sábado, 28 de abril de 2018

HECCEIDADES

História como conjunto de
''agoras'' sempre relacionáveis e
passíveis de atualização.
Signos precursores, pressentimentos,
atravessam nosso organismo
como batidas de ondas.
Da ameaça do futuro
ao agora preenchido,
como são vorazes
os artistas e desertos.
Glosando o texto
TELEPÁTICO
com corpórea
presença de espírito.
No meu corpo está presente
tudo o que me trespassou:
SUN, a Suavidade, o Penetrante, o
VENTO. LI, a Chama, a Claridade, o
BRILHO. TUI, o Lago, a Serenidade, a
ALEGRIA. 
Aspiro aromas, vejo cores,
toco formas e
me dissolvo extasiado
nessa aura ----
Ovídio também prescrutava
as estações, em dias de sol 
indo ao Mercado. 
O passeio é uma HECCEIDADE
que muda o mundo sem permissão
(a cumplicidade obrigatória
o atesta...), reunindo as pontas
de paisagens velocíssimas
na linha pontilhada do horizonte.
Agora é esta a sensação 
na condução dos negócios:
que o trem passa rápido demais
pelos fatos, cada vez mais vento
de detalhes precisos
(ficando debochado...)
mas se mostrando digno,
a fala mansa
querendo aliviar-lhes a sorte.


K.M.


Meu texto, minha hecceidade.


Platô significa “disco que integra o dispositivo responsável pela transmissão da força do motor às rodas de tração”, ao menos em português. Podemos entendê-lo como “campo de força”, na caneta de Deleuze. 

O que dá força à individualidade? 

Força que faz devir. 

Assim afirmam no volume 1 de Mil Platôs:

As multiplicidades são a própria realidade, e não supõem nenhuma unidade, não entram em nenhuma totalidade e tampouco remetem a um sujeito. As subjetivações, as totalizações, as unificações são, ao contrário, processos que se produzem e aparecem nas multiplicidades. Os princípios característicos das multiplicidades concernem a seus elementos, que são singularidades; a suas relações, que são devires; a seus acontecimentos, que são hecceidades (quer dizer, individuações sem sujeito); a seus espaços-tempos, que são espaços e tempos livres; a seu modelo de realização, que é o rizoma (por oposição ao modelo da árvore); a seu plano de composição, que constitui platôs (zonas de intensidade contínua); aos vetores que as atravessam, e que constituem territórios e graus de desterritorialização. [p.8]


K.M.

sexta-feira, 27 de abril de 2018

Ts´ui, Reunião

Avancemos mais um passo ! ,
e que força tem as pedras
sedimentando as coisas
nas frestas da poesia;
além da corte,
recebendo notícias
do cerco à percepção
que envenena as notícias
antes de fazer rir
(história sujeita à leis
severas de compreensão)
. Ts´ui,  Reunião ---- é necessário que
HAJA UMA REUNIÃO
de todo o disperso
e o acréscimo de uma linha forte,
a 5 (quinta) Etapa de Ts´ui: 
a idade e o movimento;
ouvidos mais apurados
depois de você e, sobretudo,
o poder de enfrentar,
de alguma maneira precisa,
algo mais duradouro.
Algo fértil que
reverbera novos ângulos,
MIMETIZANDO-SE.
A oposição, o impossível, o
sobre-humano, se deparam
com o que desejam impor.
Então ENCOLHE-SE
enquanto se ampliam as ''lembranças''
e dilata-se a biografia
em que instalamos nosso espanto.

K.M.

