrador não tinha limites,
de círculo em círculo,  o espinhaço
daquele homem renascia mais armado,
ferindo a quem quer que fosse, ao seu lado,
com a violência dos seus estilhaços.

K.M.



BOM COMEÇO...


No asfalto da cidade onírica

brilham as ilusórias avenidas
à luz neon, da cor da vida
na curva agonizante do amor.
Deve estar chovendo por aí, e só eu
estou longe da sua manhã;
Crispam-se-me a alma e os dedos
na hora de trocar de mão, para
sangrar minha vontade de fogo,
de segredos com glacê de nuvens.
O Amor só é bom no começo,
não devia nunca deixar de começar
dos cacos do espelho, da água vazia
de alguma fronteira, algum mar
onde sinto-a pele, sinto-a gosto
de lingerie molhada no escuro.
A espada, eu arreganho-a para o norte,
e teso, hipnótico, meu riso vermelho
penetra os mandamentos da morte.

K.M.



UM ECO DE NÃO QUASE VAMPIRO


Agora ela sente um leve terremoto

nas variáveis superfícies da vida.
Seus lábios zumbem de presságios,
se animalizam na derme das palavras
em que bailam os mésons da noite,
no semblante do mundo. Além
da coisa em si eu circulo, TREM-BALA
tatuado de sonhos e cáculos, em apuros
de caça com radar, para morrer um pouco
e renascer em seguida, com um relincho
que defende sua alegria como uma trincheira
sonâmbula, das doces infâmias, de graves 
prognósticos e da ausência transitória
que condensa a figuração das coisas.
O touro da caverna (ai resistência!)
liberta as ações do peso da História,
neutralizando o traço de cada gesto
com um eco de NÃO quase vampiro
ativando as glândulas do seu otimismo.
O resto está deixando muito a desejar
no latido geral da vida. Ela sabe
algo sobre o que está morrendo,
mas pouco do que está nascendo:
sórdida guerra fria contra  o Fogo
propenso à aventura da querência.
Nem aguaceiro radioativo, nem
o naufrágio ideológico do duelo
levam ao triunfo ou ao desastre,
mas a disjuntiva nos toca... Sobra
melaço nos olhos que apalpam,
nos lábios que vem traços
de notícias ruins animadoras
recuarem à meia-bomba 
do meio da injustiçada  flora.

K.M.



Cortaré con mis manos las flores de su corona...


A zorra passarada cospe música

quando, de súbito,  começa o tiroteio
e as cores estrondeiam no blecaute:
os jardins do quintal quedam humildes
e a hecatombe de penas forra o asfalto.
O comboio de veneno, doente de beleza,
encontra a loucura sã da natureza.
''Sai de mim, Demônio atemporal(!)'',
grita ela, inteira em sua nudez ----
mas a chuva é violenta, e ultrapassa
a pele invisível, que seu tato amassa
dentro de um sono sem sono, rindo à sombra
ante o lótus florido dos gestos indefesos.
Deixo o que pensam que sou entrar no recinto
e sentar à mesa do espetáculo, surpreso:
a paisagem virgem, agora, ecoa sitiada;
veredas rasgadas no mato da carne usada
um tanto de dentro, um tanto de fora,
sofrem um toque de fala e outro de intensidade
propícia à satisfação do desejo, da vaidade
chapada e previsível dos dentes inóspitos,
do egoísmo do qual sou dependente...
Nessa relação, o próximo se desumaniza
na distância com que abasteço minha vida.
Volto para casa completamente ensanguentado,
por iodo de latido e capricho envenenado.
Carne e vácuo pulsando em camadas metafísicas,
cuspindo lembranças com pasta dentrifícia.

K.M.



Mira que soy cazador...


Todos gritam ''Mea Culpa!'' na sala,

mas só eu continuo falando sozinho
com minhas quatro bocas dentadas:
Fogueira, curtume, carniça e balas
vazando a madrugada do atirador.
Não volto o rosto ao primeiro clamor
quando nenhum lado resta para ferir;
e quando recebo em cheio o tiro na cara, 
aumento em três laudas meu relatório:
me arrasto no chão, entre mortos e feridos,
murmurando a letargia que reduz a produção
de veneno. Minha saliva ensanguentada
sai no rastro pestilento das bactérias
que o Demônio deve ao povo cansado.
''Ah, esses apressados! Precipício das artérias
que mataram o ascensorista no trabalho''.
O Demônio ri, enquanto a mais devassa puta
escancara a buceta à sombra do Capitólio.
Lá fora as coisas inspiram  mais cuidado:
atrás de mim, as cinzas deste imbróglio
catártico, hipnotizam o riso envenenado.
O jornal borbulha, com vontade de ser pântano
e um desabrido risco de gastura, tântrico,
rearma os dentes com balas até a boca.
A última hora da tocaia é louca, o verso
é atitude ou blefe, e por isso xeque-mate.
Ontem, brinquedo sexual imundo, perverso,
Hoje, um torpedo suicida vindo de Marte.
Na última hora, o verso devolve o cheque
ao poeta, gritando: ''MATE-SE!'', com a espada
no coração, sangrando uma liberdade medonha.
O que sobra é um rastro de sombras na escada
grunhindo gargalhadas, ejaculando peçonha
nos restos mortais desconjuntados da amada.

K.M.



A questão que se coloca


Amores só não resolvem minha solidão,

não resistem em pé aos meus assuntos,
ao meu passo que marcha ao precipício
macabro da vastidão. Só aprendi a amar
a carne crua, esse acúmulo rijo de ti
derramado na sombra do que não foste.
A noite vampira é como uma floresta
de carne viva. Depois, vem o deserto
da tumba, e a sangue-frio cai
a circulação de estro sinistro.
Na tumba, o vampiro ultrapassa o tempo
sangrando a veia virgem do momento
com seus versos, vazio que o marca no espelho.
O dragão da verdade e da mentira
envolve o próprio corpo em cúmulos
de livros abertos, álcool e nicotina,
escapando sozinho num trem sem trilha.
No domínio do ''Tempo de Sobra'', o vampiro
lança suas sombras em águas longínquas,
e de tanto que dorme acordado, corre
com a cama infindos caminhos.
O coração em seu peito está morto,
obviamente, não sabe se vale a flor que espreita.
Apenas ressuscita-o à força, sem jeito,
e na escuridão fria é como um cego que vê.
Coração morto, morro de vergonha de você!
Não pergunte por ele a quem não sonha,
o mundo inteiro avança em sua fome de bronha.
A Cruz que o encime após o Sono, insone
e entregue à sorte, não tem calma sua fome
nua de Vênus. Nascido da morte, esse coração
de vampiro come cru o próprio veneno.
O dente dói depois, mas ele diz consigo:

''Sei todas as formas de tudo

ficar tudo bem. Tudo bem?
Talvez. Não sabia que a morte
morreu foi comigo (e de vez)?
Contudo, estou vivo de tudo..
Mas é de tudo o que digo...
de mim mesmo? SIM!
E de você? Também,
MAS NEM LIGO! Amém.
Sou dragão de vastíssima peripécia:
de descontente, queimo a Capadócia;
de ciúme, emporcalho toda a Grécia''

K.M.




As solidões faciais do poema


O sorriso da fera tinha abrigo

na calma do delírio mais antigo,
onde o sonho resistia, despontava
o alimento permanente da emboscada.
De noite, lançava mão do efeito diva
agitando o osso em carne viva.
Num lençol branco beijava seus sorrisos
e num prato de carniça, depois,
cuspia com sangue os próprios cisos.
A escritura das horas tornava a caverna lenta
durante o dia, planta baixa e lamacenta
vicejando entre os escombros do futuro,
procurando nos jornais o esperado furo
das ''massagens subliminares'' e antenas
descendo as solidões faciais do poema.
A lava ferina cicatrizava a lama, e a paz
que nascia no peito era uma coisa terrível.
''Te amar não?'' SINCERAMENTE, TANTO FAZ.



ENXERTOS ESPECTRAIS


Todo eco incômodo, todo inferno

criativo irradiante num palhaço
leve e bem treinado (efeito do contraste
do peso-pesadelo calculado no olho
de quem VÊ do outro lado de quem
APENAS OLHA. Âncora de pedra
da ATENÇÃO, para manter a atenção 
de quem lê, iscada COMO risco de 
ponderação e censura, mas todos igualmente
ameaçados pelo que está no ar,
INORGÂNICO, instalado na linguagem, 
operante enquanto flutua sobre as águas
de corpo-a-corpo do RIO, limpo
de toda apalpação revista
nas visões diretas da ordem-implicada.
Os sintomas de cada CENA, auto-elaborando-se
na prática, dispensando anestesia
(qualquer anestesia destinada à
desacelerar auto-elaborações implícitas).
Por dentro das mãos há (recordemos)
a MÃO IRREMEDIÁVEL, ilhada
nos seus alongamentos de urgência,
estalando poderosamente sempre que
o plano se torna íngreme demais
DE REPENTE, restando-lhe apenas a
NADIFICAÇÃO COMPLETA ou um
frágil diagrama para o dia; enquanto
o DRAMA NATURAL se desenrola,
o pensamento se imiscui em movimentos
do mais internalizado dos silêncios,
preparando a CORRIDA NO ESCURO
(o escoamento: fluxos, massas e
OBJETOS COMERCIAIS A-PREÇADOS;
o agenciamento, a precipitação destes
fluxos na velocidade das paredes,
estratificando e confirmando
toda essa AGÊNCIA SEM SOM
até o TATO topar consigo mesmo
e ELA pesar ainda mais sua MÃO
com aquilo que ELA mesma 
o faz escrever, enquanto os olhos 
suam visões noturnas por igual
nos enxertos espectrais da carne.


PRATICAGEM AMAR-TELADA


Certa pressão marca à unha

As linhas de fuga que interessam,
Usando gráficos de praticagem naval
Que atravessam a pele da história.
O Poeta desliza num toque sem gorduras
(marcado à unha) para dentro da Poesia,
Que ganha novos ângulos de avanço
Sem dissipar suas mudas posições,
Elaborando inaugurações que ecoam
Todo o SENTIDO em trânsito ---
PRESSENTIDO, mas diverso
A cada linha do ACORDO.
O Poeta manobra bem, fundamentado.
Passa primeiro a CABEÇA, pelo
Mar amar-telado e virulento, 
E só depois introduz sua VOZ.
Prisma esquizofrenizado (ou seja)
Seccionado, de Esquizo: do grego –seccionar.
E em poder de doar à Manhattan
Todo um ritual avant la lettre
Que aguarda seu Mefistófoles na curva,
Na escada, no mel do asfalto,
Na baba que o beijo incorpora,
Derivado de uma luta fechada
De depurações astrais, e levantando
A NOITE até o plano da MÁQUINA
(rascunho-resultado, e modelos de
Extensões percorridas por ELETRICIDADE
E ectoplasmas invisíveis, tudo detectado
No laudo cheio de veias da CENA.
A CENA POÉTICA INTERDITADA).

ENLACE SUB-RÉPTIL-CIO


Entro e brigo

No mundo cerceado
Para abrir um parágrafo
Que se preste à metamorfose,
À seta do ser que
Testa a NECESSIDADE.
Escuridão implacável.
Wild Thing in-formulada
Em surdina, rente ao absurdo
Sentir liberto da presa.
Um labirinto sem vestígio
Anatomiza alguma remissão
Antes da medula insinuar-se
Num sub-réptil-cio ENLACE.
PETRARCAMENTO ARDILOSO
(Nissuno sa: né d ´Amor visco 
Témi o h ´acci o retti, né ´ ngano
Altrui contr´al tuo senno vale).
PETRARCAMENTO NUMINOSO
(Com as transmutações da 
Madrugada, enxertadas 
nos luxos do entardecer).
Onor triumfale! 
Gentilezza Di sangue. 
Tesoro di Castitá 
in questa breve vita
Cose tra noi, PERLE!


*


Erra-se entre princesas de fantasia

saídas de um pesadelo-profissional,
quase artisticamente perfeito, em DIREÇÃO.
Direção instantanea da consciência, 
entre avanços e recuos. Pesadelo lírico
de toda as coisas vivas e sem som
que acorrem entre os planos,
substantivadas no impreciso,
misterioso e galopante 
ORVALHAR-ORIGINÁRIO.
AQUI, o VERBO é apenas AGÊNCIA,
pois: ''não há EROTISMO sem VERBO''.
Por isso forma-se uma agência íntima.
comprova-se a afinidade da TV
com o ÁLCOOL, e sua acuidade
sensorial sob os olhos amar-telados
que avançam na LUZ, ''e-novelando''
até mesmo eus que, adesivos,
só se grifam de acordo com o que
tão amar-telados olhos turbilhonam
e descarregam na angra dos sentidos.
De longe vem essa LUZ
que ilumina e ultrapassa TUDO ISSO.
De longe, a MÃO que dissipa
a MAYA no além, e ALI instala
seu OSSO na IMAGEM.
TRUNFO E CHAMA ORIGINÁRIA
onde todo COMEÇO SE DERRAMA.
A IMAGEM TEMERÁRIA ( de fato)
banha o Poeta, que corre
em volta de si mesmo oscilando
o DEBATE para um TODO VOLTEADO,
que canta seu metabolismo perceptivo
DINAMICA-MENTE, aproximando-se 
de preços e vocábulos filosóficos
BASTANTE PRESSIONADO
pela SINESTESIA VISUAL-SONORA-
-OLFATIVA (muito especial) das
PROFUNDIDADES MENSURÁVEIS.