sábado, 21 de abril de 2018

Mésalliance

Arquitetura do fenômeno.
Nenhuma coação lírica-religiosa,
em troca: escape, liberdade, os
mecanismos inconscientes
explorados por ritmos escritos
(se pasea en la playa,
banhistas e ondas
alargando a virtualidade das palavras).
Novelas e horizontes
injetados, esteriotipia
e algum lastre sobre a vereda:
loucura das grandezas,
megalomania perversa,
''megalomania objetiva'' ;
impulso absoluto do orgulho,
exibicionismo frenético do ''capricho''
e da ''fantasia '' imperialista.
Brecha no bloco imutável, normal
da ação, entreato das palavras
carnavalizadas no espaço mítico,
na praia moderna (mésalliance),
optando pela sátira instantaneamente
cômica em seu duplo foco
de moralidade e fantasia.
As imagens se parodiam
em graus diversos.
Mulheres airosas
e suas coxas sobre a areia,
ninguém poupa palavras
ao telefone: multidões aguardam
um milhão de sinais. Dubeck fala
(olho testemunho e
olho narrador)
como um guarda:
''Meu blog, meu conceito
de jardim, determinando
o desejo nu. Grossas coxas nuas
e o silêncio do sexo
no olhar, no centro destes
textos, Delfos, a densa porosidade
dos mitos. Vaga aliança
da aparência com a espera,
ela é fruta que me impele
para a multidão na água
(naiades de biquini
procurando sustentar seus dígitos)
Tudo pretendia sugestionar.
Os deuses disseram entre si :
''Conseguimos cumprir o acordo
com essa humanidade. Agora,
o risco''. E talvez se pensasse
em revelar todos os mistérios.
A erótica divina e
suas múltiplas seduções.
Doce e perplexa carne,
na velocidade da inconsciência
se inscrevendo nos rostos 
e gestos aquáticos''. 
Restava a consciência especialista
em ampliar o rito. Intertextualidade
soando na tela do celular como um concerto,
e certamente as mulheres também
se viam ali, falando ou representadas.
Eu parava e observava: 
não só bois tranquilos
pastando  o verde eco de vida
na memória da Web.
De la Sixtina do blog
contemplando também suas pinturas, 
procurando Deus na
lei das probabilidades da arte,
refestelado de afrescos,
vinhos e castelos, florindo há uma semana
como se os sons de Frescobaldi
se condensassem em paisagens,
pedras que o luar reverberava
epifanicamente: amostras de
Bronzino, Tintoreto, Andrea della
Robbia e Filipino Lippi.
Abrindo os sanduíches na praia, 
tropel de notícias e segredos. 
Que súdito eu era ?
Que notícias trazia?
Que segredos entregava ?
Mas estancou-se a prosa,
sua mínima quase-história,
sabendo que sua vida era curta
em suas grutas e espirais
na direção de outras galáxias.
Não só um pobre homem no
Caminho Novo das Gerais,
sentado numa praça medieval,
mas também os anúncios
pós-modernos na rua,
e o trânsito todo conectado.
Tudo sugestionava.
O poeta atentando:
não necessariamente um turista
escrevendo notas
(L´abbandonarsi semantico 
del personaggio alla propria situazione;
cadde! , cerebrum. Fortuido, caloris e 
il quarantesimo giorno.
Provocatio. Spermatis),
mas um sábio etéreo
que atentava, disputando e
cochichando, a depender dos
jornais. Camelô literário,
vinha de Esparta
com uma persuasão maléfica
e certeira através da noite.
Na escuridão da pedra
merecendo seus raios de luz.
O jogo acrobático
da libação pela qual alcançou
o bem da Divindade,
aquele pequeno grande
romance, e suas respostas.
Escrevia marcando, adubando
o dia por nascer
com notas de rodapé;
incansável em entretecer
especulações, a contínua alternancia
dos significados, resvalando a alma
em ásperos despenhadeiros
(despassarado e exposto
à paralisia da tarde,
verbo coruscante,
meditarrânea fagulha
versando tropical em grego).
 O mar, o prédio, os pássaros.
O sol e um coração de inseto
pulsando detalhes imensos.
As coisas com desprendimento,
um centímetro acima do instinto vital
num desespero luminoso. 
Atenção vibrando
Nos sete raios da consciência.
Entreaberta a cortina
Da percepção,
Talvez se saciasse o desejo
E emudecesse o verso
Num alvo súbito.
A luz, o sonhos mortais,
De beijos e de rosas,
Ah, o amor (nos confessamos)
Na linha do presente
De nossa frágil vida transitória,
Voando nas asas
De um final tremido,
O discurso premente
Em câmera lenta.
Pralaya
entre cinzas e espectros
(fantasmas sócios e
Extremos, mudos objetos
E sensações palpáveis 
de frases pelo corpo)
Por quanto tempo
Ficarei pairando na conversa ?
A aura literária
E o sopro do vento leste
(as águas estão mais frias,
A fria, a agreste areia do monólogo).
É próprio o lugar
Para tais pensamentos,
A pesquisa do nada
Convidando o olhar maduro
A escrever a partir do sonho.
Repara que espetáculo. O orfismo.
Entre larvas e monumentos falantes
No olhar do yogui, aquele fruto sensório
arrancado da indistinção da Natureza
(aspirando à plenitude intelectual
À distância, Manas carpindo
O poema da Luz 
no instante do olho que se ilumina).