BIFURCAÇÕES POSSÍVEIS


Bifurcações possíveis do Caminho.

Escolhas de ações e as crenças
políticas dependentes da mídia, 
o conjunto dessas escolhas
re-posicionando, re-armando
o tabuleiro caríssimo das ilusões.
A posição que ocupamos aclara,
torna visíveis certas escolhas,
invisíveis outras, moldando a Visão.
Visível não quer dizer viável,
relevância de toda emboscada.
Há disposições, tendências de escolha
e afinidades eletivas do HÁBITO
nublando nossa acuidade virgem.
Estruturas fixas diante do FLUXO 
CONSTANTE da CONTRADIÇÃO.
O PARADOXO dos CHIQUES?
Nossas disposições evoluem,
duráveis, por meio de paisagens
de ACORDO transpostas. CON-
TEXTUALIDADES IN-CORPORADAS
SUBJACENTES ÀS AÇÕES; A
NATUREZA ATIVA DO JOGO
DESENVOLVE A NOÇÃO DE ESTRATÉGIA;
A ILUSÃO DO FUNDAMENTO
NO CAMPO DE LUTAS
IMPROVISA APROXIMAÇÕES,
CULTIVA A HESITAÇÃO DOS ATORES;
ESPELHISMO MAXIMIZADOR.
ESTADO: ARMADO DE DISPOSIÇÕES,
DESARMADO DE APTIDÕES.
AS CONSEQUENCIAS TOTAIS
SÃO UMA SOMA CONFUSA
DE PONTOS DE VISTAS FANTASMAS,
ONDE INTERVÉM SIMULTANEAMENTE
TODAS AS NOÇÕES DE VELOCIDADE,
RITMO DAS REGRAS NAÕ-ESCRITAS.
SENSO DE JOGO versus
ESCOLHA RACIONAL. É preciso...
falar de regras(?) Sim e não.
Jogo in-corporado, transformado
IN NATURA, além da
POSIÇÃO HERMENÊUTICA;
além do EXISTENCIALISMO
ACIONÁRIO, além dos
AGENCIAMENTOS e
TERMOS LÓGICOS DE ANÁLISE
e FENÔMENOS RETIFICADOS e
EXPERIÊNCIAS DE VIAGEM
NO SISTEMA e RELAÇÕES ENTRE e
MUITO MAIS, além.


QUESTÃO DE EXPECTATIVAS...


Ótima a pressão arterial, caindo

no coração, que agora está correto.
O corpo tem vida o suficiente
para prolongar seu erro no deserto.
O débito com Deus o álcool resolve, 
enquanto o lado inflamado
do cérebro, de súbito se move e,
insistentemente, golpeia com cuidado
cada mínima constatação delas...
Meu amor foi incômodo, mas exato:
enfeitou de vôo todas as quedas
dos beneficiários da loucura. Helás!,
que eficácia elegante, a da imobilidade,
essa certeza pessimista de coisas sem idade.
Depois, a noite repleta de portas inseguras,
a certeza de perdição analítica, corrupta,
despertando na cama de todas as putas.
Ocidentalmente sozinho, volto à normalidade
falando apenas de objetos, para que ninguém
saia ferido, esquartejado por idéias de maldade.
Deixo em paz minha lucidez, e sem um vintém
minha credulidade. Adormeço dentro da morte
agarrado ao cosmos por um mortífero fiapo;
minha consciência não tem sala de bate-papo
e a arma do plasma endurecido é forte:
transforma o cérebro num estado de sítio,
num insólito SALVE-SE, num incálido SUMA-SE
dentro da arte. É uma questão de expectativas...
tão acostumado a viver em apuros, sabe-se
que a bola da festa explodirá na sua cara
de repente, antes do vislumbre das alternativas.

OURIÇO-AUTOESPINHOSO, CLOWN.


Le traitement est fait: o curioso otimismo

do momento, sabe a razão de sua cor,
e pelas verdes luzes, os olhos do abismo
chegaram rapidamente ao bom -humor.
Ao amor decantado ''com o o olho'' e
à urgência inconsolável do pecado.
Há muito o que epilogar neste retorno
ao assombro da liberdade, malgrado
as vaias na cara, riu-se muito: até babar.
O agente secreto ficou nervoso, e no ar,
o agente nervoso, secreto, quis ensinar
à algum apócrifo bom-samaritano
que ele era melhor, apesar de latino-americano.
Nas vigílias do ser oficioso, de plantão, 
pesam a razão e o risco, e um riso idiota
no seu ar de inteligente, aumenta a combustão
dos diálogos inconclusos, forçando as portas
das perguntas nunca ditas, em que vão
assediá-lo, com notícias, a faca das respostas.
Nojenta obsessão pela verdade, pisando o calo
(ouriço-autoespinhoso) do poeta amordaçado.
Sua cara de insônia é a testemunha ocular
de que sua seriedade, de clown, pode ajudar.
Tu ris! --- Rien --- Je parle sous moi...
et sans savoir si je parle on hindou.
A gruta clama por ecos organizados, crus,
enquanto pendulo por todos os lados.


Da raiva, sob algum risco, emerge a esperança

temporariamente humanizada. A benção avança
ainda úmida de medo, até a hora da aprovação.
A sensação de vida triunfante enche a pança e
com sopros contingentes, engana até o coração.


CONTRATOS DE CONTENDA...


Primeiro, se envergonharão do meu lixo

volátil, na alta voltagem da cidade cinzenta;
analisarão meus ''contratos de contenda'', e
depois, regurgitarão todo meu divertimento
ingrato, com pedidos de socorro trêmulos.
Saberão de imediato porque desertei , e porque
minha espantosa presença era tão odiada
(em condições nem tão objetivas assim,
que se pudesse dizer: ''PUTA MERDA... PERAÍ!'').
Certamente divago, e desrespeito o medo alheio
quando este não sabe escovar o próprio destino.
Não é culpa minha se a audiência está caindo:
o medo cria músculos nos ossos do perigo,
e  a ânsia dos homens de negócios (fingidos)
transmuta toda boa vontade em carros de crédito,
promessas de pagamento e escarros diplomáticos
por aço, ferro-gusa e armamento pesado.
O jornal, coitado, sente que fora do Fogo
não há saída (fugir é a pior maneira de ficar
à mercê do escuro, para o veneno do ódio
acertar e fazer voltar os vencidos
PARA A LINHA DE TIRO DO MONÓLOGO).


O RANGER DE DENTES DA MÃO INVISÍVEL...


Preferia juntar suas ousadias

aos bens de capital atacados
e mesclar-se às  contentes ciladas
do orgulho autodidata
em todos os simulacros afetivos do combate.
Eis a infâmia e sua justificação gloriosa
nos defeitos do chefe. Tema difícil
e ''engorroso'' de se encurralar
em apenas meia hora de péssimas notícias.
Mas a autoridade dos diretores
está à salvo dos sonhos de sabotagem
gentilmente disfarçados sob nosso riso.
Tudo isso é o Imperialismo
rebentando dos estercos da mídia
e das vantagens da sordidez confessa.
De certo modo, os fetos fermentados
nas Bolsas, por este tipo de medo,
esperam modestamente
por uma pureza de intenções
ainda mais suja que a sua.
Isso também é o Imperialismo.
Aqui nos atrevemos a atacar a questão
com uma máquina que late em delírio,
falando ruidosamente em seus subprodutos
IMEDIATOS 
para envasar e rotular a MÃO INVISÍVEL
com estratagemas de justiça
com prazo de validade vencido.
O gérmen misterioso
na nossa sociologia do mercado
é um tipo muito discreto,
e muito pouco bíblico,
de ranger de dentes.

CAUTELA SUICIDA

Nada mais pode ser feito da massa comum
de toda essa agonia canibal,
que tudo assimila e reduz
à própria matéria caótica.
As cinzas voláteis correm na calçada
de Wall Street, onde são pisadas como coisas vivas
até desembarcarem numa garrafa de rum, onde
uma nova noite nasce
da última, arrastando consigo
suas possibilidades de ânsia promissora.
Enquanto isso o poeta trabalha
numa sopa chamada turbulência,
estrelando ovos de serpente no papel
como trastes espedaçados por um susto.
E o que todo esse expediente camufla,
mais tarde, ganhará para todos um novo interesse.
A urgência do relatório, como quem chega de longe
devastado por um incêndio, saúda a fala curta
da carcaça do Touro
com humildade repentina.
E era essa, talvez, a única concessão
disponível NO MOMENTO


ULTRA-FÉRTIL EM SUGESTÕES


Não vão acreditar, nem saberão
sentir a boca tentando dizer
que a sombra do barco no mar
reivindicava a humanidade de seu metal
perante o Comitê de Vigilância e seu
cemitério de proporções comerciais.
Silencioso, casto metal, mas no melhor
estilo de um mau vendedor (dirão).
Agora, tentarão a zanga do protesto
sem alarde, ou, com mãos trêmulas,
oferecerão bebida aos levados à tumba?
Não: pedirão algo para acalmá-los
de verdade, costurando partes da voz
que se afoga no palco escuro, cheia
de artérias comerciais bloqueadas.
Velhacos! Ricos entendendo-se entre si.
Única chance contra aqueles Estados
dar certo: instalar a reivindicação
bem fundo, para que não reparem
quando ali costearmos de novo.
E tomar os nomes um por um.
Já nos disseram os nomes, e
imagino que nenhum deles
agia puritanamente, fazendo mira.
Herdade astral do mar, chegando
por onde se perdeu, no ritmo
do metal confiscado que o vento,
lagarto, soava no assunto alheio.
Sob a noite fria, os nervos do Sol
ainda tiritam, com sua palavra rude.
Surreal reformador do mundo,
ceifando todas as vantagens
com provas espectrais de vigilância,
abaixo do limiar comercial.
Renovação das trocas ou
trocadilhos de renovação?
Aqui, a quimera-ofídia da rota
duvida de todas as idéias largas
com conhecimento de causa: cheirando
perigosamente cada compensação
de quantidade na escuridão,
onde a carne treme, adiando
suas metas sem deixar vestígio...
enquanto uma literatura para cada minuto
acende lâmpadas sobre as aflições,
prolongando certo dilaceramento
alucinado nos poemas sobre negócios.
Todos difíceis, uma imagem da força
mental madura, que se gaba
nas encruzilhadas, estalando seu riso.
E o que sobra sob o riso vibrante
algumas atrizes recolhem
da terra tremida, exclamando:
''Oh Meu Deus(!), Ele confundiu 
TUDO, e restringiu as intenções
mais belas de nossa sensibilidade
com criaturas feitas de letras''.
Para o bem da Arte, certamente.
Deveriam desejar-me mais mal?, e
escapar numa mala cheia de ilusões
rumo à América? Só pretensões.
Sabemos que contra o muro,
estampilha de impostos,
nem sempre foi assim; e que
esses líquenes sobre  o muro
reagem à minhas risadas, 
à distância. Sombra atroz
que ninguém responde,
que trunca, embaraça
todos os desejos e tronos
num plausível cúmulo de
insatisfação intelectual.
Ultra-fértil em sugestões,
é o que faz correr todo entulho
planejado, entre notícias e 
atos governamentais; entre o 
ruído e o caos, o ziguezague
de seus ideais de jornada
fraudulenta, de suas dúvidas
e escolhas engraçadas,
vomitando nos braços públicos.
Corre, sabemos que precisa escolher!,
e escolhe-se, ficando do lado certo,
conversando em fluxo, absorto...
O homem sai, a natureza entra.
Muda, sua palavra é imensa!
O Poeta se afasta, improvisando
restrições humanas que zunem
num rápido roubo, rapto
de luz errante, enervando
todos os termômetros
enquanto o mar golpeia
de todos os lados.
Aqui, não é muito tranquilo
chegar à uma decisão.


ENCONTRO COM O COMENDADOR

Destacava meu rasgo sacrificial
IRONICAMENTE
dizendo que era possível encontrar um tal mártir
pontualmente às seis, instalado na cervejaria
com todas as suas vocações rentáveis
espionando as finanças do mundo
com uma sensibilidade expeditiva
absolutamente repugnante.

Inevitáveis zonas de presságio

que lambiam lealmente os restos de silêncio
em cada partícula de mundo
dispersa nos guardanapos.
Pairando, numa vertigem,
acima das torres de petróleo,
das missões de espionagem 
e das mutações de onda curta
que vinham molestar 
nosso triunfo em desordem.


ENQUANTO SONHAM COM A SALVAÇÃO DO EXPERIMENTO...