K.M.

quarta-feira, 11 de abril de 2018

ESPIRAL

Espiral

Retalhos de várias vozes
e fluxos de consciência
na solidão do monólogo
(a posse do discurso),
quando o corpo responde sedento,
são e hercúleo nos campos preparados;
olímpico inventor de sucessões
inesperadas, psicologicamente palpitantes,
pelos músculos rijos sob o sol
e o estado de atenção ampliada.
Alavanca da página
que vaza o verde e o azul
nos reflexos de vidro 
(detonação de músculos e neurônios).
O zumbir do vento no gramado
e outros presságios do ouvido.
O disco girador das esferas de influência
(sarrafos, lirismo descuidado),
conversas e histórias na
fusão invisível dos eixos da narrativa.
Vejo o esboço na espiral
que vende e acelera o assunto.


Sem interrupção.

Tempo a fecundar.
Abrandando-me, em contemplação
meus olhos se guardavam,
calmos e atados no caule.
Havia ainda a concha na solidão
e o estado normal das coisas.
O fincar-se como mastro,
o dar a volta na chave
e fazer cifras com analogias.
Sem interrupção. Pélagos e
escarpas esculpindo a subida
lisa e verde como um fruto inteiro.
Aqui os raios abriam o riso
que não se penetra;
eriçava as crinas e esperava
a lunação nos pastos,
perseguindo cada clarão de luz,
quantas vezes perdido por cabeleiras
e bosques ---- cavernas e visões,
e ondas de carne navegando lemes
e expondo parte de seus jogos.
O trote das passadas adentro
com um badalo glandular de aviso.


Carpintaria de muitos planos.

Uma gota que seja de você
em cada poema, como
para fortalecer minha desordem
a fim de  reanimar nosso pacto
e apresentar a prova entrelaçada
que imprime força à letra.
Me mantenho escrevendo,
o gesto incisivo que imagino,
preciso mergulho de rapina
no gargalo veloz da página;
para pegar, pescar, a voz úmida
submergindo contínua
no escuro que não pode secar
(ponto além da escrita,
o andar por dentro de si).
Cenho composto por poemas
e vazio sem rasuras, o poema
pega no tranco, arranco,
atropelo riscando a pista
com manchas de pneu furado
na batida: letras na margem apontadas
contra a mata dos sentidos,
flashback, o mel e a penugem
das pernas , e mais o puro movimento
do verso na direção das entrelinhas
(margens de permeio).
A mesa máquina se completa.
Carpintaria de muitos planos,
errática, acrescentado-se
de novos talhes, 
apagando-se e recomeçando
no pensamento, que se reescreve
continuamente,
rascunho e resultado constante.


Adaime e osso

Deixarão que eu fale
porque sou poeta. E te direi
estrela inédita
na vastíssima escuridão
que me contorna, surgiste
tão igual à tua própria boca,
nunca meus olhos viram
teu corpo e tua carne tão moça.
Deixa meu ´peito ondular-se
nas tuas pernas de repente
permitidas. E prometo,
prometo mares e mundos
e te imagino subindo
as escadarias do prédio,
mãos enlaçadas,
palavra louca no ouvido,
não ouças ! ,
mas deixa as palavras
se transformarem
em coisas investidas de cor,
espaçadas e comovidas,
que nos abraçam e morrem conosco.
A forma das palavras é dúbia,
varia com a veleidade,
mas seus contornos se encaixam
como paisagem nos olhos.
O poema é andaime e osso.


Eis que dançam grinaldas

Eis que dançam grinaldas
e cada uma joga em mim o que mais amo:
a perna rósea, as ancas côncheas
e os ademanes verdes e rubros
dos olhos ágeis ----- isto já me sucedeu:
a tartaruga em sua casca,
em suas leis e jornadas
medita dia e noite.
Ouço os zumbidos dos besouros
e abelhas sobre o mel .
Ali abano minhas guelras
e borbulho meus acordes
de música submarina.
Mais uma hélice na engrenagem.
Como ?, no martelar submarino
as anêmonas pingam cúmulos
e gomos brancos de amnésia
onde as conjunções do tempo
reflorem , o inabordável frutifica,
o tempo criva os frutos
quando se sazonam as messes.


FILÃO

A cena se adensa
(mar incessante
com anseio de transbordar).
O mistério que nos ar-re-banha,
sonho concreto, passo e
vôo; mil platôs
e mania de topo
de peles recobertas
de dilemas
no verniz indiferente lá fora.
Fileiras, preciosa vista,
e filão de faiscar olhares.
Esteira rolante de calmas
e fé no tempo da visão
(aprimoramento),
ondas do mar
e torrente da montanha,
com olhares de lá
e ilusão do momento.
O que delimita o panorama ?
Sanha. Senha.
Sob a neblina
sopro a fumaça,
rompo a cortina,
des-dissimulo.
Ó extravagâncias da Natureza!
Reparo. Firmo confiante.
O agito do mar
e a montanha antena,
sentinela e alternância
de ritmos ---- improviso dos ventos,
plagas, tumultos,
bulícios.