Agora que cada um de nós

voltou à sua humilde profissão
sob a influência de vozes infernais
que cagam (em pó) os Outros
dentro de nossas cabeças, EU
volto também, mas ao SILÊNCIO.
O SILÊNCIO rasga tudo em volta
e vejo tudo atualizando-se rápida-
MENTE, num campo de força intacta.
No sorriso que mostro, tão deserto,
um única realidade emerge:
mais artesã, mais litúrgica, mais
RUDE e, no entanto, ainda fraca
para modelar tamanho FRIO.
O SILÊNCIO do FRIO tem
PROVAS contra mim? NÃO,
mas atinge-me com suas
''vírgulas assustadas'', buscando
a salvação de seu EXPERIMENTO.
E, de repente, rio tão alto que
faço balançar absolutamente tudo
desde a SEMENTE, desde o Éden.
Tal riso ( claro) tem o direito de
mover suas farras de deus
por trás das ações em jogo.
Nem o Terceiro mundo pára
com tais suspeitas, que enrouquecem
as cartilhas do Primeiro, enquanto
todos os povos mascam as sobras do Céu,
os saques das tempestades, 
vendendo todo o lixo diplomático
nas esquinas governamentais do EGO.
E quando os cargueiros desovam
seus pacotes de medidas paliativas
na costa, os povos mascam ainda mais
para dentro suas provisórias derrotas,
esperando alguma autoridade acordar
para voltarem a vender (a baixo preço)
suas pulseiras, colares e esperanças 
de plástico, entre o lodo e o assalto
de mansos desertos aumentados.

RISOS


Amar (eis a exclamação no

16 andar) onde o SUSSURRO,
o fumo captado que plastifica
o que era até então sem rugas,
de cor e curvas exatas, e na
primeira impressão da tiragem
passou a se repetir TOTAL-
MENTE PARADO (risos).
Safra nenhuma aqui, onde
a audiência não se estetiza
além do esgrimir noticioso comum;
aqui onde não se conjuga mais
o verbo que irisa a atmosfera
culta disponível à inteligência,
desafiando o SOL com
outras cores e promessas,
mas que desmaiam em
todos os seus tons, junto
com o ibope. Resiste apenas
a MÃO viril, que acaricia o anel.
Em vez de assistir, VENCER
a paisagem televisiva total,
articulando a MÃO com esforço
para abrir todos os registros
agarrados aos nexos sinápticos.
Nos canos que já perderam a LUZ,
e para recuperar a circulação
do JORNAL, o sistema derrama
mais medo na própria corrosão,
amparando imagens de bundas
a abrir, então, o leque inteiro,
devagar, sobre seus pontos inflexivos.
É quando a bic do Poeta vira
sonda, e cisca o alimento
interrogado de forma mecânica,
maníaca, no chão duro e
suspeito da EDIÇÃO ---
então Ela põe (nesse emprego)
toda a Cabeça no AGORA 
do anzol, buscando algo 
do que desconfiar sob a 
superfície da aposta rugosa,
submersa no pensamento.
Imagina-la assim alimenta
lá dentro, o AQUI FORA,
numa espécie de áspera
irradiação na caixa de força.
O ego convulso do jornal,
quase sem pulso, na lógica 
assustada do escuro, se pre-
para para ''cair fora'', dissonante
na noite alta e sem acesso
ao Paredão-51.

Muito diferente do réu ab (dis) solvido

que estampam na primeira página,
o SOL chega perto para domar
(com uma só pincelada) o aguado 
ponto exclamativo do jornal ---
que pára arrependido --- como
o poema de Mallarmé --- 
diante do maçarico que solda
o chão citadino às obviedades
inquisitoriais de todas as sirenes.

MAIS RISOS


Irritam-se da canhestra

captação do RISO,
indefinível veia
da figuração maquínica,
confirmada AQUI,
a partir desta ordem.
O erro da fera,
da falange que se extrema,
vibrante nas letras,
no plano da palavra
lapidada, chega à uma
refração brusca: então
outras tramas martelam
direto nos miolos
as entrelinhas da madrugada.
Só o vento pode decidir
o destino da nova figuração
em que se aposta, e é preciso
apostar nele, pois os riscos
tradicionais já não bastam,
nem cabem nas novas 
disposições em JOGO. 
Também o curto-circuito
que circula, da felicidade ao
perigo, feito nervuras,
corresponde à alegria aflita
do novo número disparado,
que desanda no tempo idêntico.
Os músculos folgam com os
motores do que se lê AGORA,
que ainda está lá, no
lado oculto que se capta,
muito remotamente, na vibração
entre as paredes do crânio,
na boca que escorre o Verbo
na voz, no RISO e nas
bordas do vaso sanitário,
onde gerânios de fezes
deflagram o fim abrupto
do antigo espetáculo.

ATÉ A PRÓXIMA!


Desabalo exigente, na inevitável

mediação dos ruídos no escuro,
acendendo as luzes no campo
imaginário, cheio de graus e custos
de sobressalto. A senha para se entranhar
chega em golfadas noosféricas
SIMULTÂNEAS, mergulhando preso,
com a respiração suspensa do rito:
reprise, pit-stop e ATÉ A PRÓXIMA!
Linha d´água à tona, repetindo
os pontos de suor mentalmente
antes de cair morto sob o lençól.
A posse lúcida do sono engrossa
as camadas móveis e rangentes, a
SUBSTÂNCIA MOVEDIÇA
que só aparece no fundo
da LUZ subvertida, na Sombra
sem desvio em que se investe.
E investe-se sem nenhum cuidado,
apostando sem dor todas as dúvidas
do Destino surpreendido por dentro.
A Transubstanciação late forte (depois)
para a LUZ abundante que Revela:
61 pontos de chegada, abrindo
um período de leva-e-traz no texto,
num percurso de ânimo ameaçado.
Dizer mais alguma coisa (aqui) é o
ensaio de latência do INDIZÍVEL.
''Espermanece-se'' em paradoxo
enquanto palpita o nó de porra bruta
na LUZ insegura da noite. Amanhã?
O Estado arma o destino do tiro
mal disfarçado que te matará
inesperadamente, durante a entrevista,
de passagem no centro do gesto.
Mas quem atira, sabe que na
última linha do texto, seu alcance
balístico hesitará entre unha e garra.
O relógio da bomba dá corda depressa
nos batimentos soterrados do planeta.
Depois, pau latindo, indiscernível,
em ligação original, orgânico-adâmica
com a Mão insegura da Terra, no pulso 
do corpo expresso na contagem.
Continua-se isso tudo pelo mais puro
impulso de cabo-de-guerra, até achar
o túnel ,o miolo ainda sem ação
da Terra Oca, nadando nos segredos
de todos os ritmos da trilha
forjada em riste, nos subterrâneos
deste esforço repetido para o firmamento.
E a Máquina Constelatória repele
todos seus pontos cegos, insensível
na morte que a pontua e força
na VIGÍLIA, mas entrando em Deus,
ela se detém, com suas montanhas
maquinando abruptamente
por dentro do teste infindável
que arriscará sua própria Humanidade.

Nono Palavreado da Análise


Todo enrolado aqui,

acolhendo um pouco
das macumbas do
''trivial variado'', com uma
pitada de déjà-vu, 
apanhada nas ruas do Rio. 
Às vezes a urgência passa
batida, e o que se tem
na Bolsa ou na Mão
empresta um novo papel
à calculadora da letra,
quando as horas mentais
já os visaram, e imediatamente,
de dentro, a garra entorta
as aplicações naquilo que corria.
Por fora da Cabeça, o
VENTO livre, a céu aberto,
dá um nó apertado
e difícil no ponto final.
Então corro, ponho Camões 
na massa e me empenho
na travessia do Rito.
O Rio me afoga na pressão
do nono palavreado da análise
enquanto as táticas do Eu
aprovam o pedido de urgência
afligindo os ouvidos da página
a pleno vapor (algo de difícil
lida na luta da Linha Fraca,
esse troço empolgante que
arrebenta a vastidão do céu
abrindo parágrafos na Cabeça.
E por mais que se arme a Cabeça 
para receber o engenho
quase ágrafo dessa Linha,
ali ainda se escreve a Vontade,
sedenta de rabiscos ardentes,
a nomear a água do riso fescenino).


KUNG FUI


Nossa parte vazia

crepita cada peixe
arrancado de nosso aço;
e, no entanto, nosso aço
ainda tece, AQUI, suas
toneladas de equivalência
furta-cor, estocando aquela 
energia furtiva dos complôs,
transformada em 16% de
TUDO QUE FALA, e refutando
70% da SOMA TOTAL,
com suas multidões curvas
solicitando para todos os ventos
novos pendões de intriga. 
É o AÇO que separa os homens
entre mudos auto-referentes e 
sempre mutáveis bicos franceses,
entre fótons espermáticos ilocalizáveis
e agulhas de acupuntura cravadas
nos pontos errados do corpo diplomático.
Minha garganta catarrenta SABE:
que assim os cúmulos abortivos
se exaltam com seus concorrentes;
e que enquanto o formigueiro
aprende a ler, a pauta comercial
anuncia alguma preparação,
com proteínas informáticas
(militarmente respaldadas)
vedando duvidosos restos políticos
nas pupilas do mundo impedido

CHUVA TIBETANA


A chuva tibetana jamais será

totalmente imaculada, já que
a mosca intrusa corre babando
para debaixo da nuvem turbulenta
assim que vê ela chovendo
sua voracidade funcional; quando
o foco fecha os olhos no difícil
escuro espermilhado da distância,
como infinita reposição de si.
Fazendo a escultura elétrica
depurar-se na draga fixadora,
no suporte pineal, no limite do
erro pau-tado, acaba aparecendo
na última linha do poema, a
beleza interceptada, como arte
de vândalo redivivo ---- nesta
última linha viva de consulta
é que se soletra sua paz
de sensações distantes, 
mas tão próximas da ordem 
de ligações impercebidas, que
parece que toda fiação dada
neste instante, vem do resto 
desesperado da cópula, que ainda 
delira tenebrosamente pela manhã.
Vem dos fios que tem luzes abertas
no alarme do último lacre de segurança
do teste deslizante. Vem da Alma,
que ainda pode fugir olhando
o espelho retrovisor reter
um pouco da face que esfria,
pela manhã, sua biografia na cama.


FIGURAÇÃO DIFÍCIL


LEIO: estou no meio,

encolhido, DENTRO,
entretido pela salada
do faz de conta que 
me contém ''hors-texte''
(contra a parede, no pulo
que rebate a posição anterior).
A respiração da caneta
e a cabeça mais presa
na curva da página
completam a usura de tinta:
o GADO olha, sabe que
isso não terá fim, nunca...
então ajusta, flaubertiano,
nas cascas da linguagem
exatamente o sentido
que faltava no puzzle do JOGO.
Figuração difícil, depois
a ESPERA, a PEÇA e
os CUSTOS para
descartar nomes e hipóteses
apressadas. Uma parte dos RISCOS
tornam a regra mais rigorosa
enquanto a ''etiqueta bem pensante''
reflete os tiques sumários
que simularão aplacar o futuro.


RE-LIGARE


Desentendo-me comigo

naquilo que me lê, e que
amontado revê o desenho
da ação, em TESE.
O que vira artigo de troca
não procede exatamente
do que vejo caminhando
contra certa cheia de acertos.
Seguro em meus dedos
a fruição do gozo, no MEIO,
antes do fim, para que quando
se ofereça o prazer previsto,
o outdoor sentido seja
inesperadamente vivo, e
faça valer a pena o EU
parado na porta da percepção.
Assim consigo dirimir a vida
irredutível do destino escrito,
extraindo e fixando sua essência.
A felicidade, convertida alquimicamente
dentro dos laudos terminais
continuará presa no mar engalfinhado,
sob seios e interjeições púdicas,
assim como nas mãos vazias
seguirá inoculada a máquina muda
da leitura, acesa e inconsútil,
ciente de todo detalhe insuspeitado
e toda possibilidade de alastramento.
Ilimitado ou banhado por
nuvens de sal e ódio, o
esgrimado suor sujo
do Poeta, adentrará o sonho proibido,
combinando rostos e bocas
em meio aos maus augúrios do Destino.

MAS NEM TANTO! A palavra

é mais coerente, CACHORRO!
Sim, com os DENTES!
Desnecessário dizer
o que ocorre AQUI.



ANTECIPAÇÃO


A Música vem desembainhando

o Poema ácido, suado de medo;
Poema de mar fechado, mareado.
Sem, no entanto, morrer
de sua própria repercussão solo,
o Poema atravessa o dia
com sua retina sentindo que,
desde o ultimato adiado do espelho,
resta-lhe apenas refletir um pouco mais
sobre tudo que pede pancada, que
resta atingido, correndo parado e
vendo crescer através de estalos
seu descuidado, vertiginoso lapso.
O Poema se antecipa ao Evento
e à sua bem-comportada
maneira corrompida.
Algumas custas processuais
(claro) 
nascem desta nudez sem cerimônia,
dessa leitura grudenta que
cospe sua baba no escuro,
colada ao indevido onanismo da Meditação.
A partir da nuca, entreabrindo
um banho adulto, de olhar fixo
nas estrelas, a velocidade seca
o Poema de todo nojo, e lavado,
entrelaçado, limpo e enxuto
de todos os seus nós, seu novo uso
se apressa contra a ESPERA.
Dentro de uma cabeça de rascunho,
cozida por dentro, DURA, medida
pela MÃO, borbulham números suados e
alguma postura de indefinição
(rigorosa, ainda que sem jeito)
de onde vazam acenos graves,
sem chance para arrepios.