Maneiras de ver

Falante engraçado
para ouvir, depois rir.
O biscate é vender
delírios, colírios.
Maneiras de ver
e audição dinâmica,
eu disse, ah,
o destaque geral
(real e imaginado)
gesto pensado
por uma mente comum,
tangível,
de maneiras de ver
os sinuosos enredos 
que palpitam
e as percepções fabricadas
o vazio exigindo
toda a razão;
perspectivas de
sobrancelha cerrada
à luz de um hipnotismo absurdo,
embolamento de sorrisos
e idéias em cadeia ----
por dentro tudo revolvido
com a limitada visão do espelho
a me mostrar sinais, a 
respiração, só
e esta pálida vontade de.
(simultâneo, a necesidade de. 
talvez haja o imperativo
de um objeto,
irresistivelmente ----
um poema antigo e enorme
cheio de labirintos
onde o poeta mira a musa,
penetra seus encantos;
o poeta recria a musa
silenciosamente:
ama, desperta, agradece,
agrada e esquece.
A metamorfose da musa.


Habitat

Habita, familiar, a faixa do relâmpago, as ruínas do maremoto, a chama dançante, o reino das ondas giróvagas, o balanço dos navios correlativos, a fantasmagoria de Veneza que dorme esquecida em si própria, auto-espectra, a subversão da luz.



Si sventola enormes giornales.

Scrittori, è vietato pensare alla bottéga in ufficio, il concetto de bottéga nuoce alle istituzioni; ai piani dello Stato; allo sviluppo dell´industria; alla stabilitá del tecnocrate. In pandemonium forse andrá meglio: ------ Il viaggiatore non ancora stanco di aver girato il mondo con le sue varianti fantasticando sulle galassie (.) ieri furibondo la martelai (il faro è il galeotto dei nostri torbidi amori elettrico coronato di pietra. Mi appare di scorcio; mi attaca alla gola - poi si sventola enormes giornales.



Epifenômenos da mente.

Por decreto da sorte
o conhecimento cósmico em expansão,
um só princípio ordenador,
um só Purusha , 
movendo-se ótico e sanguineo
AO CORAÇÃO
(ei-lo já delirante, a ebúrnea aljava:
livros, sacrifícios, padrões).
O medonho lugar sagrado
iluminando a corola de tua boca
enquanto tuas pupilas devoram o mundo.
O seu , e o nosso bem se esconde;
na terra oculto jaz outro tesouro
além do conhecimento
(daquela tenra vida o fio de ouro),
conexões secretas nutridas, a melhor
metafísica aplicada
que vaza como água invisível
no pensamento, na sede de
dados economicos e ações;
porque o século vai começar 
saudando o PIB e o Graal
ao mesmo tempo, entre o Alfa e Ômega.
Nunca dizendo a impronunciável
verdade absoluta: Brahman. A
imitação do Agnihorta
na sorte e na prole.
Quatro cores básicas
e essa infinita reverberação
de dígitos capitalizados.
Ares imperiais
em cada história local
(seus conteúdos e jornais),
toda manhã e toda noite.
Mente . Palavras e Manas.
Graha captura,
apreende, influencia,
e de líquido alcançado,
libação divina ----
corações atraídos
em cujos olhos, que 
encantavam, se revia a Natureza.
Olhos e despojos.
Opacas névoas eclipsadas.
Mas também olhos milagrosos,
epifenômenos da mente.



Gnose

Há neste espaço, mas coincidindo com a consciência do herói, ou com o acontecimento central dessa consciência (a Luz), uma espécie de intermitência, uma zona da qual somos mantidos afastados, para que, por essa lacuna no seu interior, seja feita a Luz e assim ele exerça a pura potência de ver. Mas esse tempo improvável, não captado, roubado ao encadeamento regrado do dia comum, não é só a profundidade da duração que Bergson exprimiu. O que acontece aqui é que o personagem central ---- esse homem que comercializa gratuitamente a própria vidência --, entrando em diferentes estados de consciência intensificada ao longo do dia, parece entrar sempre na mesma Luz, transportando-a apenas a pontos um pouco diferentes e, cartografando o abismo das visões, as lembranças de acontecimentos futuros, a imagem do imaginário divino, está sempre prestes a se afirmar numa quase exterioridade alarmante.