ARRANCOS


Imóvel, inabitado, o Poeta

planeja agir apenas em caso de
vazios prevalecentes e
perspectivas negativas,
passando repostas prontas
às versões de escuta aguda
que lá fora o mundo liga em nós.
Assim, as correspondências
alcançam o grau de exatidão,
apesar de gastas, sub-reptícias
e queimadas por tanta discórdia
na clausura da escuridão ouvida.
O Poeta escreve isto, sem
preocupar-se com sua defesa,
certo de tomar posse, dentro do papel,
daquele sentimento seminal da VONTADE.
Mudo, ele semi-simula uma incurável
gagueira em cada pertence seu,
em cada palavra daquelas
que ele ''assusta'' na água fervida.
A cada arranco da luta, teme
desenraizar as firmas de sua pegada
na resistência contraditória da trilha,
reconciliada no prumo perverso da guerra.

CLARO


Muitos dirão que é troco de raízes

fortes, furiosamente encravadas,
de quem não pagou direito
o que devia, e tende a se
tapar de rancor. Estão errados:
queria apenas afirmar sua
pegada contraditória, imaterial,
resistindo à década de reconciliações
borradas de suor frio. Há aquele
aperto (claro) e um certo adiantamento
na pulsação das letras, que
vão pagando o mínimo 
(abaixo do preço).
O contrato tem olhos impessoais
e cláusulas de vergonha tópicas,
prevendo retrações-relâmpago de culpa
e falas de perdão aposentadas.
Mas quando voltar a falar sobre,
não lhe parecerá que o ESCURO
anda tão só, desconversando por dentro.
Você não verá apenas aquele
velho invasor germinando seu osso
contra as reações sub-atômicas do Não-Ser.
NÃO: sentirá que sua vista está
em outra parte, que não AQUI,
mas presa por um fio seguro
que conserva o calor da Vontade
numa fome nada complacente,
insaciável na nudez amiga: PRIMEIRA PROVA!,
um posspivel desvio de água noturna
avermelhando a caçada da manhã.



BANCO SEM NOME


Diminuir a distância de fachada

com as favas que se produzem
nos estalos crepitantes da cabeça,
que passam como números imóveis,
assistidos milimetricamente pela Sombra,
pesada e intangível, do CRESCIMENTO.
O Crescimento, essa quimera agitada
que alarga vosso abraço escuro, sem
chance à aproximação do Sol.
E à vossa aproximação, ó chineses,
chegam com rapidez maior à mente
todas as causas do carro-forte,
do dia do BANCO SEM NOME.
Jogo de paciência surtado, lapidado
por sobressaltos contra a parede,
sem saber como se dará a partida
ou se vosso túnel enguiçará o sono
do carro com sinalizações opostas.
Da mesa de conferência, não vos alcançamos
NUNCA!, mesmo assim eu vos inscrevo
no tampo mudo que tenho nos dentes,
e na carne da guerra, ante-sala das
sobremesas desafiadoras do acordo.
Meu lugar de honra insiste na cadeira vazia,
ocupada pela tralha de todos os pontos
pacificados, enquanto outros perfilam-se
para o ataque retórico e inofensivo,
assombrando a marcha máxima da Palavra.
Palavra passada a ferro, dobrada na pose
da boca certeira e inaceitável. O martelo
que bate o fim do pregão explode
certa ânsia de recuperação segura,
com moldura de mudança e distorção
do pulso do tempo, firmemente recalcado
pelas chamas controladas da tentativa.

Sim, mas talvez NÃO.


Suicidas desde o começo,

mas não estranhos àquele
caminho da Natureza bruta
que olha sem piscar, acenando
sem nenhum reparo ou atraso.
No trato se desfaz o corpo.
Conspira, corpo, a cada
respiração, contra o sangue
apressado que te molda.
Tortura vagarosa do inopino,
dentro do debate em gestação.
Sim, mas talvez NÃO. Com
causa rediscutida, reincidente,
procurando uma saída
um pouco mais surda, NO ESCURO.
Arrumação da mesa? NO ESCURO.
Morte ou esquecimento. A mesa
marcada por tudo que foi alçado
à idéia fugidia da morte, levantando
hipóteses em segredo de Estado.
Fetos de mísseis operados
na redoma uterina da Defesa,
isolado de qualquer ultraje,
mas com o vento traiçoeiro atrás.
Se fosse necessário agora
o instinto mais instantâneo,
e a intenção pesada se descobrisse
abandonada à própria sorte,
a vida nua não atingiria
a noite obrigatória, que
ressuscita sem susto
de seus ensaios finais.
Nenhum SOS complacente,
enquanto o rosto ganha um
verniz enjoativo e esmagado
sob o Sol. Todo dia agora é ultimo?


GESTÃO DE CORPO ALHEIO


Onde era possível o avanço,

a teia de problemas que existia
na pele do existente, ia se agravando
ou era sugado por perguntas de bolso
e em ecos se desmembrava ----
seus prótons e electróns
com a maior dignidade
(a dignidade de um laboratório de Boston)
ante as esperanças terminais da magia
ou o trabalho festivo do Capital ---
fritando a Salamandra em chama fria,
por etapas, na aguda espostejação da travessia
da CARNE através do CONHECIMENTO,
sem muita convicção...


HOMEM DE MÁ-VONTADE


Todos percebiam que aquela piada

era apenas o primeiro ataque do dia,
e ninguém mais sabia como
sorrir de algo tão estranho
e intacto em sua soberba.
A Poesia dos murros
entrava na terapia intensiva
estragando seus jabs na areia
ou correndo para o único mar
disponível no Mercado...
AS QUATRO RODAS DA MERKABAH.
E ninguém se perguntava mais
porque aquele homem investia e recuava,
a ganhar e a perder
sempre os mesmos territórios.
Esperava pacientemente,
com uma crueldade de gala,
que todos voltassem a falhar
para fechar novos negócios,
rindo pragmaticamente.
Com Deus ao seu lado,
seu discurso sempre se dispersava
suficientemente armado de delicadezas
contra as queixas de qualquer mulher.
Sempre com sensibilidade...



EM VOSSA ADMIRAÇÃO BATO CONTINÊNCIA


''Eu, paisano,

bato continência
em vossa admiração''

C.D.A.


Repara no rumo traçado

pelo retrato de José Henrique de Souza,
ou mais precisamente
em sua conversação com Deus.
Em sua admiração
também bato continência.
Enxertar a mão
no teatro barroco do Céu
é até agora nossa única atadura
no testemunho temerário da LUZ;
e modular nos olhos as figuras
do Mestre mais velho
nossa única forma segura de propagação.
Em comum, também, vós fixais matérias
e manisfestais a arte de dois
na unidade esfacelada do mundo.
''As ' twixt two equall Armies, Fate
Suspends uncertaine victoire,
Our soules, ( wicht to advance their state,
Were gone out, ) hung 'twixt her, and mee''
... e bato continência
em vossa admiração.
O Real, frente a frente,
triturado por súbitas transformações
de humor, com a Alma negocia
módul-murmurando, ou até surdamente
disciplinado pela turvação de toda idéia.
O silício didático das reinações
amadurece o sigilo das confidências,
exato na modenatura de seus equívocos.
Mas é ainda possível readquirir
a concentração do lúdico
se mesmo uma e outra guerra não bastarem?
Assombração, Mário?
Problema da linfa em que
modelo meu trabalho
na rede internacional onde cresce o Mito.
O mundo vai acabar pelas mãos dos homens
ou pela de um poeta desengonçado?
As mãos dos homens, certamente
destroem aquilo que querem destruir.
Mas a mão do poeta apenas pinta
o que não é para ser pintado, mas
sofrido em seu despojamento, e
principalmente, aguçado até o limite
por seu poder de encantação.
MÃO EXCELENTE!, eis 
o que ela decide: 
CALAR-SE ABRUPTAMENTE
por assim haver disposto o essencial.



APORTE INDESEJADO...


A ousadia de um suspiro de guerra,

metade ainda no peito,  outra metade
no ar, prende o mundo todo no espelho,
e brandamente alisa-lhe a imagem
cinza (cor dos fundos neutros de Mondrian),
onde não há nenhuma mensagem subliminar
entre os segredos de Estado invioláveis.
No escuro, um zumbido gigantesco
cristaliza o sono, com sua neblina própria
apurando a imagem ao contato dos olhos:
violando todos os céus, um avião leva para Teerã
TODA A AMIZADE DO MUNDO, mas esmagada
por um bloco de 88 indiferenças cruéis;
sobrevoa perigosamente
uma área de juízes e fiscais
desumanizados, tramando assasinatos políticos
no rumor de suas nervuras e, assim,
de espantalho em espantalho,
a multiplicidade dispersa,
com as unhas partidas,
vai reunindo suas eletrobombas em serviço
numa caçada noturna de obscuro desenlace,
zoando em meio dos possantes motores
da tocaia, por um canal de desespero e insônia.
E ainda se incorpora ao ZOOM compacto
as bordas ameaçadoras de algo ignorado,
agravando a lenta maturidade desta sabedoria
com uma coleção completa de paranóias navais
que assomam ao precipício da imobilidade
PRONTAMENTE, fazendo o mundo vibrar
sua Balança Comercial num
ângulo de ataque imutável,
com interesses de leão ensanguentado
para cada mercado interno em apuros.
Dúvidas profissionais sabatinando
pré-confianças amestradas, com preocupações
que consomem a bílis de todo um trimestre
em cinco minutos de espaço oval,
simplesmente respirando ---
sem necessidade de fungar
as coisas secretas dos adversários
ou oxigenar as próprias alucinações
usando o espelho como estratégia.


FRONT


Na primeira noite do front

a embriaguez total obrigou-me
aos banhos de uréia, 
recebendo sob o lençól
o coice das nádegas amadas;
no dia seguinte, o Sol
e os inimigos lá fora
viram uma escada 
saindo da minha boca
e demônios atormentados
descendo pela minha fala
em busca de silêncio
e cenários de investimentos
mais promissores 
que a atual temperatura do meu corpo.
Meus instintos, eles diziam,
haviam se tornado uma bomba
de efeito retardado
pela ética das notícias.
O único pecado da urgência,
NAQUELE MOMENTO,
era uma forma dúbia de,
TRÊMULOS, comunicarem a invasão,
forçando com a raiva a ânsia
dos velocímetros do combate.
O cerco ainda não estava completo,
mas alguém se esquecera
dos tanques atravessando as pontes
e ficaram todos parados, esperando
serem vencidos em vão. O rosto
da amada desaparecera de minha lembrança
COMPLETAMENTE 
enquanto rastejávamos armados
em busca da objetividade
(PERDIDA)
da batalha...


SE PUDER...


Um magnetismo cálido

(nada transitório...)
consterna os cromossomos
da economia mundial,
que é carne sem asilo
em meu crisol, e frêmito
de intuições capitais
nas fronteiras ideológicas
onde cada Estado
pressente seu ser telúrico
na concorrência de cartas marcadas
e decretos de sangue.
Enquanto uma seiva exígua
escorre nos travesseiros de gato,
o poeta escreve beijos de amor
e terremoto no escuro: Rio-tato
com Cara de Cão
montando guarda
no Mercado de más notícias
e nos quatro túneis
de sua correnteza de riscos.
Ali há riscos minúsculos
onde a vida dos homens
flui sem intervalos, e
também, um cortejo de mortes
que não tira férias jamais
nem oferece à ninguém
nenhum tipo de auxílio humanizante.
E há feridas grandes como províncias
onde com glórias pré-fabricadas,
o inimigo vai se formando
lentamente, na rigidez das horas
de orgulhosa tenência nacionalista.
Dentro dos poemas, há
também, mulheres e trabalhadores
esparramados num líquido vermelho
junto à ínfulas e subornos
de todo tipo. E metidas
dentro de urgências expectantes
BOLSAS DE ARPILLERE
reúnem todas as flagelações
de sua mata-lotagem
num RISO MAU, que é
PURO ESCÂNDALO.

De fato, estava em nossas mãos

tomarmos o pulso do sistema
e medir a temperatura de seus motores.
Só que... não se respirava mais
no rubro projeto dos punhos cerrados,
porque um humor de lixa de aço,
eriçando seus colhões de classe,
media apenas o próprio orgulho
com a beligerância da História
no tempo incalculável de seus próprios cálculos.

Antes de nos olharmos de novo

(eu advertia)
soltarei de uma vez o desafio
que venho velando
com todos os meus fantasmas
homologados por patéticos vai-e-vens:

ESTOU DURAMENTE TRANQUILO

NO MEU INFERNO DE ABERRAÇÕES
E JÁ PODES COMEÇAR A IGNORAR-ME.

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